sete tons mais tudo que há no meio

Não há nada no universo que não possa ser contido numa frase harmônica

Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião.
Me mostra que estou errado?

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Somos todos minoria

Quem nunca se sentiu discriminado ao menos uma vez na vida, por ser "isso" demais ou "aquilo" de menos? Quem nunca se viu isolado? E, ainda, numa situação assim, sentiu o mau-cheiro da injustiça?
Cor, credo, orientação sexual, estado de saúde física e mental? Quê essas coisas mudam em nós? Nos fazem melhores ou piores? Duvido! Afinal, sob certo ponto de vista, somos todos minoria!


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Joana é negra. Mohamed é islã. Victor é gay. Gustavo é amputado. Virgínia é depressiva. André é alérgico a lactose. Sheila é nordestina.

O que Joana, Mohamed, Victor, Gustavo, Virgínia, André, Sheila têm em comum? Olha… muita coisa. No entanto, principalmente, eles são humanos.

Joana quer ser médica. Mohamed quer aprender violino. Gustavo treina remo. Virgínia lê Saramago e adora! André comprou um apartamento novo. Sheila foi promovida.

Seres humanos são belíssimas construções de lições passadas, seja por erros, acertos ou consequências, conquistas e fracassos presentes, sonhos e anseios futuros. Não me espanta que sejamos historicamente tratados como “obras primas” de um criador divino. O ser humano é impressionante! Beira o indescritível!

Somos capazes de controlar as forças do universo, produzir, do zero, a tecnologia, dominar os elementos, capazes de transformar a madeira em inúmeras formas que produzem música! Somos capazes de expressar o inexprimível a partir da arte. Dizer em idioma universal sem usar uma palavra! Somos impressionantes!

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Ainda, apesar de todo esse brilhantismo, esse potencial criativo, construtivo, somos apenas mais uma espécie num planeta com bilhões de outras! Como sempre se repetiram Carl Sagan e Einstein, como se repetem Neil deGrasse Tyson, Mario Cortella: no contexto do universo, ou mesmo dos “multiversos”, nós, indivíduos somos tão pequenos...

É um paradoxo interessante e intrigante. Enquanto somos quase nada, ainda assim somos muita coisa. Soa logicamente incoerente a afirmação, mas poeticamente não é lindo? Sequer conhecemos nosso potencial por completo… Somos adolescentes no mundo… Num planeta idoso, acabamos de aparecer. Sequer entendemos que compartilhamos, todos, uma única e mesma espécie.

Chega a ser engraçado, mas caminhando para a terceira década do século XXI ainda não entendemos que homens e mulheres só diferem em gênero, genitália e um ou outro fator fisiológico. Guerreamos, como se alguém precisasse vencer. Como se o masculino devesse sobrepor-se ao feminino, ou vice-versa. Sofremos profundamente com heranças de paradigmas primitivos décadas depois de pisar na lua...

E fosse bom se a guerra terminasse na questão dos gêneros. Mas não! Tudo vira guerra… Características puramente acidentais são utilizadas como fatores de exclusão, segregação, isolamento. A cor dos cabelos, dos olhos, a quantidade de melanina na pele, a estética nas proporções do corpo, alinhamento dos elementos no rosto, o tom de voz, estado de saúde física e mental, capacidades intelectuais… Todos fatores pura e exclusivamente acidentais, que não alteram em absolutamente nada nossa natureza!

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E isso espanta profundamente quando se olha, sob essa óptica, para a questão do preconceito e da discriminação.

Voltando os olhos aos nossos personagens, Joana sofre preconceito por possuir mais melanina em sua pele, resultado de exposição ao sol e altas temperaturas que, em tempos primitivos, seus antepassados viveram. Joana poderia ser até azul ou laranja. Isso não afetaria em nada sua natureza humana! Mohamed vive uma fé que conflita com o “modus cogitandis” ocidental, mas ele é livre! Mohamed sofre preconceito porque alguns que, com ele, compartilham essa fé são extremistas. Mohamed nunca foi! Ele vive pelo bem! Ele vê em sua religião um modo de exaltar sua espiritualidade, sua nobreza de coração. Victor sente desejo sexual por homens. Victor trabalha, estuda, paga suas contas, passeia no parque aos Domingos. Victor sofre preconceito porque não tem o mesmo desejo que outros indivíduos. Talvez a maioria.

