sete tons mais tudo que há no meio

Não há nada no universo que não possa ser contido numa frase harmônica

Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião.
Me mostra que estou errado?

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Meus heróis morreram de overdose… E os seus?!

Existe, verdadeiramente, motivo para esvaziar grandes figuras na história, relendo suas vidas aos olhos de nosso momento?
Será que não estamos sendo terrivelmente vis em ver apenas o que queremos, como queremos, ignorando variáveis decisórias?


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Herói é um termo que aceita múltiplas leituras.

Pode referir-se a um semideus, um “filho de divindade” com natureza meio humana meio divina. Mas também pode referir-se ao valente e bravo que alcança um grande feito, um salvador.

Pode também remeter a alguém extraordinário que utiliza seus dons ou poderes em favor da humanidade, ou mesmo alguém exaltado a uma apoteose após sua morte.

Múltiplas leituras, mas a grandeza e o caráter extraordinário preservados em todas. A nobreza de objetivos provavelmente seja o fator mais importante na designação de um herói. Eles precisam ser exemplos inspiracionais, porém com características em comum com os “normais”, para serem também aspiracionais.

Longe da Literatura e da fantasia como um todo, temos uma infinidade de heróis na história. Pessoas que, com ideias e esforço, buscaram mudar o que lhes incomodava e, no processo, foram se distanciando da ordinária natureza humana.

Doação de vida, audiência de fala, manifestações e rebanhos de seguidores talvez sejam detalhes que os destaquem mais.

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Temos Jesus Cristo, Galileu Galilei, Nicholas Tesla, Carl Sagan, Marthin Luther King Jr., Karol Wojtyla, Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi, Nelson Mandela (ignorando cronologia). Figuras que inspiraram, inspiram e forram livros de história.

Agora, o quê mais todas essas figuras têm em comum? Simples: são glorificáveis, mas seus andores são de barro. Não abandonaram sua natureza humana na “apoteose”. Continuaram falíveis e, por que não, corruptíveis. Eram humanos, de qualquer modo.

Aí a pergunta: esses andores de barro, as quedas e tropeços na trajetória, esvaziam seus atos e suas obras? Que tipo de monstruosidade oculta, uma vez exposta, poderia manchar sua imagem a ponto de lançá-los no inferno da História? Pergunta complicada…

Penso imediatamente em dois personagens. São dois heróis meus. Esses, como os de Cazuza, morreram de overdose.

É. Assumo. Boa parte dos meus heróis morreu de overdose. Uns, overdose de drogas; outros, overdose de tristeza ou frustração.

Cito, aqui, dentre tantos, Robin Williams e Scott Weiland.

Robin Williams, ator e comediante. Me nego – sério! – a listar suas obras. Um gênio em arrancar sorrisos e motivar esperanças; em alimentar a fantasia infantil. Um “palhaço”, no sentido mais bonito que esse termo permita…

heroi2.jpg Foto de Antonio Fucito, https://www.flickr.com/photos/[email protected]/1116140352, em CC2

Robin lutou por toda uma vida contra uma doença pegajosa (hoje romantizada, mas não vem ao caso), que consiste na tristeza profunda e crônica – uma vampira de almas. Lutou e lutou e lutou, talvez esperando que terminasse a tristeza ou pelo menos a vida. Não suportou mais esperar e interrompeu, ele mesmo, o martírio. Foi imediatamente julgado e condenado. Seu nome para a lama. Covarde! Mentiroso, que provia risos e oferecia alegria enquanto estava podre por dentro.

Mas sabe o que é mais interessante? Não me lembro dele escondendo isso de ninguém. Talvez só não deram ouvidos mesmo. Natural hoje em dia, de qualquer forma.

Isso me faz lembrar a “piada” de Alan Moore em Watchmen, que começa com um homem deprimido buscando o médico e termina assim: “o médico diz: ‘O tratamento é simples! O grande Pagliacci está na cidade. Assista ao espetáculo! Isso deve animá-lo’. O homem, em lágrimas, responde: ‘Mas, doutor… Eu sou o Pagliacci…'”.

Talvez o mais triste seja o mais preocupado em trazer alegria, para poupar os outros do inferno que vive… Consegue enxergar a generosidade desse ato?

Ainda assim, nosso herói vai para a forca do juízo superficial. Nosso herói é derrubado de seu andor, porque esse era de barro…

O outro, Scott Weiland, músico e compositor, vocalista de várias bandas, sendo as principais Stone Temple Pilots e Velvet Revolver. Um gênio, preso “na garrafa”.

Scott alimentou espíritos perturbados, adolescentes desesperados, desviados cansados, sozinhos, com frio e com fome na alma, cantando e mostrando que havia mais gente assim, que não estavam mais sós…

Talvez ele não suportasse a cabeça bagunçada e a dor constante que sentia no corpo – acho que todos os desviados sentem essa dor… E ela cansa… -, e para aliviar, enchia o corpo de toda sorte de drogas.

