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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

O que é um artista multimídia?


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O que sempre me incomodou no conceito de “artista multimídia” é a impossibilidade de cristalizar o arquétipo desse tipo de criatura. O que é um multimídia? Com o que ele se parece? Qual o guarda roupa de um ser como esse? Você provavelmente passou por um desses na rua hoje cedo e nem reparou.

Ao mesmo tempo, é bonito você ocupar uma função que (ainda) não está tão enquadrada assim. Se escritores posam com charutos em frente à estantes de livros e pintores usam bigodes de Dali ou boinas de revolucionário, então artistas multimídia podem ser qualquer outra coisa (enquanto não surge um gênio ou um apadrinhado midiático e acaba por institucionalizar a imagem da classe).

O que eu sei é que ser artista multimídia é péssimo para que as pessoas possam construir um conceito sobre você. Quando elas começam a organizar a sua ficha técnica para te registrar na gavetinha da memória (“ah, você é o cara da música, né”? “Você não é aquele dos quadrinhos?”), de repente, você mostra outra faceta. Como desmemoriado que sou, sei o quanto isso pode ser frustrante.

Muita gente da minha geração tem que descascar esse abacaxi, para o bem e para o mal. O (multimídia) chileno Alejandro Jodorowsky disse que, na contemporaneidade, as pessoas são cada vez mais parecidas com telefones celulares — vão além de sua função essencial de discar números. Os celulares são os canivetes suíços do século XXI. Além disso, podemos constatar também que as próprias tecnologias atuais nos ajudam a ser mais versáteis. Não apenas somos como os telefones, mas usamos eles e outros aparelhos para criar. Mas será que isso é bom para a arte? Será que não vai faltar tempo e reflexão para desenvolver cada uma delas de maneira satisfatória?

Falando por mim, sinto que não sou um desenhista ou um músico tão bom quanto poderia ser, e isso ocorre porque divido muito a minha atenção. Por outro lado, creio que o que eu faço se beneficia muito desse “entre-olhar”, desse pé que sempre está situado fora de um campo artístico específico. Um músico que pensa visualmente ou um desenhista que pensa textualmente estão, cada um a seu modo, inserindo perspectivas diferentes em seus ofícios.

Ser um músico ou um escritor de dotes virtuosos é melhor ou pior que ser um artista que se retroalimenta de várias linguagens diferentes? Kurt Cobain é um guitarrista melhor ou pior que Jimi Hendrix? Quem pode medir o valor disso? A técnica é o critério de julgamento? É esse o limite da arte?

Nessa história de deixar perguntas no ar, ouso aqui mais uma antes de concluir o texto:

Será que a arte multimídia não é um outro campo, que pode ser pensado de acordo com sua própria natureza fronteiriça e transitiva?


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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