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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Eu queria levar você para além dos caminhos: o Disco Do Tênis, de Lô Borges, ao vivo


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Ontem, Lô Borges tocou seu Disco do Tênis na íntegra aqui em Juiz de Fora. Gosto muito desses shows que tocam discos inteiros, por seu caráter ritualístico, que depõem contra essa fragmentação pós-moderna, e possibilitam uma visão panorâmica do projeto estético de determinado artista.

Discos tocados na íntegra ao vivo parecem tratar a música popular da maneira que ela merece. Só diz que pop é descartável quem nunca ouviu os clássicos da Motown, ou os Beatles, ou o rock americano da costa leste, ou Joni Mitchell, ou as bandas de AOR, ou tanta coisa que faria dessa lista uma bula. Raulzito: “nunca vi Beethoven fazer aquilo que Chuck Berry faz”! Pois é, meu caro carpinteiro do universo, se música pop não é melhor que clássico, também não fica atrás. E que Deus abençoe o já saudoso rei do rock Chuck. RIP.

Antes de sair de casa ontem, assisti ao documentário "The Strange Trip of Bob Weir", disponível no Netflix, que conta a história do guitarrista co-fundador do Grateful Dead. Nunca fui fã do country eletrificado e arrastado da banda, mas o documentário é uma maravilha, que nos transporta belamente para os anos da psicodelia americana, filmasso, me ajudou a entrar no clima do Disco do Tênis.

E, uma vez diante de Lô e sua banda, ouvi tudo de camarote, e digo isso pelas companhias. Vários dos bons amigos que fiz em Juiz de Fora, André, Maria, Gabriel, Edmon, Pedro, Anderson, Juliana, enfim, como falar de um show do Clube da Esquina e não citar os amigos da esquina de cá? Quando falo em camarote, não me refiro à gaiola burguesa cheia de perfumarias, mas ao espaço privilegiado do afeto.

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Para executar seu disco de 1972, Lô estava acompanhado de uma banda multi geracional, com moleques e senhores, capitaneada pelo talento do Pablo Castro. E a coragem do Lô em encarar sua versão juvenil, em não temer o menino cabeludo de 17 anos que gravou três discos fundamentais em 1972 (os dois do Clube da Esquina, com Milton Nascimento, e ainda o do Tênis), aquele guri que, antes ainda da maioridade, compusera em um ano um material cuja qualidade muitos artistas não alcançam em décadas.

A dicção ao cantar mudou, o tom de algumas músicas mudou, mas definitivamente Lô Borges honra o adolescente de tênis surrado que, em algumas poucas semanas de 1972, compôs uma pequena e urgente obra-prima psicodélica. A banda, como ele bem disse, tirou de ouvido “até mesmo os erros que nós cometemos”, o que me pareceu não apenas muito lindo, mas também coerente.

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Lembrei das palavras de seu irmão Márcio Borges no livro Palavras Musicais, do jornalista Paulo Vilara, quando comenta que não aprecia letras milimetricamente redondinhas, preferindo valorizar alguns erros ou nuances pouco lapidadas, que acabam por humanizar e dar calor humano à obra (isso sou eu escrevendo do meu jeito, e tentando lembrar pelo menos o sentido do que o Márcio quis dizer. Um raciocínio, por sinal, que foi e é essencial para mim como apreciador e produtor de arte).

Por falar em Márcio, um dos deleites da noite foi elucubrar, junto com André e Maria, o quanto algumas de suas letras nesse disco representam achados literários tão tocantes. Discutimos o contraste de “seja o touro e a rosa”, a transcendência do “deserto sem nome”, e elegemos como frase mais bela: “Eu queria levar você para além dos caminhos”.

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Em seus melhores momentos, Márcio Borges – que foi aquele que vislumbrou um movimento, intuindo no olhar de seus amigos de geração a existência de um Clube e uma Esquina – é capaz de acessar todo um imaginário quase que surrealista ou simbolista, e trazê-lo ao mundo com o barroco sabor da mineiridade. No caso do disco do Tênis, soma-se também às representações tanto dos tensos anos de chumbo da ditadura quanto as influências da contracultura, o pé na estrada, a psicodelia.

Mas uma hora, o sonho acaba. Quando os últimos acordes do “bis” chegaram ao fim, fomos devolvidos ao entorno do ambiente “área vip” típico de onde estávamos, com o pagamento das caras comandas, os assuntos das pessoas, e nos demos conta do quão deslocado é o ethos do disco do Tênis com o nosso presente.

E é por isso que precisamos desse disco, por isso enfrentamos a chuva, a distância, as filas, e fomos até ele. É um disco com alma e coração aberto, documento de uma época, que, justamente por ter sido feito rapidamente e despretensiosamente, permitiu que as reentrâncias daquele 1972 permanecessem indeléveis a cada audição. E ver o “peter pan” Lô Borges disposto a reeditar essa aventura é algo para aplaudir de pé.

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Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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