sete tons mais tudo que há no meio

Não há nada no universo que não possa ser contido numa frase harmônica

Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião.
Me mostra que estou errado?

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A adolescência da humanidade

Ódio escorre nas bocas dos discordantes. Tudo vira motivo de polarização, ridicularização, exposição e briga.
Mas será que é o pior momento da história ou o começo de um incomparavelmente melhor?


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Como vem sendo praxe, antes de iniciarmos as defesas convido à sintonia dos termos e conceitos, para que as ideias sejam convencionais.

Iniciemos alinhando nosso conceito de adolescência.

Adolescente, derivação do verbo latino "adolescere", de incontáveis possíveis traduções, sendo as principais "crescer", "madurar", "aumentar" mas aceitando traduções mais livres e insinuantes como "buscar" e, a mais interessante, "faltar".

Podemos elaborar uma análise mais restrita, tratando a fase de vida sob a sombra de cada uma das possíveis traduções aceitáveis, mas isso nos consumiria tempo e, consequentemente, energia. Empreguemos, então, uma leitura mais sintética.

Adolescência é, ignorando leituras regionais que determinam idade de início e fim, um período de transição. O fim da infância e o início do percurso para a vida adulta. O fim de uma vida de infindos cuidados para uma nova, de muita cautela; de uma vida de muitas brincadeiras para uma de intermináveis responsabilidades. De um ponto de vista menos pessimista: o melhor e o pior de dois mundos, como toda transição. É a fase de desenho de caráter, aplicação dos valores adquiridos, questionamento de regras, "verdades", autoridades.

Adolescência é um período de erros tratáveis, fugas com permissão de retornos, quebras com consertos. Erros e acertos.

A escolha do futuro, a possível desistência, a descoberta do sexo, álcool, cigarro. O experimentar do ilícito. Enfim, erros e acertos.

Como via de regra, nunca é regra. Afinal, o que é para muitos não é para todos. Mas, de qualquer modo, presos aos possíveis "ses" jamais discorreríamos sobre nada.

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Saltando bruscamente para o segundo conceito, tudo que segue é analogia.

Abraçando o conceito de Aristóteles, o Estagirita, "simpliciter diversum et secundum quid eadem" (traduzindo, basicamente diferente mas a mesma coisa sob certo aspecto). Com isso quero afirmar que nosso momento cultural será comparado a determinados aspectos particulares a essa adolescência genérica defendida.

Terceiro e último conceito, talvez mais importante que a soma dos outros dois, humanidade não é, de forma alguma, apenas o coletivo de homens (em sentido amplo).

Corro o risco de repetir o já muito dito, mas não desejaria que aquele que vir o ato fora do contexto da peça perca o protagonista.

Aristóteles (sim rs, ele outra vez) define a natureza do homem com a concatenação dos termos "animal social". Ser humano é aquele animal que raciocina, ou seja, confronta premissas compostas de conceitos, entre si, e gera conclusões (pelo menos potencialmente, afinal um indivíduo em coma profundo não necessariamente o faz ativamente, mas possui a potência condicionada à retomada de seu estado intelectual).

Humano é o que possui intelecto, que pensa, e produz como resultado desse potencial, mas não o faz sozinho. Faz com outro, pelo outro e para o outro. Animais que visitam os astros juntos mas enlouquecem sozinhos.

Humanidade, nesse conceito e com esse espírito, definiria uma imensa colmeia de abelhas pensantes e colaborativas, um formigueiro de formigas-rainha, uma água-viva de micro deuses com infinito potencial criativo...

Penso, aqui, ter encerrado a exposição dos conceitos variáveis.

Iniciemos, então, a defesa.

Enfrentamos nos últimos anos um terrível e temível período: a era do ódio e da segregação. Hoje não é mais permitida a indiferença. Tudo vira torcida de futebol! Religiosidade versus ateísmo; Direita versus Esquerda (e vice versa); Machistas versus militantes Feministas; Homofóbicos e Racistas versus militantes da igualdade; Corinthias versus São Paulo, Flamengo versus Fluminense... As ideias/ideais, as opiniões e posições são definidas e defendidas a ferro e fogo! Talvez nem o convívio seja aceitável aos odiosos discordantes.

