sete tons mais tudo que há no meio

Não há nada no universo que não possa ser contido numa frase harmônica

Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião.
Me mostra que estou errado?

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A tampa da caixinha

There's those thinking, more-or-less, less is more
But if less is more, how you keeping score?
Means for every point you make, your level drops
Kinda like you're starting from the top
You can't do that

(Eddie Vedder, "Society" - Into the Wild [Soundtrack])


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Posso brincar de paradoxo?

Se a resposta for "sim", brinco feito criança:

A tampa da caixinha não tem cadeado. Não tem trava. Não tem sequer cola.

Está fechada pela gravidade, que faz o peso dessa segurá-la no resto.

A caixinha é seu ambiente construído. E não por você. Foram outros que construíram.

Te ensinaram a viver nessa caixinha. E você não só aprendeu como customizou, enfeitou, adaptou...

Nós vivemos num mundo pré-moldado, de regras já estabelecidas. Nós apenas aceitamos tais quais são em nome da paz, do conforto.

Mas aí venho eu, e te apresento o odiável paradoxo: a tampa da caixinha está solta! Basta um empurrão e você está livre.

Todo o problema reside no primeiro "step forward" além dela: o mundo é todo podre.

O sistema é falido, o dinheiro é escravagista, os "bons" são demônios, os "maus" são apenas outros libertos - existem, sim, pessoas más, mas o rótulo não é muito fiel à realidade não -, a piada é odiável, a solidão é vera companhia, as construções são destrutivas, o que se busca exterminar é a real natureza...

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A liberdade, produto do sair da caixinha, é, por fim, um fardo! Ver-se livre dos grilhões da escravidão é ver-se marginal, condenado a múltiplas acusações... Ver-se livre, depois de algum tempo de luta, é preferir morrer a viver num hospício de malucos por escolha.

Acordar para a fabricação, fabricar até a exaustão para descansar um mínimo antes de retomar a roda... Quer escravidão velada mais grosseira que essa?!

Te vendem ser parte de um "organismo", mas te sugam energia em troca de lucro! Jura p'ra mim que você não vê?!

Você até pode ver, mas duvido que tenha achado outra saída. E, feito gado a caminho do matadouro, vai abaixar a cabeça e aceitar...

Há alguns dias eu fiz uma "piada" com nosso sistema de vida e, infelizmente, bateu certinho com a realidade:

"Numa granja industrial, de produção em larga escala, uma galinha reclamou que não dormia há sete dias. Um 'popopó' danado tomou conta do lugar, até que uma tomou voz maior e calou as outras, dizendo: 'Galinha preguiçosa! Reclama que não descansa numa semana na qual botou pouco mais de 700 ovos! Eu mesma botei 1200 e não estou cansada! Tomara que te matem logo, e deem lugar a alguma outra, menos reclamona e mais produtiva!'. Todas se calaram e mantiveram sua produção."

Eu não consigo não lembrar de um episódio da Família Dinossauro (sim auhhauhuahu) onde, ao atingir determinada idade, o idoso era jogado de um penhasco... Fantasia, né? Talvez não.

O modelo atual é muito simples: trabalhe feito um desgraçado para amontoar o máximo possível, afinal, quando sua "validade" terminar, a aposentadoria não dará sequer para os remédios. Tenha tanto dinheiro quanto puder para poder continuar vivo, ou o mundo te "joga do penhasco" no vale da subsistência.

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Junto à consideração dos idosos, já notou como se faz viva a necessidade de robotizar as crianças?

Me peguei, há alguns meses, lendo a resenha de uma revisitação ao clássico "Mogli, o menino lobo". Diferente da versão original, Mogli não cresceu na floresta, mas num condomínio fechado, e não foi criado por lobos não: o epíteto veio de seu "espírito empreendedor"... Puta merda!!!

Sério... Não tem como não olhar por cima com profundo desgosto... O mundo está se tornando uma gigantesca fábrica pré-revolução, e, o mais absurdo é ver o quanto as pessoas gostam disso!

Entendo que não seja uma realidade opcional e, quando não é possível vencer, melhor se juntar. Porém, por qual motivo, exatamente, nos gabamos de trabalhar mais de doze horas por dia, quase os sete dias da semana?

Sucesso, hoje, está completamente relacionado ao nome em inglês no cartão de visitas e ao tamanho do salário!

Eu, particularmente, entendo o sucesso humano como a vivência tão íntima possível com suas inclinações e aspirações mais sublimes: a cultura, o prazer do hobby, do convívio, a caridade, a magnanimidade. Vejo Steve Wozniak, cofundador da gigante Apple lecionando informática básica para crianças rs... Bono Vox movendo montanhas por causas humanitárias; Bill Gates abandonando sua posição de CEO na Microsoft para entregar-se a projetos sociais, doando e doando fortunas... Isso é sucesso! O abandono do modelo, da visão míope pelo seu real sentido.

Todo modelo histórico de escravidão só perdurou por aceitação dos escravos. É cruel dizer isso, sim. Pode, inclusive, soar escroto.

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De fato, ao nascer num determinado sistema problemático, rebelar-se custa a vida, inclusive. Nossa tendência natural de preservação do ser nos convida ao silêncio da rebeldia, em troca do viver.

Essa escravidão que vivemos não nos açoita a carne. Mas nos castiga a saúde. Que nos contem os psicólogos e psiquiatras, as receitas de Rivotril... Ela não nos prende em senzalas, mas condena aos aluguéis caríssimos em satélites dos centros e a pesadas horas de deslocamento para ir e voltar. Não nos impõe feitores, mas metas trimestrais...

No fim não é tudo a mesma coisa?

Já parou para pensar no que realmente é a inflação monetária? É o esvaziamento do valor real da moeda, resultado da impressão de dinheiro virtual e dos juros.

Sabe qual é o efeito prático disso em nossa vida? Não existe dinheiro de verdade para pagar nossas dívidas. É o sistema de prostíbulos que superfaturam produtos de necessidade básica às prostitutas, proibindo sua aquisição em meios normais, para garantir que nunca consigam sair de lá: a dívida nunca acaba...

As nossas dívidas nunca acabarão. Continuaremos, assim, acordando cedo, dormindo tarde, empregando todo nosso potencial e energia na "caçada" pelo dinheiro para termos o mínimo de dignidade quando não formos mais produtivos, porque, no fim, hoje somos isso, "homines fabrorum" - homens das fábricas. Nosso valor é nosso potencial produtivo, para gerar dinheiro para alguém que não mais produz rs - está recebendo o produto do "mérito", O caso é qual vem a ser tal mérito?! Ter família rica, meios de empregar o dinheiro herdado para fabricar mais dinheiro com ele?! rs. Estranho, não?

Sabe o que é mais hilário? Qualquer plano de fuga disso inclui juntar dinheiro suficiente para tal! auhauhuhauhauh É piada, não?

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O desejo, nessas tristes constatações, é que cada vez mais pessoas abram a tampa da caixinha, se desliguem da Matrix, ainda que volta e meia se conectem novamente, por N razões de necessidade.

Hora ou outra os despertos terão meios adequados de corrigir a situação, fundar Quilombos fortificados, impossíveis de serem destruídos, conquistando o direito à liberdade.

Ainda resta a esperança.


Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião. Me mostra que estou errado? Veja mais em http://covildadiscordia.com.br.
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