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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Quando Joni Mitchell decidiu cantar os sonhos impossíveis

Em um disco apocalíptico, Joni Mitchell pisca os olhos - e surge do passado uma figura capaz de redimir todo o sofrimento.


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Até o início dos anos 80, a carreira da cantora canadense Joni Mitchell podia ser chamada facilmente de "irretocável". Para além de pontos altos como os discos Blue, Hejira ou Mingus, era difícil dizer que havia algo irregular em sua discografia.

Em 1985, porém, seu décimo segundo disco pega a todos de surpresa. Em Dog Eat Dog, o som suave dos trabalhos anteriores foram substituídos por uma intensa adesão aos instrumentos eletrônicos típicos dos anos 80.

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Não era a primeira vez que Joni desafiava seu público. Depois de tornar-se a musa da cena californiana de folk (com discos como Count and Spark ou Ladies of the Canyon), a cantora se enveredou cada vez mais pelo caminho do jazz (seja nos híbridos Hejira e The Hissing of the Summer Lawns até o dificílimo Mingus). Contudo, entre críticos e fãs, pouca gente esperava que tantos timbres eletrônicos estivessem nos planos de sua terceira reinvenção estilística.

Além do excesso de experimentalismo nas faixas de Dog Eat Dog (como incluir sons de uma máquina de venda de cigarros na faixa Smokin), outro dado marcante envolveu sua famosa voz de soprano - que, combalida por anos e anos de muito cigarro e complicações pelo fato de ter contraído poliomielite na infância, mudou de registro. Por mais que ainda fosse possível reconhecer Joni naqueles vocais, seu timbre passou a ser mais contido e grave. Ela nunca mais cantou seus grandes sucessos como antes.

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As mudanças sonoras também foram acompanhadas pelo conteúdo lírico. Até então famosa por falar muito de suas próprias dores (Blue é todo inspirado no fim da relação com Graham Nash, do grupo Crosby Stills Nash and Young), Joni Mitchell torna-se uma observadora de seu tempo e espaço. Protesta contra os excessos dos governos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, critica o excesso de consumo (em faixas como Shiny Toys), a fome (Ethiopia), guerras (The Three Great Stimulants), e até mesmo evangélicos e seus programas de TV (Tax Free).

A meu ver, é quando a fúria abaixa que sua música se torna mais interessante. As duas últimas faixas de Dog Eat Dog se revelam menos raivosas, e uma delas tornou-se das minhas preferidas de todo o seu repertório.

O Sonhador Impossível

A canção Impossible Dreamer certamente não tem muito destaque no repertório mais consagrado de Joni Mitchell, mas a adoro - antes mesmo de saber que se tratava de uma homenagem ao beatle John Lennon.

Na verdade, não apenas a ele. De acordo com a cantora, "este é um tributo a Martin Luther King, John Lennon e Robert Kennedy - a todos que nos deram esperanças e foram mortos por isso" (BEGO, 2005, 213). Ainda assim, a letra destaca John através do verso "give peace a chance" (que cita um dos grandes sucessos do ex-beatle). Sem contar que Sue McNamara, ao incluir a transcrição de Impossible Dreamer no site oficial de Joni, mencionou uma semelhança entre a melodia dessa canção com #9 Dream, de Lennon.

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Dentro do disco Dog Eat Dog, Impossible Dreamer não se configura em uma quebra temática tão grande, pois o contexto ainda é o de uma "rua barulhenta" tomada pela "multidão enfurecida". A diferença não se mostra para além do eu-lírico, mas dentro dele, em seus pensamentos e sentimentos. É quando Joni subitamente se lembra de um certo sonhador, uma pessoa que não podia ser associada às "barrigas famintas" ou às "chuvas ácidas" tão características daquele presente desolador.

Nos momentos mais escuros ou claros do dia e da noite, o eu lírico pisca os olhos, fragmentando sem querer a visão daquela realidade tão triste. Como mágica, seu sutil ato de piscar evoca uma figura de outros tempos. Sua memória traz o antídoto para uma época onde apenas a crua realidade parecia ser algo possível de acontecer.

No contexto sombrio de meados dos anos 80, a única atitude que ocorria à Joni Mitchell era a raiva, o lamento por tantas coisas desagradáveis que aconteciam. Dog Eat Dog reúne sua catarse artística, seu panfleto contra tantas arbitrariedades. Mas é no piscar das faixas do disco que seu olhar mais subjetivo dá as caras, através da memória de artistas e ativistas que, cada um a seu modo, sonhavam com o impossível.

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Fontes:

BEGO, Mark. Joni Mitchell. Taylor Trade Publishing, 2005.

Site oficial de Joni Mitchell

Verbete sobre Dog Eat Dog na Wikipedia.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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