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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

O que a Islândia pode nos ensinar sobre feminismo

Como um pequeno e frio país europeu tornou-se o melhor país para as mulheres viverem no mundo - e o que o Brasil pode aprender com isso.


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Em uma lista do Fórum Social Mundial que buscava medir o índice de igualdade de gênero entre as nações, o Brasil ocupou a 85a posição entre os 147 países listados. O primeiro país da lista é um pequeno território praticamente ilhado no cantinho da Europa: a Islândia.

Se ainda tivéssemos aula de história nas escolas públicas brasileiras, poderíamos entender melhor porque a Islândia é considerada o melhor país do mundo para ser mulher. Ainda assim, vamos tentar improvisar nesse presente texto:

Em 1980, Vigdís Finnbogadóttir foi a primeira presidenta eleita não apenas na Islândia, mas na Europa, e também no Mundo. E sua eleição está longe de ser o primeiro marco desse pequeno país europeu em relação às mulheres. Em 1922, uma mulher foi eleita pela primeira vez como representante do parlamento. Em 1926, houve a primeira defesa de mestrado por uma mulher. Em 1961, aprovaram a lei que determina igualdade de salário entre os gêneros. Em 2010, aprovaram cotas de mulheres nos cargos de diretoria de empresas com mais de 50 funcionários.

”Peraí, cota para mulheres em empresas?”, poderia questionar um liberal. “Porque limitar o desempenho de uma empresa a questões de gênero?”. Bem, alguns dados podem nos fazer refletir a respeito. Na crise de 2008, a Islândia foi o primeiro a quebrar, acumulando uma dívida de 3,5 bilhões. Boa parte das pessoas sabe que, hoje em dia, este país tem uma das situações econômicas mais tranquilas em toda a Europa – isso depois de nacionalizar os bancos e prender os principais políticos e banqueiros envolvidos no rombo. Mas o que pouca gente sabe é que o único de todos os bancos islandeses que não quebrou era gerido por mulheres.

Ao mencionar tudo isso, não quero fazer juízo de valor do tipo “mulheres são melhores que homens nisso ou naquilo, etc.”, mas evidenciar o quanto a igualdade de gênero pode ser oportuna para uma nação como um todo. O fato da Islândia ser um país com ampla participação feminina coincide com o dado da OCDE de que são o 9º país com maior qualidade de vida do mundo. O Canadá, que é o 3º dessa mesma lista, há dois anos compôs seu ministério com igualdade entre gêneros – 15 homens e 15 mulheres. Ao perguntarem ao primeiro ministro Justin Trudeau qual a razão disso, ele respondeu “porque estamos em 2015”.

Depois de divagar sobre os dados dessas potências do Norte, voltemos nossa atenção agora para os trópicos de cá. Da mesma forma que os números institucionais da Islândia sobre as mulheres confirmam seus índices culturais, também podemos encontrar relações entre aspectos institucionais e o dia a dia da mulher comum brasileira. Por exemplo, depois de quase uma década de melhorias (tímidas, mas ainda assim notáveis) na luta contra a violência de gênero (cujo marco mais significativo foi a lei Maria da Penha em 2006), em 2011 pela primeira vez uma mulher tomou posse na Presidência da República (31 anos depois da islandesa Finnbogadóttir, portanto). Esse processo parecia marcante, sobretudo por se tratar do Brasil - país que o jornal britânico Daily Mail elegeu como o segundo pior destino para as mulheres no mundo.

Contudo, o que podemos aferir quando observamos as reações de alas conservadoras da sociedade aos seis anos de mandato de Dilma Rousseff? Será que houve algum líder brasileiro que fosse tão achincalhado pela mídia e por boa parte da população? Desde as zombarias aos seus discursos, até aos adesivos misóginos na época da eleição de 2014, Dilma tornou-se um dos maiores bodes expiatórios de nossa história presidencial. Mas sem adentrar em outras questões (como o impeachment/golpe), pergunto o seguinte: será que toda a carga de sarcasmo da qual se valeram os detratores da ex-presidenta seria a mesma caso fosse um homem?

A misoginia dirigida à mulher que ocupou o cargo máximo do país é facilmente notada na esfera cotidiana do Brasil. Somos um dos países mais misóginos do planeta, registrando um caso de estupro a cada 11 minutos. Mas o número pode ser ainda maior (10 vezes maior, na verdade), já que boa parte dos casos sequer são denunciados. A imensa quantidade de notícias sobre isso nos jornais leva muitas pessoas a banalizar esse tipo de caso, isso sem contar as reações costumeiras de culpar as mulheres vítimas de estupro pelos mínimos detalhes.

Atualmente, temos no poder um governo ilegítimo, que, ao assumir, optou por uma composição 100% masculina nos ministérios. Além disso, seus representantes expressam a todo momento (nas entrelinhas ou não) que as questões de gênero estão longe de ser uma prioridade.

Ainda assim, algumas boas notícias no combate à violência contra a mulher podem ser notadas. No cenário institucional, temos por exemplo o avanço do julgamento do deputado Jair Bolsonaro por sua apologia ao estupro, que foi acatado pelo STF ao negar seu pedido de recurso. Já na esfera da sociedade civil, os movimentos feministas tem crescido cada vez mais, o que, naturalmente, provoca resistência de setores mais conservadores da sociedade. O que pode ser encarado de forma positiva, pois o incômodo que o feminismo gera mostra que essas pautas tem tido inserção em mais e mais espaços.

Por tudo isso, creio que nesse dia das mulheres, é importante que possamos ir além dos estereótipos, como elogiar a “gentileza” ou a “delicadeza” do gênero feminino, e nos atentarmos às implicações políticas e sociais da luta pela igualdade entre homens e mulheres. Afinal, a Islândia não alcançou tanto desenvolvimento nas questões de gênero apenas com palavras amáveis, mas com muita luta e engajamento por parte da sociedade.

Fontes: - https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/10/25/Por-que-a-Isl%C3%A2ndia-%C3%A9-o-melhor-pa%C3%ADs-do-mundo-para-ser-mulher - http://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-a-islandia-saiu-de-uma-crise-dramatica-com-o-poder-do-povo-e-por-que-estou-indo-para-la/ - https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2015/11/09/ate-brasil-vira-exemplo-para-os-eua-em-novo-documentario-de-michael-moore.htm - https://pt.wikipedia.org/wiki/Vigd%C3%ADs_Finnbogad%C3%B3ttir - http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/11/151102_islandia_feminismo_hb - http://www.brazilaustralia.com/paises-com-melhor-qualidade-vida-2016/


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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