Estação terminal desse trem desgovernado, encontrado morto. Suicídio a longo prazo… Novamente, julgado e condenado.

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Juro! Eu não consigo entender a métrica do juízo! E é aqui que quero chegar.

Acompanho o surgimento de um movimento anticultural, na Internet. Revistas online renomadas, escritores e formadores de opinião num esforço monstruoso de desconstrução anacrônica de heróis da História.

Teresa de Calcutá reduzida a estelionatária. Nelson Mandela a cúmplice de Yasser Arafat. Mahatma Gandhi a machista e racista.

Mas sempre um fator é ignorado: relatividade, temporal e histórica. O nome dessa doença? Anacronismo.

O anacronismo consiste, nesse sentido, em ignorar tempo e espaço no juízo de valor de uma situação ou pessoa ou em sua representação.

É muito possível que Teresa de Calcutá desviasse dinheiro das obras para a Igreja. Mas você conhece a natureza do Voto de Obediência ao qual monjas são obrigadas? Se lhe mandam regar um cabo de vassoura e ela não rega, ou mesmo cogita o motivo, incorreu em pecado mortal!

Parece piada, mas não é não…

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É FATO que ela militava contra o direito feminino ao aborto. Mas você parou p’ra lembrar que ela era religiosa católica?! Sabia que, caso cogitasse não repudiar o ato, estaria excomungada?

É, também, FATO que Nelson Mandela, feito Fausto, pactuou com o diabo. Mas e o momento histórico? E o Apartheid? Qual era sua urgência? O que fazer quando a única alternativa é abraçar o inimigo? Se fosse hoje, talvez não o fizesse. Mas não era hoje!

E Gandhi. Sim. Gandhi expunha abertamente sua posição em relação aos negros como raça inferior. É estranho sim um militante contra o apartheid Dalit diminuindo outro semelhante. Também é inegável que considerava as mulheres inferiores, princípio machista. Tudo inegável. Mas eu convido a uma viagem à Índia hoje, em 2016, e a percepção de como tratam as mulheres HOJE! Analise os índices de estupro, mesmo à luz do dia. Então volte para os anos 20, 30, 40 e retroceda o pensamento para o da época, e na Índia… Sobre o racismo, nem preciso lembrá-los que ainda hoje há indivíduos que dividem a espécie humana em “raças”, não é mesmo? E, consequentemente, atribuem uma escala de perfeição a elas, medindo crânios e o cacete.

Agora, olha como não só tempo mas espaço devem ser considerados nos juízos e retratos, para serem idôneos: Charles Chaplin, nos mesmos anos 40 defendia a Humanidade e a não-discriminação, mas nos Estados Unidos, enquanto Gandhi discriminava na Índia.

Todos os atos são abomináveis. E, provavelmente, nenhum desses fosse elevado ao status de herói, afinal seriam abomináveis com seus atos – contanto que fosse hoje e aqui.

Mas por que exatamente retratar com anacronismo essas figuras e esvaziar suas obras e contribuições para a humanidade, ignorando as nuanças de tempo e espaço de forma tão tendenciosa assim?

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Aí respondo sem nem pensar com uma constatação não minha, mas de Umberto Eco (um gênio, falecido há pouco): redes sociais dão voz a imbecis, que antes falavam em bares e depois de uma taça de vinho, sendo imediatamente calados. Mas hoje competem em direito à palavra com um Prêmio Nobel – referência não literal. Me permito a leitura de eu mesmo ser apenas um imbecil utilizando de alcance para dizer minhas imbecilidades, e espero a acusação, sendo esse o caso.

Mas não é justamente isso? Não é hoje o jornalismo baseado na polêmica, muitas vezes inverossímil, pelo buzz e guita na venda de mídia? Por quê a escrita artística não cairia no mesmo crime em troca de visibilidade?

Querendo concluir, não peço permissividade. Não peço que bons e maus atos sejam postos numa balança para ver qual pesa mais e, uma vez sendo os bons, apagar os maus da memória. São posturas abomináveis que já deviam ter sido extirpadas da face da Terra há milênios, mas ainda hoje seguem firmes e fortes… Mesmo hoje. Quem dirá há sessenta, setenta anos.

O que peço, realmente, é fidelidade ao momento histórico e ao local, na avaliação de uma realidade, para garantir sua justiça; para evitar que julguemos Hipócrates um estúpido, por exemplo, por não realizar cirurgias neurológicas…

Não é preservar monstruosidades ou esvazia-las, mas o medo é muito simples: se só elevarmos à classe de heróis os impecáveis, temo que fiquemos sem nenhum!


Mario Feitosa

Não sei de nada, mas, sabendo disso, vem a sede de querer saber tudo, e nessa sede construo essas barbaridades, que acostumei a chamar de opinião. Me mostra que estou errado? Veja mais em http://covildadiscordia.com.br.
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