sete tons mais tudo que há no meio

Não há nada no universo que não possa ser contido numa frase harmônica

Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião.
Me mostra que estou errado?

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Ignorância te faz feliz, mas custa caro!

Onde as mecânicas neurais de seleção de conteúdo irão nos levar?!
Passo a passo, caminhamos para o prazer da ignorância, a troco da paz do não ver, não ouvir, não saber…


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Ouso afirmar que para últimas gerações, essas que governarão o mundo assim que estivermos velhos demais para tal, a fonte de informação é a Internet. Não TV, que não lhes faz sentido – afinal o padrão é de exibição da escolha dos produtores -, nem revistas, que pesam, ocupam espaço, vêm repletas de assuntos desinteressantes, muito menos o falecido rádio, mas a Internet.

Ela é o paraíso do “quero”. Quero, vejo. Não quero, ignoro.

Sabendo disso, as redes sociais vêm aprendendo a fazerem-se interessantes.

Facebook, a que o faz de forma mais escrachada, abusando do fato de ser elo entre faixas etárias, é a que melhor tem feito.

Já reparou como e quanto seus maiores interesses ficam destacados em seu Feed? Como e quanto suas buscas em lojas virtuais viram os banners de propaganda na rede?

Já percebeu que outros canais agora ficam concentrados lá, como se o serviço fosse a Internet Absoluta?

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Tem uma marca? Faça uma fanpage.

Tem um blog? Publique os artigos lá.

Músico? Venda seu trabalho nela.

Vlogger? Embede o vídeo, para ganhar views.

É, de modo inegável, um concentrador. Basicamente, um monopólio (embora não formalmente, já que cada canal possui seu público e espaço definidos. Apenas de modo material).

Princípios de competitividade e a necessidade de relevância, próprios de nossos tempos, não são de todo demoníacos, afinal esses são caracteres quase inatos na própria existência animal.

No entanto, será que os pesos das consequências são, verdadeiramente, levados a sério?

Em Tecnologia, costumamos chamar esse aprendizado do sistema pelo comportamento do usuário de “neural” (fazendo analogia ao aprendizado intelectual humano, por sinapses de seus neurônios). O sistema vai, utilizando captação de variáveis, desenhando um padrão e, à medida que “se sente” confortável para tal, utiliza o “aprendido” para prever próximos passos.

De uma maneira mais sólida, os sistemas neurais foram, de imediato, implementados para modelos de segurança corporativa. Tais sistemas “aprendiam”, durante dias, o comportamento dos colaboradores de uma empresa e, com o mapa “em mãos”, tornavam-se capazes de, sozinhos, definir riscos para a rede privada, poupando, assim, a organização de manter uma inteligência humana filtrando o Firewall.

Obviamente, não demorou muito e empreendedores captaram o potencial de venda da solução. Dessa forma, o modus foi replicado para fins comerciais.

Hoje, num algoritmo assustador, o Facebook (aplicação que utiliza o sistema neural de forma mais expressiva, ao meu ver) é capaz de te sugerir amizades baseando-se em localização comum, em troca de contatos por outras redes geridas pela empresa; por amizades em comum, check-ins; por assuntos comuns.

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Não é difícil, nesses dias, receber uma sugestão de amizade após uma botecada com um grupo de amigos.

Explicar, de forma claríssima, o tal algoritmo dependeria da experiência pessoal trabalhando com esse e, provavelmente, incorreria em falta de ética do profissional, uma vez que exporia, com isso, uma arma virtual poderosíssima de competição. Não sendo esse meu caso, me sinto livre para falar, olhando de fora.

Analisando, assim, friamente a brilhante ideia de trabalhar com tais sistemas em redes sociais, sou obrigado a levantar questões problemáticas de longo prazo, como, por exemplo, a alienação do usuário em nome de sua “paz virtual”.

Imagine, você, um perfil de Facebook com cerca de quinhentos amigos, cada um compartilhando de dois a dez assuntos por dia.

Imagine o flood, numa timeline, que tal nível de interações geraria. Como seria possível acompanhar e dar “atenção” a tudo isso? Simples: não seria.

