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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Free and Real: as canções tardias do quarteto de Liverpool

Em 1994, Paul, George e Ringo voltaram a colocar o pé na lenda dos Beatles. Coube a Lennon, uma voz conservada do passado, entregar para seus três amigos alguns vestígios do graal de priscas eras. Em seu sacrifício e ausência inevitável, John deu aos três a chance de serem jovens lendários novamente.


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Assistir aos clipes das músicas Free as a Bird e Real Love, dos Beatles, é um ritual que sempre me enche de energia e entusiasmo. Eu amo essas duas músicas. Primeiro, porque são belas e bem executadas. Mas, acima de tudo, pelo que elas significam – em ambas, pela primeira vez temos o retorno da alquimia dos quatro rapazes de Liverpool, sendo que três deles realizam esse retorno de maneira consciente.

Para Paul, George e Ringo, foi uma oportunidade de voltarem a colocar o pé na lenda dos Beatles, de revisitar um totem que tinha sido erguido no signo da espontaneidade. Coube a Lennon, uma voz conservada do passado, entregar para seus três amigos alguns vestígios do graal de priscas eras. Não eram canções feitas nos anos 60, mas todas tinham o potencial DNA beatle.

John, em seu sacrifício e em sua ausência inevitável, deu aos três a chance de serem jovens e de serem lendas novamente. E todos fizeram jus ao que a tarefa prometia. Foram os Beatles novamente.

Canções inéditas?

Os fãs xiitas do quarteto já conheciam Free e Real de gravações piratas, como, por exemplo, da gigantesca série de álbuns chamada The Lost Lennon Tapes. Porém, o mundo que se estende para além dos beatle geeks soube de sua existência através do projeto Anthology, lançado em 1995.

Tudo isso começou quando Yoko Ono, viúva de John Lennon, revelou que existiam algumas fitas demo com músicas inéditas de John, gravadas de forma caseira entre 1976 e 1980. Yoko as deu a Paul, e isso foi o estopim para que os três Beatles sobreviventes (ou “Threetles”, como os fãs os nomearam) se reunissem para a tarefa. Eles compuseram versos restantes para as faixas incompletas, e ainda por cima se dedicaram a gravar uma base que aproveitava o som das fitas (configurando-se assim em uma genuína reunião dos quatro).

5.jpg Yoko e Lennon em 1976

O projeto Anthology foi além de Free as a Bird e Real Love: rendeu também um livro, um enorme documentário biográfico, mais uma caixa de 3 CDs duplos com sobras de estúdio e faixas inéditas nunca lançadas oficialmente. Fiel ao espírito revisionista desse lançamento, os clipes das duas canções (quase) inéditas se dedicaram a celebrar belamente toda a “mitologia beatle”, cada um a seu modo.

Anthology1-2_1200.jpg Capa completa de Anthology

O “Angelus Novus” de Free as a Bird

No clipe de Free as a Bird, temos uma colagem de referências de letras de canções e de mitos e lendas sobre a própria história da banda. Ali observamos a enfermeira Penny Lane vendendo objetos na rua, o Cavern Club, um jovem Lennon andando tristonho em Strawberry Fields, misturando assim o universo ficcional das letras com os fatos que envolvem a trajetória dos próprios Beatles.

Não há cortes no clipe, que assemelha-se a um plano sequência, como se a câmera fosse o olhar de um pássaro em seu vôo livre. É interessante reparar que espaço e tempo se fundem na representação do clipe, pois na medida em que o vôo avança pelos lugares de Liverpool, diferentes momentos da cronologia beatle se desenrolam junto.

A imagem do pássaro é bem óbvia no clipe, tanto pela letra da canção quanto pelo bater das asas que podemos ouvir no início. Contudo, poderíamos evocar também a imagem do Angelus Novus, figura marcante retratada pelo pintor suíço Paul Klee em 1920.

