sete vidas e uma alma livre.

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que ano a ano recua a nossa frente.

Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas.
Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade.

House of Cards, quem nunca?

House of Cards é um resumo da capacidade vil do ser humano. É o cenário da baixeza, mas que mesmo assim induz o espectador a torcer pelo anti-herói, para descobrir qual será sua próxima tramóia. É se divertir com o sarcasmo, mesmo sabendo que está errado. É o politicamente incorreto no seu sentido mais literal.


Frank e Claire 2.jpg

Vamos falar de uma das séries do momento, a moda dos netflixianos: House of Cards. Quem não se encanta com as proezas do Frank é porque com certeza não assistiu às caras e bocas protagonizadas pelo brilhante Kevin Space. E o charme sedutor da Claire? Uma pessoa fria e intimidadora no início, que aos poucos cativa e deixa transparecer uma ferpa de coração fértil e sentimentos quase reais.

Depois de conversinhas de boteco com um amigo, chegamos à conclusão de algumas marcas da série. Entretanto, deixa-se claro aqui que jamais tivemos a vã pretensão de desenvolver um postulado psico-filosófico milimetricamente analisado dos personagens. Na verdade, isso continua sendo mais uma conversinha solta, mas agora com um público muito mais abrangente.

A conclusão tirada foi a de que o autor baseou a personalidade de Frank Underwwod na lógica de Nicolau Maquiavèl: “Os fins justificam os meios.” E a de Claire Underwood nas bases de Jacques Rousseau: “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe.”

Frank e Claire.jpg

As técnicas de leitura de Frank contra seus supostos adversários, sempre arquitetando uma maneira de manipular a situação a seu favor, com interesses. Utiliza até a última gota de vantagem e quando termina, descarta a pessoa ou afasta-a eternamente (quem diria a pobre Zoe Barnes ao cometer “suicídio” no metrô). É aquele psicopata cativante, pessoa do povo, que come costela no Freddy´s, mas também é prestigiado em homenagens.

É casado com uma mulher sedutora, inteligente e atlética. Mas prefere se envolver com uma jornalista iniciante e ter noites casuais com seu segurança pessoal, com direito a Ménage. Sem contar na paixão que manteve pelo seu melhor amigo de colégio e no desejo desenvolvido pelo seu biógrafo. O discurso direto com o espectador é fundamental para o sucesso da série. Ao mesmo tempo que causa uma interação, coloca o público em uma posição de aprendiz das lições maquiavélicas de Frank; é o verdadeiro manual da péssima conduta.

E se existe aquele clichê de que “Atrás de todo grande homem, existe uma grande mulher.”, isso se confirma com Claire Underwood. A sedução desenvolvida pela atriz Robin Wright é o tempero que faltava para completar a série. Mulher perfeita (ou quase), que corre como uma maratonista ao mesmo tempo que se veste de Prada e Armani. É altruísta ao ponto de presidir uma ONG que cuida de problemas sociais. Extremamente permissiva com os casos esporádicos do marido, desde que não envolvam sentimentos. Sofisticação e elegância até para disfarçar as ondas de calor da menopausa. Em público, assemelha-se com Lady Day; é exemplo de empatia, causando encantamento generalizado. Responsável pela bem sucedida campanha presidencial do marido.

Mas a partir da segunda temporada, Claire se mostra como uma mulher quase humana. Alguém que recebeu pesadas marcas da vida e foi se moldando a um marido manipulador. A máxima de Rousseau se confirma quando Claire deixa transparecer um lado apaixonado e visceral pelo seu ex-amante Adan Galloway. Sim, ela é capaz de amar (por 48 horas pelo menos). Alguém que também aprendeu a exigir sua cadeira, ao abandonar Frank em meio ao turbilhão da reeleição, por não ter sido valorizada. Claire está como a figura simbolística das tulipas que foram plantadas no jardim de sua antiga casa. Possuem uma essência tão bela, mas foram enterradas, só restando o gramado.

houseofcards.jpg

O que desperta o sucesso de House of Cards é justamente a mistura de poder (Frank) e sedução (Claire). Em alguns momentos, o telespectador chega a abstrair os meios pelos quais o casal consegue chegar à Casa Branca e inclusive vibra para que isso ocorra. Quem nunca se divertiu com as expressões sarcásticas de Frank ou se encantou com a elegância de Claire? Mesmo conhecendo a psicopatia do casal, chega uma hora em que as vitórias tornam-se perversamente inescrupulosas. É o ser humano no seu grau máximo de baixeza.

E talvez, seja exatamente isso que encante na série: é olhar e torcer para o anti-herói, porque você simplesmente não quer que ele morra ou seja preso. O que queremos é ver qual será a sua próxima jogada. Enxergar nem que seja um pouco dele no nosso lado mais perverso e imperfeito. É querer aprender a sagacidade do Frank e ter a beleza de Claire. É usar toda a maldade do personagem contra coisas da vida que são nossos empecilhos, não necessariamente pessoas. É o ser humano deixando aflorar seu lado imperfeito, que fica escondido, mas damos conta de que existe quando surge um sorriso de identificação com o Sr. Presidente.

maxresdefault (2).jpg


Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas. Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Carolina Castello