Dessa forma, a rede monitora seu comportamento e, entendendo seu padrão, passa a ocultar o que entende “irrelevante” para você e exibir o “relevante”. Trata-se de uma bolha de informação. Bolhas de informação, necessariamente, geram alienação.

Passamos, então, a cada vez mais nos ver mergulhados no nosso próprio oceaninho mental, ignorando a realidade, que, no fundo, deveria estar refletida nas redes.

Pense comigo: quanto mais política você consumir, mais política te será apresentada. Você chegará, em um determinado momento, a apenas ter fontes de informação baseadas em sua orientação e ideologia política, tornando-se um alienado em relação à verdadeira natureza dessa ciência.

Do mesmo modo, se você apenas consumir bobagens, vai tornar-se um bobagento!

Vê a gravidade dessa alienação?

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Em linhas gerais, toda alienação é um problema.

Alienação, querendo ou não, é uma forma de doutrina e fanatismo. Aquilo vira sua realidade e, com essa viseira, você se torna incapaz de captar a fluidez do degradê da realidade que te cerca.

Ao promover isso, a rede te transforma, por decisão indireta, – já que nunca te foi consultado, claramente, se era essa sua intenção, – num ignorante. Um ignorante inconscientemente voluntário.

Numa situação assim, a única maneira de abrir novamente o leque do conhecimento, que deve ir de oito a oitenta, para ter resultados adequados, é buscar por vontade própria o que não te é oferecido sem esforço.

No entanto, quem busca esforçar-se num ambiente que, ainda, em nossas cabeças, é de diversão e relaxamento?

De certa forma, tal nível de pensamento já é ignorância nossa. Embora tenhamos nascido em período de transição, a Internet já faz parte de nossas vidas por tempo suficiente para termos nos dado conta de quanto é apenas uma extensão da vida real, vida-vida mesmo. Internet, há algum tempo, já não é mais aquele ambiente que “entrávamos”, usando nossos modens. Ela é parte integral de nossa comunicação.

Acontece, infelizmente, que gostamos mesmo da ignorância. E sabe por quê? Ignorância te faz feliz! E não sou eu que digo não! Erasmo de Roterdã já o fazia há milênio! Porém, é uma felicidade oca, inconsequente. Essa boia custa muito caro!

O preço da alienação e ignorância é a cadeia! Sim, uma cadeia virtual, em sentido mais filosófico do que tecnológico, mas uma cadeia! Ela afana sua liberdade em nome de não ser incomodado pelo que verdadeiramente acontece. Ela esgota seu senso crítico te tornando num burrinho de viseira, puxando a carrocinha dos dedinhos, em joia, apontados para cima. Ela te torna incapaz de aprofundar pensamentos e desenhar ideias sólidas e coerentes sobre o que está em sua volta. Ela te deixa morrendo de fome na praia enquanto, na ilha, há milhares de árvores frutíferas para proveito!

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Sim! A praia é linda! Mas a praia não é a ilha!

Há, sim, perigos na ilha, que te gerarão incontáveis frustrações e, quiçá, sofrimento. Porém, nos intervalos desses obstáculos, estarão prazeres indescritíveis!

Eu, que não sei nada ainda, já posso afirmar: saber dói. Mas não dói pelo simples saber. Dói por ser, hoje, uma raridade. Mesmo não sabendo nada ainda, é acordar sozinho num mundo devastado…

No entanto, ouso aqui relembrar o que, em 1947, George Orwell nos avisou que seria ferramenta de manipulação: nos venderão (aliás, estão há muito tempo vendendo) que escravidão é a verdadeira liberdade, usando do prazer fake da ignorância como argumento, sendo o oposto absoluto disso a verdade… Liberdade é, sim, escravidão, mas a escravidão da coerência, que, sinceramente, é o único remédio para esse mundo doente.

Para concluir, um pedido sincero: ponha meios verdadeiros, práticos e efetivos de driblar essa moção alienante. Faça esforço diário, remando contra a maré do conforto.

Eu garanto: vai te cansar, e pode doer. Mas a dor que acompanha a liberdade é muito mais prazerosa que a “paz” de mentira, promovida pela prisão da ignorância.


Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião. Me mostra que estou errado? Veja mais em http://covildadiscordia.com.br.
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