serestar

Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

"O Brasil não dá certo por ser grande e jovem". Mas e o Canadá?

Democracia racial, social-democracia, investimentos, diálogo, composição de governo: são muitas as lições que o Canadá poderia nos dar, se soubéssemos ouvir.


brasil-canada.jpg

Através do processo de mestiçagem, viveríamos no Brasil uma superação do racismo e uma convivência ideal entre pessoas de todos os fenótipos: se já ouviu falar de ideias como essas, você teve contato com o mito da democracia racial brasileira.

Esse conceito foi difundido no Brasil e no mundo através de Gilberto Freyre em 1944, (ele usou na verdade o termo "democracia étnica", mas a palavra "racial" foi a que prevaleceu, mantendo o sentido geral defendido pelo sociólogo). Como não tivemos nesses trópicos nenhuma guerra civil gerada pela escravidão (como foi o caso dos EUA no século XIX) ou algo como o Apartheid, perpetuou-se o mito de que nosso país seria um exemplo de afeto entre as raças. Incluindo sobretudo, além de negros e brancos, os índios.

O Canadá, contudo, que não teve uma história de extermínio e opressão brutal como a nossa (e talvez por isso) mostra índices de tolerância drasticamente mais invejáveis. Veja, por exemplo, o que diz Margaret Atwood, escritora que ganhou notoriedade recente pela série The Handmaid's Tale, baseada no seu livro O Conto da Aia.

Sobre os índios, ela diz que "os Estados Unidos empreenderam guerras de extermínio durante o século XIX. Não há outro nome para o que foi feito. Sobretudo na Califórnia, onde tinham ordem de limpar o estado de indígenas". Já no Canadá "não houve guerras de extermínio. Por isso hoje os indígenas são proporcionalmente mais numerosos no Canadá e controlam porções maiores do território. São fundamentais nas negociações e na tomada de decisões. Seria muito estúpido alguém tentar fazer algo em seu território sem consultá-los".

Enquanto isso, aqui no país da democracia racial, estamos desmontando a Funai através de uma CPI estúpida, e grileiros em regiões como Pará e Amazonas exterminam tribos inteiras sem que a mídia sequer fique sabendo.

Dizem que somos subdesenvolvidos por sermos um país grande, ou por sermos um país recente. O Canadá é grande e recente, mas tem um dos maiores IDHs do mundo. Lá, o primeiro ministro Justin Trudeau fez questão de compor uma câmara mista com metade de homens e de mulheres, alegando que tem que ser feito porque "estamos no século XXI".

De acordo com Atwood, "por sermos tantos grupos no Canadá, é preciso sentar-se e dialogar. (...) Sabemos que as decisões se pactuam, que são mais firmes quando ninguém é excluído. E isso se consegue pelo diálogo. Existem culturas do eu e culturas do nós. As do eu são individualistas, como os Estados Unidos. O Canadá é uma cultura coletiva."

No Brasil, se tem algo que não sabemos é dialogar, seja nas redes sociais ou fora delas. Existem cicatrizes e fissuras separando as classes no Brasil. O autoritarismo que nos constituiu ainda ecoa, ainda nos é marca de identidade. A cultura do "eu" americana, como diz Atwood, é uma das mais nefastas características que importamos do Norte.

Além das lições sobre democracia racial de verdade, poderíamos aprender outras coisas com o Canadá, como, por exemplo, investimentos. É só pensar que 2% do nióbio de todo o mundo está naquele país, e com a extração e exportação desse elemento químico, os canadenses bancam todo o seu excelente sistema educacional.

Pois se considerarmos que os outros 98% do nióbio do mundo estão aqui em Minas Gerais, daria pra imaginar que deveríamos ter escolas com paredes de ouro.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Rafael Senra