Mas que maioria?! Maioria de quê?

Gustavo sofreu um acidente e perdeu integralmente sua perna esquerda. Gustavo sofre preconceito por possuir uma prótese. Porra! Quem, quando criança, não queria um membro “robótico”?! Virgínia vive em profunda tristeza, não sei bem porquê, afinal, ela nem fala muito sobre isso… Ela diz que ninguém quer ouvir, e quando ouve, que dizem que a culpa é dela. Virgínia sofre preconceito por uma condição de saúde à qual ela não tem qualquer controle, mas ninguém quis entender quando ela explicou. André sofre profundo desconforto quando ingere produtos de origem láctea. André sofre com as piadas de que ele é “fresco”, “viadinho” por não comer o que “todo mundo come”. Sheila nasceu no Ceará, e quando fala, canta seu sotaque, e não esconde de ninguém o seu calor, alegria, seu brilho naturais. Sheila, que trabalha “seis por um” numa joalheria, sofre preconceito pois “nordestinos são preguiçosos”.

Pessoas incríveis, únicas e irrepetíveis que são hostilizadas por realidades que em nada afetam sua natureza, o que são de verdade, humanos. Características mínimas ou mesmo situações passageiras, como desejamos seja o caso de Virgínia e, inclusive, engrandecedoras, que as tornam, talvez, especiais, uma vez que toda nossa graça como humanos é de que nunca houve ou haverá alguém assim, afinal, como dissemos, somos um apanhado de passado, presente e futuro, e isso jamais se repete.

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Mesmo assim “a maioria”, irresponsavelmente, promove a hostilidade, sem atentar para quanto mal fazem às nossas queridas personagens. Quanto agridem essas pessoas incríveis à toa...

E não me entra na cabeça o que vem a ser essa tal “maioria”… Maioria caucasiana?! Cristã ou ateia?! Heterossexual?! “Saudável”?! Paulista?!

Já dizia Machado de Assis: “olhando de perto, ninguém é normal”. Mas ninguém mais olha de perto, nem para si, quem dirá para os outros… E quanto perdemos nessa desatenção, nessa ignorância voluntária… Quanto potencial criativo e construtivo aniquilamos ao não nos conhecermos, como indivíduos, espécie, como seres que enlouquecem sozinhos mas conquistam o universo trabalhando juntos… E quem olha para dentro de si encontra tanta coisa foda! Tanto talento, tantas conquistas, tanto potencial… Passa a enxergar o mundo, os outros, sob outra óptica, muito mais profunda. E nessas descobertas, encontra também tanta porcaria. E é tão bom conhecer o próprio abismo, a fossa pessoal, sentimental e intelectual… A humildade proporcionada pelo auto-conhecimento é tão esclarecedora.

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Aí eu pergunto: você é "normal"? Você faz parte da “maioria”? Você é completo, perfeito e irretocável, do ponto de vista do padrão de normalidade? E se a resposta for não, concorda que, pelo menos sob um ponto de vista, você é minoria? E já pensou se o mundo resolve odiar justamente a minoria que você integra? Como vai ser? O que vai pensar? O que vai sentir? Que puta foda, não?

É aqui que toda a cultura da discriminação pede para cair por terra: eu sou minoria sob duzentos pontos de vista, e seria terrível se o mundo as odiasse, então, pelo princípio básico de jamais fazer a outro o que não queremos que façam conosco, escolho valorizar as pessoas pelo que querem ser, nunca por suas características acidentais. Espero dar conta!


Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião. Me mostra que estou errado? Veja mais em http://covildadiscordia.com.br.
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