sete tons mais tudo que há no meio

Não há nada no universo que não possa ser contido numa frase harmônica

Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião.
Me mostra que estou errado?

Veja mais em http://covildadiscordia.com.br

Memento mori

“Lembre-se da morte.” – diz o ditado latino “memento mori”.


death-1126071_1280.jpg

É engraçado como nascemos com essa realidade como única verdadeira certeza e, mesmo assim, nunca aprendemos a lidar com ela.

Seguindo um fluxo natural, deveríamos, desde o primeiro momento de juízo, compreender a importância do aproveitar a presença de nossos amados mais velhos, já que o mais provável é assistir sua ida, antes da nossa.

Mas não. Infelizmente, talvez pelo já esperado medo do desconhecido, perfeitamente inteligível e natural, ignoramos. Vivemos como se fôssemos, nós e nossos amados, eternos. Pena que não.

Na madrugada passada, celebrando uma dessas despedidas com um amigo, me peguei entendendo para poder explicar e, naquele momento, consolar sua aflição, o modo como não só não encaramos do jeito certo como não permitimos que outros encarem.

Consolos como “Deus vai enxugar suas lágrimas”, “agora está num lugar melhor”, “um dia vão se reencontrar” são verdadeiramente bonitos, já que apelam para um conforto sentimental temporário que, naquele exato momento, são doces de tragar. Não desmereço nem condeno, afinal a intenção é boa, mas, no fim, de boas intenções não está cheio o inferno?

Digo isso porque, enquanto a dor da ruptura vai se tornando costume – nunca se vai por completo, apenas fica mais “normal” -, esses pequenos refúgios sentimentais e emotivos se vão, dando lugar à revolta e sofrimento, àquela saudade ruim, que machuca, saudade de apego.

bench-889222_1280.jpg

Mas qual poderia vir a ser a abordagem adequada, que trabalhe a angústia do momento mas construa sólida base de descanso para a alma cansada que ficou? Suponho eu ser possível.

Ouso, aqui, descrever em pontos muito sinceros, sem buscar subterfúgios em elementos desconhecidos, mas no pouco que conhecemos. E vamos lá:

– Chorar a morte é celebrar a vida

Quando choramos, e devemos chorar, precisamos – a válvula de escape de pressão de nossas almas está nos olhos -, apesar da dor, estamos celebrando o valor inestimável da vida, uma graça – “gratis data” – do universo.

Não choramos pela morte, mas pela ausência daquela vida, por sua eminência.

É apego, mas costumamos agir assim, mesmo sabendo não ser o mais certo a se fazer.

Precisamos viver o luto e suas etapas.

É terrivelmente ruim e pouco prudente suprimir o choro, tentar ser forte, seja pelo motivo que for. Acho e condenaria, se pudesse, como crime a delegação a alguém de calar sua dor para “não provocar mais dor a outro”, definir, numa família, por exemplo, aquele que será a rocha para os demais. “Você precisa ser forte!” Sim, precisa! Todos nós precisamos o tempo todo, mas essa força deve vir no momento certo, no passo certo.

Agride-se profundamente quem cala seu momento de fragilidade, planejando vivê-lo no futuro. O risco é trancar-se nele por tempo demais, lá na frente.

Assim nasce o segundo ponto:

– Tristeza é necessária

Sofrer a morte de um amado é um ato tão natural quanto chupar o dedo após uma martelada. É impulso adequado.

Deve-se sofrer tanto e quanto seja necessário e imediatamente! Isso é de extrema importância! É o caminho para o conforto da conformação.

Assim como a fome torna o alimento mais saboroso; a sede, a água mais refrescante, a tristeza vivida no momento certo garante alegria melhor aproveitada, e torna a saudade uma visita agradável, em vez de um tormento.

cemetery-690934_1280.jpg

Viva sua tristeza sempre e quanto precisar. Apenas atente para o terceiro ponto:

– A tristeza vicia…

E, como qualquer vício, deixar é trabalhoso.

Não se apaixone por sua tristeza. Não a romantize. Não a busque no tédio.

Não procure voltar a lugares ou situações onde sabe que irá encontrá-la se não tiver um motivo muito justo.

É importante celebrar a memória do amado, mas esteja atento à mancada do drama, caminho para esse vício.

– O apego é uma doença

Manter um quarto montado, como se alguém fosse voltar de uma viagem apenas de ida, por exemplo, é um enorme ato de apego. Abraçar-se a uma esperança vã faz mal ao espírito e alimenta dor constante e revolta permanente.

O apego a qualquer coisa gera uma corrente pesada na alma, difícil de ser rompida no passo do tempo.

Aí questiono: precisamos manter souvenires materiais? Não é muito mais proveitoso mantê-los na alma, como coisas positivas em lugar de pesos em matéria?

Evitando trancar o apego perigoso apenas na questão material e na alimentação de sofrimento, há um outro terrível apego que deve ser evitado a todo custo:

– A fantasia do “se”:

É quase que automático fantasiar sobre possibilidades, erros e caçar culpados, ou mesmo abraçar culpas inexistentes. É um veneno para a alma…

De fato existem situações onde, pontualmente, houve negligência e algo verdadeiramente foi fator diferencial na partida daquela vida. Mas não é esse o caso nisso que pontuo.

Estou me referindo às situações normais, onde a única culpada é nossa natureza material, esgotável, corruptível.

Temos a tendência a começar a buscar chifres em cabeças de cavalos. A acreditar que um minuto, uma possível desatenção, uma possível falha de conduta ou a escolha de uma não tão boa teriam sido fatores elementares no fatídico resultado.

É um terrível apego desordenado ao controle que supomos possuir sobre tudo. A incapacidade de compreender nossa impotência.

Não, não somos senhores do universo! Quem vendeu isso se equivocou profundamente. Somos apenas elementos de um ambiente, sujeitos a ele.

Precisamos, sim, agir em tudo que nos caiba, mas entender quão pequenas são nossas forças na questão. E nisso eu levanto outro ponto, e sobre esse nos cabe completo controle:

cementerio-948048_1280.jpg

– Encontre a “vera vita”

A “vera vita” – “vida verdadeira” em latim – seria um lugar de repouso na memória. Um forte para reviver a saudade doce, aquela que dá coragem de seguir e possibilita manter o único produto valioso da efêmera natureza humana, que nos propicia vencer o tempo e atingir a eternidade: o amor.

“A coisa mais importante da vida é amar e, em troca, amado ser” – grita Toulouse em Moulin Rouge.

Não há nada mais necessário numa despedida que buscar, imediatamente, a “vera vita”, o momento mais feliz da convivência com o amado, para retornar lá toda vez que a tristeza ameaçar fazer ninho. Visitar a “vera vita” é o alimento da alma no decurso dos anos. O analgésico para lembranças ruins e momentos de solidão daninha.

A “vera vita” é o fermento da manutenção de eternidade, aquela que acontece em nossas mentes e corações.

farmer-540658_1280.jpg

Ninguém, apesar da vária vida humana, jamais morrerá enquanto outro lhe carregar dentro de si. O amor nos faz eternos.

Não há nada mais bonito que o amor. O amor é o motivo da vida, nosso maior produto.


Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião. Me mostra que estou errado? Veja mais em http://covildadiscordia.com.br.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Mario Feitosa