E aqui trazemos a analogia: vivemos um tempo de transição. Saímos da infância da tecnologia analógica, dos livros impressos, da televisão passiva, da fonte única de informação, do brinquedo de madeira, do futebol de rua, do telefone fixo para a inundação digital. Hoje nossos livros são online (embora nem tenhamos mais tempo de ler), utilizamos SmarTVs, informação borbulha em nossos feeds de notícias e RSSs, os brinquedos são tablets, o futebol é via internet, o telefone vai conosco até para fora do país. Temos canal aberto e instantâneo de comunicação com todas e cada uma das pessoas de nosso passado, presente e, potencialmente, do futuro. Temos toda a informação e conhecimento colecionados pela humanidade ao longo de milhares de anos em nosso bolso, a um toque na tela!

É quase tão grave quanto largar a brincadeira para escolher uma profissão! É assustador! Claro que não sabemos como lidar com isso direito!

Meu pai colecionava, a muito custo, Enciclopédias de fascículos de jornal para garantir material de estudo aos filhos. Hoje, com um celular, na calçada do bar, digito "Vulgata" no Google e discuto exegese bíblica com meus amigos em dois malditos segundos!

Nos anos 70 venderam: "Futebol, Religião e Política não se discute!". Hoje a descoberta de um novo vírus na Indonésia inicia discussões partidárias nos portais de notícia brasileiros!

É bizarro. Assumo e concordo. Mas me condenem: prefiro ver grosseiras, calorosas (até demais), desrespeitosas e infundadas discussões do que indiferença e preguiça intelectual, aceitação de dogmas.

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Estamos (e perdão pelo neologismo) "adolescendo", crescendo, mudando, madurando, aumentando, buscando sentido, sentindo falta! Ainda que a duras penas, estamos "adolescendo"!

Porra! Que puta foda! A humanidade está vivendo o conflito de sua adolescência! Toda revolta, toda polarização, todo ódio infundado, rasa opinião discutida, questionamentos de autoridade... Deus! Me diz onde isso não empata a adolescência!

Enquanto trabalhava nessa defesa, me peguei numa discussão com amigos, por Whatsapp, com a seguinte afirmação: "Mas eu acabo achando bonito todo esse ódio, toda essa bipolaridade... É sinal de coisa mudando... Sinal de mudança, e mudança sempre faz bagunça. Talvez seja excesso de esperança minha na humanidade, mas estamos na adolescência, e adolescentes tendem a odiar tudo e todos mesmo, não é mesmo (outra generalização rs)?"

Serão tempos difíceis. Sou completamente consciente disso. Ódio é a antítese do amor, e como já nos ensinaram trinta e cinco Messias, inúmeros poetas, muitos compositores e quatro Beatles: "Amor é tudo que precisamos!". Mas, enfim...

Ainda fica a esperança de que toda essa revolta levante tampas de caixinhas, que deixemos de ser gado e material bruto (em sentido ambíguo) de manipulação, que aprendamos a ser humanidade...

A certeza é que quando formos adultos, ao final da adolescência humana, quando assumirmos nossas responsabilidades, compreendermos o direito e o Direito; quando nos entendermos iguais; quando abolirmos os deuses cretinos e as fés emburrecedoras, extinguirmos o monetário pelo valor real do recurso; compartilharmos, formos abelhas sorvendo pólen para a fabricação do mel para todos; quando a fé for em nós, nossa divina semelhança, meus queridos, não haverá lei, permissão, física ou matemática que nos impeça do impossível! Não haverá deus no céu, na Terra ou no inferno contradizendo a nossa natureza. Não haverá pergunta sem resposta. Não haverá nada que não sejamos capazes de superar.

Quando formos humanos, não o mundo mas todos os mundos estarão de braços abertos para nos receber!

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Ouso (e peço permissão para) concluir esse blablablá todo com um trecho do discurso de Charles Chaplin em sua obra cinematográfica "O Grande Ditador", que lhe rendeu a expulsão dos Estados Unidos no pré-Segunda Guerra, o que deixa vislumbrar que os ditadores a quem nunca devemos ceder são bem mais charmosos que os monstros escancarados:

"No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito: 'O Reino de Deus está dentro do homem' - não de um homem, não de um grupo de homens, mas de todos os homens! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder, o poder de criar máquinas! O poder de criar a felicidade!"

Nada mais precisa ser dito.

Link para o discurso de Chaplin legendado em português.

Link para o discurso de Chaplin dublado em português.


Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião. Me mostra que estou errado? Veja mais em http://covildadiscordia.com.br.
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