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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Por outras maneiras de ocupar as praças

Ir além de reivindicar os espaços públicos: dar novos significados a eles. Esvaziar os sentidos impostos - até que as praças, novamente purificadas das narrativas de antes, tornem-se enfim democráticas, plurais, amplas.


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O que significa uma praça no coração da cidade? Será que há alguma utilidade além de ser via de acesso para as pessoas sedentas de pressa? Por exemplo, no Parque Halfeld, em Juiz de Fora, onde estou nesse momento, as motivações das pessoas são variadas: caminhadas, o sorvete de casquinha vendido no trailer, as miçangas dos hippies, a caça de criaturas virtuais pelo celular, um lugar para namorar, ou para fumar cigarros proibidos, ou o conforto temporário dos bancos, poder jogar xadrez nas mesas, a vontade de fazer xixi...

Ao olhar para o alto, a praça torna-se para mim um vetor de utopia, um desejo impossível, de uma cidade inteira tão verde e arborizada. Pena que as cidades contemporâneas se tornaram verdadeiros altares de devoção ao instrumento mais venerado do nosso precário país: o carro.

Pedestres e árvores são tipos em extinção. Hoje em dia, já se fala de inteligências artificiais, e talvez em breve nem os carros precisem ser dirigidos por humanos. Então, é uma nova natureza que emerge e se configura. Com exceção de meia dúzia de cientistas, o resto da humanidade apenas observa a chegada de sua própria obsolescência.

Ainda que as praças sejam extintas, ou não tenham um sentido nos olhares contemporâneos, há um fenômeno que elas abrigam e que persiste no tempo, apesar de ser coisa absolutamente inútil e invisível para os passantes: as estátuas de militares. Ninguém sabe quem são aquelas pessoas nomeando bustos e vultos de pedra. Porque imortalizar essas figuras no talhe, corporifica-las no centro de uma praça da cidade?

Por um momento, pondero se não seria melhor fazermos estátuas para pessoas que pareçam mais dignas delas. Milton Nascimento. Augusto de Campos. Milton Santos. Garrincha. Machado. Camões. Drummond.

Mas depois de elencar nomes, penso se a própria existência das estátuas não seria opressora, até mesmo fascista. Como um fantasma do passado, cuja própria mumificação pétrea não seria uma espécie de cobrança em cima dos vivos, pressionando por glórias e feitos à altura das páginas dos livros de história.

E se, no lugar de bustos, tivéssemos construções lúdicas? Estátuas sem nome, sem sentido, prontas para se tornar apropriadas pelas pessoas da maneira que queiram? Como uma música, que se ouve na rádio, e se canta errado, e se toma como um marco de momentos da vida (mesmo que a letra fale dos golfinhos do pacífico)?

Porque os espaços públicos não se tornam sempre tão convidativos para a ocupação física, mental, emocional? Como se fossem trampolins para novos delírios?

Em um mundo paralelo assim organizado, seria muito mais fácil ponderar sobre o significado das praças, das cidades, e das sociedades. Paradoxalmente, a impossibilidade de oferecer um uso específico para os espaços poderia dar mais sentido a eles.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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