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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Arte inofensiva versus arte transformadora: a disneylização dos contos de fada

Em tempos de discussões sobre "arte degenerada", é oportuno lembrar os comentários da psicanalista Clarissa Pinkola Estés (Mulheres que Correm com os Lobos) sobre ilustrações de contos de fadas. Ela compara o ilustrador vitoriano Arthur Rackham (1867-1939) com o estilo "domesticado" dos desenhos de Walt Disney.


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No livro "Contos dos Irmãos Grimm", a organizadora e psicanalista Clarissa Pinkola Estés fala da beleza das ilustrações de livros de contos de fadas da Belle Epoque. Para Clarissa, o valor dessas imagens está no fato de que não se resumem apenas pela beleza, mas também pela fuga das normas.

Ela cita as ilustrações de Arthur Rackham, repletas de formas distorcidas, de sombras, de atos indelicados. A princípio, a arte de Rackham parece ofensiva, pelo menos se a observamos no paradigma do filosofo Rousseau, que idealizava a infância como uma época de pureza e de ausência de maldade. Mas Estés vê obras como a de Rackham sob outro prisma. Para ela, essas imagens são “como arte verdadeira, tão elegíaca, tão dinâmica quanto o modernismo, tão antiga, tão misteriosa quanto os desenhos feitos à luz da fogueira na superfície de arenito das grutas de Lascaux na França” (ESTÉS, 2005, p. 28-29).

Totalmente diferente do tipo de imagem feita por ilustradores como Rackham ou Edmond Dulac está nas produções da Disney, quando o estúdio adaptou as histórias dos irmãos Grimm para desenhos animados. Todos os aspectos grotescos e distorcidos foram adaptados, amaciados, subtraídos. Diz Clarissa: "Quando as imagens são amesquinhadas em versões “bonitinhas”, o impacto surpreendente de encontrar beleza e transformação naquilo que se acha mais grotesco, feio estragado, se perde; o conceito de redenção para todos desaparece (ESTÉS, 2005, p.28). "

As obras que a psicanalista chama de arte “são fantasmagóricas; possuem sublimidade; denotam fome, distorção de escala. Ofendem a perfeição e ilustram anomalias de todo tipo. Abrigam componentes extremamente simbólicos, poética e politicamente antigos” (ESTÉS, 2005, p. 28).

As ilustrações da Disney são pura arte conformista, conservadora. Elas não distinguem os personagens ou suas imperfeições, e pintam um mundo onde todos, pobres ou ricos, são igualmente belos e dignos. Toda a distinção de castas (ou classes) da realidade são dissipadas nesse tipo de representação.

A princípio, pensamos que o "estilo Disney" poderia contemplar uma bela visão de um mundo finalmente igualitário. Quando, na verdade, é uma perspectiva que renega as "distorções de escala" e a profundidade da realidade. É uma fuga do problema.

*

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Contos dos Irmãos Grimm. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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