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Reflexões de um cidadão honorário de Pasárgada

Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF.

Os artistas novos são geniais - mas não estamos olhando direito.

Existe todo um pré-sal de inovações de músicos atuais, mas nossos radares viciados não estão prestando atenção.


Wilentz1-jumbo.jpg Ilustração que mostra Bob Dylan cantando para um velho e doente Woody Guthrie, tirada do livro infantil "When Bob Met Woody", de Gary Golio e Mark Burckhardt.

Tenho refletido esses dias sobre uma ideia a respeito de música popular. Essa categoria de arte (e não apenas ela, mas preciso dar um foco a esse raciocínio) sempre dependeu de uma geração de artistas que passou o bastão para outra, e assim sucessivamente. Até aí, nada de novo, o bom e velho jogo de influências.

Contudo, em dado momento (entre os anos 40 e 50 principalmente), tem-se a chegada da eletricidade. E um mundo novo se inaugura. Violões dão lugar às guitarras, contrabaixos enormes dão lugar à baixos elétricos. Os pianos, então, ao se transformarem nos sintetizadores, talvez sejam os instrumentos elétricos mais revolucionários (apesar das guitarras monopolizarem a atenção por sua visualidade e simbolismo).

Esse contexto aflora nos anos 60 e 70, e diversas gerações de músicos são aclamados como revolucionários. Contudo, parece plausível considerar que o que eles fizeram de diferente foi se beneficiar da eletricidade. O que inclui, claro, os métodos de gravação sonora.

Sabemos que Woody Guthrie ou Noel Rosa foram influenciadores importantes, mas ambos não foram gravados de maneira adequada. Esses artistas ficaram pra história como mitos, mas não sabemos tanto sobre seu aspecto performático, sua filosofia de vida, etc. Se Cartola não tivesse vivido tantos anos até ter sido gravado em uma época melhor do mercado fonográfico, talvez caísse nessa mesma arapuca.

Chamamos Dylan de inovador, o homem ganha um Nobel, mas, no fundo, ele é mais um continuador de uma tradição, como foram todos aqueles antes dele. A diferença é que esses artistas (e falo disso melhor na minha dissertação de mestrado) estavam em uma espécie de "esquina" do tempo - um período de revolução elétrica, econômica, mercadológica, etc. Eles foram beneficiados por isso, tiveram holofotes em cima de si, e tornaram-se ícones.

Dylan é muito importante, mas, no plano estético, ele não é mais revolucionário do que Woody Guthrie. Da mesma forma, todos adoram Stevie Ray Vaughan, mas ele deve muito a Hendrix, enquanto este deve a Freddie e Albert King (dois músicos menos badalados, diferente de B.B.King, um contemporâneo de Freedie e Albert que, como Cartola, teve a sorte de viver bastante até alcançar um momento mais generoso em termos de mercado e mídia).

Temos a ilusão de que os artistas dessas décadas de 60 a 80 foram os maiores, mas o contexto em que viviam permitiu uma evidência gigante à suas obras, suas imagens, projetos estéticos, e até à suas vidas pessoais. Por vários motivos, esse processo alcançou um ponto de saturação a partir dos anos 2000.

O sistema continua a tentar nos vender ícones, promete que eles serão tão revolucionários quanto os artistas de décadas passadas foram considerados, mas muitos de nós podemos farejar que essa narrativa parece meio forçada. O que não é culpa dos artistas, de sua intenção, ou de seu talento. Os criadores do presente tem a desvantagem histórica por dois aspectos: eles estão a produzir em um momento de retração mercadológica, e, principalmente, eles continuam inseridos em um paradigma sonoro semelhante ao de décadas anteriores.

Isso os faz parecer mais do mesmo. O som digital é uma versão mais barata e piorada do analógico (até mesmo o Windows é um sistema operacional cujos botões imitam aparelhos físicos analógicos). Quando um músico usa um timbre de teclado e guitarra, ou canta de uma determinada forma, dificilmente ele alcançará um resultado que já não foi feito no passado. Talvez no futuro, quando novas tecnologias surgirem, os artistas de amanhã serão abraçados pelas mentes e corações de seu público, sem que um publicitário precise vendê-los como a última bolacha do pacote.

Talvez pelo contexto desfavorável de agora, seria justo considerar que os artistas atuais mereçam mais cuidados de nós, apreciadores do presente. Eles provavelmente são tidos como imitadores ou diluidores do que já foi feito, ainda que estejam dando duro assim como qualquer artista em qualquer época. Podemos dizer que gente como Brandon Flowers ou Kings of Leon nos causa uma sensação de deja vu, mas seria errado dizer que eles não estão se esforçando o suficiente ou que tocam e cantam mal.

É mais difícil para nós identificar a originalidade de nossos contemporâneos, porque ela não é escancarada. Lady Gaga se veste de carne, chama a atenção por isso, mas seu som não pode se vestir de carne. Ela usa teclados, contrabaixos e ritmos como a maioria massiva dos artistas que já ouvimos. Sem a âncora do visual, fica muito difícil detectar a contribuição dos contemporâneos.

Entretanto, essa contribuição existe, o que talvez demande mais esforço de nós. Precisamos ouvir com atenção e refletir sobre o que ouvimos. Do contrário, pensaremos estar em uma época de talentos escassos, enquanto todo um caldeirão de inovações silenciosas pulsa para além de nossos alheios radares.


Rafael Senra

Já escreveu de romances até artigos acadêmicos, mas publicou pouco. Seu livro Dois Lados da Mesma Viagem é sobre Milton Nascimento, com prefácio de Fernando Brant. Fez uma graphic novel, Balada Sideral. Também mexe com poesias e composições. Adora gatos, rock progressivo e pesquisa contos de fadas. É Doutor em Letras pela UFJF..
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