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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

A Língua de Lula

Por mais críticas que se possa fazer ao ex-presidente, sempre o admirarei por levar a forma de falar do povo para o epicentro do poder instituído.


Cópia+de+LULA+EM+SILHUETA+-+000098+-+CD+1XX2.jpg Por mais críticas que se possa fazer ao ex-presidente Lula, sempre o admirarei por levar a forma de falar do povo para o epicentro do poder instituído. Isso não é pouca coisa. Usar mesóclises em um discurso é algo não apenas fácil, mas confortável. Não se precisa de culhões para citar termos pedantes e mofados em discursos oficiais: essa cantiga de ninar tem quinhentos anos.

Mas Lula falou como se fala aquele que não tem nada, e isso no centro de tudo. E isso é muito. Por essas e outras, a fala de Lula sempre incomodou e sempre vai incomodar. Os programas de rádio e de TV evitam inserir trechos de seus discursos, porque é uma fala que mobiliza – seja a luta ou seja o ódio.

Se há algo positivo que se possa tirar do triste episódio da doença que afetou a garganta do ex-presidente, foi como isso acentuou o timbre ríspido e ancestral com que Lula parece se comunicar. Forças adormecidas dos nossos poucos séculos de vida falam por Lula e com Lula. O homem é capaz de ressuscitar pulsões que pareciam condenadas aos grotões do nosso bebê continental.

Minha admiração por ele e por sua fala é do tamanho da minha desconfiança com esse pacto territorial que já foi extensão do reino lusitano e que agora canta de Estado nacional. Isso a que chamamos República, e que nunca foi lá muito justa para botar comida na mesa dos milhões em cada um dos tantos rincões.

Eu poderia admirar Lula apenas por ter sido aquele que erradicou a fome como nunca antes (se a globo não o reconheceu por tanto, o prêmio em Davos na Suíça me parece mais). Mas o admiro por razões linguísticas. Admiro sua semântica de Garrincha. E por ter essa retórica que é de corpo, que vem de qualquer lugar para além do racional, que não é metódica como o positivismo ocidental. Não, Lula é “monstro”, no sentido daquele que mostra e incomoda, que traz as vísceras para a sala de jantar.

Claro que a sala de jantar não é lugar de vísceras, ainda que a dieta carnívora não seja lá muito eloquente para me convencer do contrário. Mas é que um pacto nacional que se preze precisa distribuir símbolos e sonhos para todos, mesmo para aqueles que podem sujar a mesa de poeira (por isso, entre símbolos e sonhos, que se incluam banhos e manjares e curas). E, quem diria que, durante um tempo, não é que tivemos?, se não para todos, para vários que nunca tiveram o mínimo (que já é tanto)?

Alguns não se sentiram representados, ainda que não abrissem mão das benesses. Esses que falam mal da cachacinha do cara durante a embriaguez do churrasco de domingo. Se agarraram à bandeira do Brasil como quem levantasse o velho pacto de país, esse de quinhentos anos, esse da casa grande e da senzala, esse em que as instituições são frágeis como palafitas e pontes superfaturadas. Esse país do passado.

A fala de Lula foi, no passado, e é, no presente, a fala do futuro. De um país para todos. Claro que, nesse meio tempo que é o século vinte e um, ele, Lula, teve seu quinhão de erros, e nós brasileiros também não fomos assim tão exemplares. Nada de novo debaixo do sol e da Terra dos humanos. Ainda assim, sempre admirarei Lula, não apenas por isso (e apesar do que se deva criticar), mas é que me parece muito nobre levar a fala do povo para o epicentro do poder estabelecido.

A fala, que é um instrumento democrático, e que tem por natureza ser fluida e mutável, mas que alguns Pasquales e catedráticos quiseram enfiar na marra dentro de livros e tubos de ensaio, fazendo com que o povo acreditasse que não é capaz de falar sua própria língua. Quer maior atentado contra um pacto nacional?

E, no entanto, nos deliciamos e saboreamos com a inventividade da fala do povo, e os gringos estudam Patativa do Assaré em Harvard, e Lula vestiu a faixa presidencial, não como presidente tradicional, mas como povo em riste, como mais um, como um de nós, do tipo desses anônimos que não dariam em nada como sempre se deu nesses quinhentos anos que até agora foram o nosso sempre.

O caso é que começamos o século vinte e um com o pé de esquerda. E o peso dos séculos passados não perdoaram esse disparate. O negócio é que a fala de Lula está gravada, e não apenas nos laser discs digitais. Mesmo que Lula nem sempre tenha honrado a imensidão simbólica que ele mesmo representou, o estrago já está feito. Os tempos agora não são mais analógicos, o que significa que não podemos mais rebobinar a fita. Um ex-metalúrgico subiu ao poder, e não há nada que ninguém possa fazer. Não poderemos nunca mais dormir sem essa. O que é mais fantástico.

*

Enfim, incluo um pós-fim, ou um PS., por motivos de: o triste Brasil atual: PS: Este texto só trata do que o título já escancara – a língua de Lula. Sem tecer análises ou julgamentos sobre o homem e o político, porque disso já estamos todos saturados nesse país de Moros. É um texto apenas sobre alguém que, ao dizer, rompeu com protocolos que não dizem nada. Se a humanidade evoluísse no pudor de protocolos, o Império Romano estaria ainda na ativa elegendo cavalos como senadores (não que mudamos tanto assim nesses séculos, mas pelo menos leve em consideração a penicilina). Abraços e amor para todos.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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