Benjamin Klee.jpg O desenho de Paul Klee (esquerda) e Walter Benjamin (a direita)

Acadêmicos conhecem bem esse anjo através do inesquecível ensaio de Walter Benjamin, Sobre o Conceito de História, escrito pelo intelectual judeu em 1940. Ao observar o quadro de Klee, Benjamin evoca a visão messiânica de um anjo que voa “ao contrário”, voltando para o passado e observando as ruínas da história humana, mirando na história dos perdedores, em todo o refugo da trajetória dos homens, e extraindo disso uma profunda sabedoria. Um anjo livre como o pássaro do videoclipe.

As lentes do real no amor dos Beatles

Já em Real Love, o mesmo efeito emocional é conseguido não com as colagens e as reconstruções, mas com um efeito tecnicamente mais simples (mas nem por isso menos eficiente): vídeos dos quatro Beatles nos anos 60 são contrapostos com vídeos das sessões de gravação com Paul, Ringo, George e o produtor Jeff Lynne em 1994.

São feitas várias tomadas dos músicos em estúdio, um pouco mais grisalhos, porém animados e luminosos com seu reencontro. O estado de espírito do grupo em sua fase contemporânea parece ainda mais belo quando comparado com os sorrisos adolescentes das imagens antigas em preto e branco. Lennon, claro (e, infelizmente, sempre) só aparece no arquivo.

Só é uma pena que eles também não fizessem versões para as lindas Grow Old With Me e Now and Then, que estavam na fita que Yoko deu a Paul. Essas faixas tinham problemas técnicos mais graves, e muitos versos precisariam ser acrescentados, o que fez George desanimar e enterrar essa parte do projeto. Existe a promessa de que sejam lançadas no futuro (uma guia de Now and Then chegou a ser gravada), mas nenhuma certeza por enquanto.

McCartney-Ringo-Harrison.jpg Ringo, Paul e George em 1994

A volta dos Beatles: valeu a pena?

O que é fantástico nessas músicas é a possibilidade de observar Paul, George e Ringo retornar ao seu ninho com uma autoconsciência de todo o mito que eles ajudaram a produzir. Uma condição obviamente mais segura, diferente daquele que norteou a época de atividade dos Beatles, marcada por tiros no escuro, riscos enormes, inconsequências (que quase sempre deram certo), ousadia juvenil, como se fossem acrobatas que saltassem sem a menor preocupação com as redes de segurança.

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Nas canções tardias, os “Threetles” retomam seus principais elementos já cristalizados pelo tempo, já aclamados por gerações, com os maneirismos proporcionados também pela idade e por suas carreiras solo. Estão lá as baterias cheias de reverberação de Ringo, suas batidas precisas e reconhecíveis. O baixo econômico e necessário de Paul. E a guitarra única de George (eu particularmente gosto em especial dos solos de George nas duas faixas, inspiradíssimos, que eu inclusive incluiria como meus preferidos em toda a sua carreira). O resultado é tão mágico quanto tudo que os Beatles já fizeram antes.

Outro dado digno de nota envolve não apenas saber que essas duas baladas representam o que teremos de mais concreto em termos de uma reunião da banda, mas também abre uma margem para especulações de exercícios de possibilidade. “E se”?

Somos capazes de imaginar como os Beatles soariam caso tivessem continuado pelas décadas seguintes, o que, por um lado, teria sacrificado a enormidade do mito (afinal, terem terminado no auge é algo que certamente lhes inscreveu em um panteão superior), mas, por outro, teria inevitavelmente rendido discos interessantes.

Isso é uma das coisas bonitas que os Beatles proporcionam: além de todas as canções e as histórias belas que eles nos deram, sua vida e obra permitem desdobramentos, devaneios, divagações... Enfim, John até disse que o sonho acabou, se referindo à utopia hippie; contudo, quem disse que a história dos Beatles não possibilita que possamos insistir com nossos pequenos sonhos, interpretações, reescrituras?

7ba0d795533d1ee7c3d6494e459a165e.jpg Reencontro dos Beatles vivos no casamento de Ringo e Barbara Bach, em 1981. Como seria se John estivesse ainda vivo nessa época?


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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