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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Porque as lutas contra a corrupção fracassaram no Brasil


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O Brasil resolveu supostamente passar a limpo a tal da corrupção. Até então, nunca fora um problema essa coisa de agir muito distante das normas estabelecidas - criamos até um preceito para legalizar tal postura, a famigerada "Lei de Gerson", institucionalizando assim o jeitinho brasileiro do qual muitos se orgulham. Por isso, a julgar pelas manifestações contra a corrupção que tomaram as ruas de assalto há alguns meses, essa história de "jeitinho" parecia algo fadado à extinção.

O problema é que, em vez de identificar essa postura no cotidiano da nação e promover uma reforma geral (ou uma terapia coletiva), elegemos um bode expiatório. Muitos cidadãos apostaram que a catártica atitude de bater no PT (via panela e pixuleco) iria realmente funcionar.

O PT envolveu-se sim em escândalos de corrupção, e aqueles membros do partido que procederam dessa maneira devem ser julgados e condenados. Só que esse não é o ponto. O problema, a meu ver, é quando associam as palavras "PT" e "corrupção" como se fossem sinônimos.

Isso me parece simplista, e se fosse o caso, poderíamos começar a pensar nisso pegando a escala de valores. Os escândalos mais consideráveis em termos quantitativos foram protagonizados por tucanos, como o HSBC, o Tremsalão, o Panama Papers e o Mensalão Mineiro. As quantias chegam a alcançar mais de dez mensalões. Ou seja, se um partido tivesse que se tornar sinônimo de corrupção, seria o PSDB, apesar de que creio que não é também o caso.

Não é, porque, antes de mais nada, corrupção é algo condenável independente da quantia. E todos os partidos e toda a política nacional cultivam práticas nesse aspecto. Esse modus operandi é democraticamente praticado por todos. Não é que o PT se tornou corrupto ou inventou a corrupção - é que a política partidária exercida no Brasil praticamente demanda isso. A carapuça serve em todos eles, o sinônimo é adequado a todos eles.

O grande problema com o PT é que houve um pacto, proposto e liderado por José Dirceu, que os levou ao poder, mas acabou por desconfigurar o partido do conteúdo programático que seguiam. É difícil negar que se trata de uma traição - até mesmo porque esse pacto foi responsável por minar a representatividade de toda a esquerda no país. Ironias do destino, na hora do impeachment, esse vácuo de um discurso amparado nas camadas mais militantes contribuiu para a queda de Dilma.

(sempre bato nessa tecla da desintegração da esquerda, até para apontar como o discurso de associar o PT ao comunismo é ingênuo, vazio, irreal, frívolo, vão, destituído de relevância).

Contudo, em termos pragmáticos, foi esse pacto que permitiu ao PT fazer o que fez. Que foi muito, em termos de erradicação da fome e da miséria: nesse aspecto especificamente, os números me obrigam a concordar com o bordão "nunca antes na história desse país". A meta mais otimista da ONU falava de uma diminuição de 40% da fome em uma década, e o Brasil atingiu impressionantes 82%.

Só que, no sentido do fortalecimento institucional, nos foram dadas migalhas. E nem digo das instituições oficiais, como governos, universidades, institutos, museus, fundações; mas pensando também em construções simbólicas e mesmo culturais - família, amizades, grupos, coletivos, agremiações várias.

Não deixamos de ser esse esboço de nação que sempre fomos. E me parece injusto culpar o PT por isso. Na verdade, as migalhas que eles arremessaram talvez tenham sido o melhor que algum governo já tenha feito nesse sentido.

Afinal, se formos abordar o tema da corrupção de maneira realmente franca, acho que todo cidadão realmente de bem deveria fazer um mea culpa sobre tal aspecto. Porque, no sentido lato do termo, é igualmente corrupto entrar com carteira falsa de meia entrada, estacionar em vaga proibida, não dar preferência no trânsito, falar uma mentirinha supostamente inocente, pedir receita médica para faltar no trabalho.

Enfim, enquanto continuarmos terceirizando culpas e negando responsabilidades, seremos esse esboço de país como agora. Não precisamos de um bode expiatório para falar de corrupção, e sim de vergonha na cara.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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