sete vidas e uma alma livre.

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que ano a ano recua a nossa frente.

Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas.
Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade.

pobres somos nós, que não temos chopin

Dos movimentos romancistas aos atuais “tinderianos” a cultura do raso se difundiu ao longo das décadas. Não se vive visceralmente; patriotismo para muitos significa uma camisa de futebol; se a atualização de status de relacionamento não tiver várias curtidas ou comentários, aí é melhor nem começar. E assim vamos vivendo, ouvindo o nada e nos negando a escutar música clássica, impedindo a alma de dançar...


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Frédéric François Chopin, genial compositor e músico nasceu na Polônia em março de 1810, tendo sido referenciado como uma das maiores mentes do romantismo da época. Filho de um professor de literatura e de uma pianista de família aristocrata falida, aos vinte anos foi expulso de seu país por ter se recusado a tocar piano para o governador Czarista, tendo sido exilado em Paris.

Em concordância com o movimento romancista da época, Chopin exaltava em suas obras o patriotismo pela sua terra natal e a mágoa por se manter afastado das suas raízes de infância. Na obra Tristesse (Opus 10, n 3 em mi maior) torna-se visceral o sentimentalismo do compositor por Varsóvia e a revolta com o exílio. Essa composição é considerada pelo próprio Chopin como a mais bela e perfeita de sua carreira.

Possuía hábitos gentis e aristocráticos que conquistaram rapidamente a sociedade parisiense. Tornou-se amigo de Franz Liszt, Victor Hugo e Mendelssohn; ganhando respeito e admiração pela sua personalidade tímida e talento díspar. Robert Schumann se referenciou a Chopin em uma revisão da ópera Don Giovanni de Mozart, Opus 2: “Chapéus ao alto cavalheiros! Um gênio.”

A mistura de elegância, com cultura e timidez fazia com que Chopin fosse cortejado. Aos dezenove anos desenvolveu um paixão platônica por uma cantora lírica, a qual nunca teve coragem de se declarar. Mais tarde, ficou noivo da jovem Maria Wodzińska, cujo romance jamais foi anunciado à sociedade e tendo chegado ao fim devido a pressões da mãe da moça, após rumores do agravamento de uma possível tuberculose desenvolvida pelo compositor.

Teve um relacionamento de dez anos com a famosa escritora Aurore Dudevant, que assinava com o pseudônimo de Georges Sand e mantinha o hábito de se vestir como homem. Sand tinha duas filhas e era conhecida por seus inúmeros casos amorosos, inclusive com a atriz Marie Dorval. A sociedade europeia criticava a diferença de estilos e personalidade do casal, porém esse jamais foi um fato relevante na intimidade de Chopin e Sand. O mesmo dizia por vezes que Sand era a grata surpresa que trouxe paixão à sua obra. Indiscutivelmente, as melhores composições de Chopin se deram durante esse período do relacionamento com Sand.

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O que me pergunto como uma curiosa aficionada na vida e obra desse artista é: Ainda irá surgir outro Chopin? Porque a genialidade tem que ficar restrita à época do romantismo de Paris? Porque um amor incondicional foi dado à Sand e não a todos os amantes? Porque uma Tristesse não pode ser dedicada à cada pátria?

Toda pátria deveria ter o direito de possuir um filho romântico que compusesse Tristesse; toda mulher deveria se sentir amada por um amor incondicional e leal; todos os ouvidos deveriam ter a sensibilidade para ouvir Chopin e resgatar o romantismo esquecido.

Fazendo um link com o filme Meia Noite em Paris, de Woody Allen, quem é que não esperaria naquelas escadas para viajar inúmeras vezes por entre as décadas? Não estou dizendo somente a década de 20 como enfatizado no filme, mas sim, as décadas. Poder captar o melhor de cada movimento, o ar, a beleza, as diferenças. Poder fundir todas as levezas e características de cada época; criar um virtual infinitamente mais profundo que as redes sociais e movimentos “Tinderianos” atuais, onde o profundo se tornou impraticável, cafona e chato. Ter um amor leal, aonde não se questione a sua incondicionalidade, que exista com o simples propósito de nos segurar quando nos lançarmos. A desaprovação da sociedade será um detalhe enfadonho, pois vocês estão e serão integralmente ali, apenas um.

Chopin morreu com 39 anos, após um rigoroso inverno europeu que agravou sua crise pulmonar. Cumprindo seu último pedido, seu coração foi retirado e levado de volta à Varsóvia por sua irmã, onde foi colocado sob um dos pilares da igreja de Santa Cruz. Alguns anos mais tarde, pesquisas comprovaram que ele não apresentava tuberculose. A causa de sua saúde frágil era devida a uma doença genética chamada fibrose cística e que não era transmissível.

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Pobre Maria Wodzińska, que por pressões da família não se permitiu viver um amor com Chopin. Pobre Polônia, que se privou de um gênio da música e com um patriotismo infinitamente superior à intolerância de um Czar. Infinitamente pobres são todos os que não possuem o poder de voltar no tempo como Gil e Adriana do filme Meia Noite em Paris. Esses nunca irão se sentar em uma escadaria parisiense à espera de um carro com amigos indiscutivelmente mais interessantes do que aqueles conhecidos rasos, que fazem volume na sua página de rede social.

Rica foi Georges Sand que namorou o exuberante Chopin, sem preocupações com tuberculose, sociedade ou qualquer questão menor que a incondicionalidade do amor. Abençoada foi Paris, que recebeu esse gênio romântico. Privilegiados são todos os que tem o dom de ouvir suas obras e captar a essência da simplicidade e beleza visceral de seus acordes.

Como seria o mundo com vários Chopins, com mais música, com mais movimentos romancistas, sem Czares e sem hipocrisia? Isso jamais saberemos, enquanto estivermos olhando a tela do celular ao invés nos disponibilizarmos a sentar nas escadarias e esperar o carro passar à meia noite. Mesmo que virtualmente, renunciarmos à cultura do fútil e raso, para nos jogarmos de cabeça na essência mais profunda da vida e que desperta sensações reais em nossa alma. Termos a curiosidade de se abrir para aceitar as diferentes artes e descobrir a história por trás delas, com suas belezas, construções e levezas.


Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas. Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade..
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