sete vidas e uma alma livre.

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que ano a ano recua a nossa frente.

Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas.
Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade.

Permita-se: deixe o novo acontecer

"Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas
Atiro a rosa do sonho nas tuas mãos distraídas."
(Canção do dia de sempre, Mario Quintana)


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Justo eu que prometi: nunca mais! Sim, justo eu que jurei viver a vida com uma perspectiva mais blasè. Que tiraria meu ano sabático para ficar sozinha, para viver a tal liberdade que é tão pronunciada pelos “felizes”. É, em tão pouco tempo nos encontramos e em meio a tantas coincidências, ou destino, ou carma, aqui estou eu fazendo tudo ao contrário do planejado. E quer saber? Esse é a delícia das surpresas. É não seguir conforme a agenda, é não programar uma ida a um bar; é sair, se divertir e se acontecer, deixar vir a melhor noite de todas, nada combinado, mesmo que não passe de uma boa conversa.

Permita-se. Era o que minha alma pedia e eu negava-me a escutar. Deixe com que o novo invada cada espaço do seu corpo. Sinta experiências que por uma espécie de autopunição, deixamos de sentir. Elimine aos poucos cada resquício do antigo.

Claro que por inúmeras vezes a insegurança nos faz repensar. Como é fácil esquecer dos motivos negativos, de tudo que nos fazia mal, esquecer das brigas. Entrar novamente no ciclo vicioso que insistimos em ficar e voltar para a mesmice acreditando que poderia dar certo, que temos a obrigação de fazer dar certo e suportar.

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Mas como é maravilhoso perceber que no meio de pensamentos tão perdidos e conversas com pessoas forçadas e desinteressantes, pode surgir alguém do nada e te resgatar da rotina que é tão mortal para a alma. Ainda mais fantástico é quando você percebe que esse alguém é você mesmo; que se permitiu viver, enxergar e sentir, que saiu da superficialidade, que escolheu se libertar. É mágico descobrir que tudo na vida pode acontecer novamente e quantas vezes escolhermos. Que não existe apenas uma chance única para o amor, que ele pode acontecer sempre que nos permitirmos sentir.

O novo sempre surgirá; da maneira mais descoordenada; naquele dia em que não estivermos procurando. Pode ser naquela segunda-feira na qual teríamos voltado para a casa; em meio a tantas risadas; assim sem forçar. Olhamos para o lado e tudo volta a acontecer. Sem pressa, quando o natural decide grudar nas mãos do acaso. A verdade é que o novo sempre esteve ali, apenas a nossa alma fica paralisada, tornando-o invisível.

Não faço ideia do que irá ocorrer, e isso é a melhor sensação de todas. Esquecer das regras e da rotina. Já falei da delícia das surpresas? Sim, isso é o que há de mais cativante nos encontros. É se surpreender com alguém que entende Chopin e também pode ser fã de Led Zepellin. Que abre a porta do carro sem parecer pedante. Que não sabe usar relógios; esquece do mundo; que não me deixa sozinha na mesa para viver um mundo Matrix no celular; que sabe aproveitar cada segundo de um olhar intenso como se estivesse recarregando a sua essência com as minhas energias, fazendo com que a cada encontro nos tornemos ainda mais afinados.

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Se sou como Gatsby? É bastante provável. Mas não permita jamais que eu desperdice meus sentimentos com uma Dayse qualquer. Que eu deixe de procurar a “Green Light” e me torne um ser humano vazio, sem sonhos, sem esperança, sem querer. Seria injusto com Fitzgerald. Se for para cometer novamente um erro, que seja perfeito.

Que continuemos assim, até enquanto durar, parafraseando Vinicius. Aconteça o que for, que todos os nossos encontros continuem esbarrando no acaso. Nunca permita que eu largue sua mão quando estivermos juntos, nem que troque seu olhar pela visão de uma tela convencionada. Continue me fazendo inspirar e as vezes esquecendo de soltar o ar. Tente me fazer entender temas escassos. Não permita que um dia eu volte a guardar a minha alma, trancada na ilusão de que o amor é isso; que já aconteceu e basta; que o médio é cômodo, na terrível zona de conforto que nos impede de buscar. Permita-se, deixe o novo acontecer.

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Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas. Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade..
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