sete vidas e uma alma livre.

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que ano a ano recua a nossa frente.

Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas.
Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade.

Olhe para o anjo, esqueça o que não é real!

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!
(Da Felicidade – Mário Quintana)


Ontem fui fazer uma trilha em um lugar único, chamado Peito do Pombo, no Sana, interior do Rio de Janeiro. O local é indiscutivelmente espetacular. São oito quilômetros de trilhas com aproximadamente 1400 metros de altitude até o cume. É uma caminhada puxada que requer muito esforço físico e várias horas.

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Logo no início encontramos um grupo do RJ e resolvemos acompanhar. Esse grupo se definiu como participantes de várias trilhas pelo Brasil. Instantaneamente, imaginei o quanto de experiências bacanas que essas pessoas tinham acumulado nas suas viagens.

O passeio total tem aproximadamente sete horas de duração. Porém, já na primeira hora, minha amiga de trilha e eu decidimos ultrapassar o tal grupo e seguir sozinhas. Resumindo, esse grupo era composto por quatro mulheres: uma que dizia já ter subido a montanha outras vezes, mas que demonstrava dúvidas em várias partes do percurso. Uma outra de 55 anos, que havia tido um infarto há dois anos, uma trombose e era hipertensa. A filha dessa mulher, que era uma moça que foi reclamando do início ao fim, como se estivesse sendo obrigada pela mãe a fazer aquela trilha. A última era a amiga dessa menina, que nos contaram que era porta-bandeira de uma escola de samba do RJ, mas que amaldiçoava cada pingo de lama que respingava no seu tênis ou mosquitos que, por audácia, resolvessem cruzar o seu espaço na natureza.

Bom, quando chegamos no trecho final, que é o pior, ainda tínhamos tempo para gargalhar dessas quatro pessoas bizarras e fazer outras piadas para não perder o entusiasmo de chegar na pedra final. Em algum momento, nos confundimos e saímos da trilha em meio à mata atlântica. Por sorte, percebemos a tempo e conseguimos retornar ao percurso.

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A última hora da subida é torturante, suas pernas ficam trêmulas, por mais que respire você não sente o ar reabastecendo. A desidratação é enorme, mas também não há forças para pegar a água de dentro da mochila. A vontade de desistir é recorrente a cada dois minutos. Você é o seu principal desafio. Nessa hora a cabeça viaja e você começa a associar a vitória da chegada ao topo, com todas as coisas que já conquistou ou fracassou na vida e pensa o quanto seria frustrante desistir nesse trecho. É como se a sua maior conquista estivesse acontecendo temporariamente ali, naquele exato momento. Para quem já leu “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway, imagine que é a mesma sensação de já estar há dias com o peixe fisgado, exaurido, mas não ter a coragem de desistir, de soltar.

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Finalmente chegamos. Lembro que quando criança escutei em algum lugar que se um dia eu visse um anjo não teria palavras, devido a beleza tão esplêndida dessa criatura divina. No momento em que meu corpo se levantou, no último movimento de escalada na pedra, avistei toda aquela maravilha. Definitivamente, a sensação só pode ser comparada com a visão de um anjo. Fiquei alguns minutos constatando a minha insignificância como ser humano.

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Muito tempo depois, enquanto estávamos deitadas na pedra, escutamos uma garota discutindo com alguém e outra reclamando por alguma outra coisa qualquer. Era o grupo das “atletas” de trilha que dividimos o início da subida; enfim chegaram. As meninas já foram logo procurando sinal de celular. As outras pediram uma escova de cabelo para dar um up no visual. E então começou a sessão de fotos. Era um tal de saltar na ponta da pedra para aparecer flutuando como uma fadinha encantada na foto; deitar e fazer poses sensuais, que brochariam até o mais sedento dos homens; e até mesmo posições de ioga e religiosas, onde encaixariam alguma legenda de agradecimento ao cosmos pela paisagem exuberante. Porém, o mais absurdo dessa situação, foi que o tempo fechou e a paisagem ficou encoberta por nuvens. Perderam tantos minutos tirando fotos para postar para os outros, que nem aproveitaram a natureza explícita que compensaria todo um esforço de horas.

A reflexão que fiz é o quanto a essência do homem se tornou superficial. Vive-se em função de mostrar para o mundo o quanto você é feliz, tem vários amigos, faz esportes ou passeios legais. Sentimentos falsos, onde pessoas também superficiais fingem que acreditam, para manter a roda da felicidade inventada girando. Um dia inteiro de esforços perdidos, para sequer aproveitar alguns minutos apreciando a paisagem que deveria ser o objetivo da escalada; postar a foto com o cabelo penteado era mais interessante. Talvez pessoas assim nem sintam falta, pois nunca pararam de fato para enxergar a paisagem real, aquela que a tela do celular não mostra. Eu fico com o barro pelo meu corpo e o cabelo despenteado; mas em hipótese alguma trocaria o encontro com um anjo, por alguns likes de pessoas vazias.

O mais triste foi perceber que a maioria dos que chegam ao topo da montanha, se preocupam primeiro em se produzir para tirar fotos; curtem muito pouco ou nada da vida exposta ali. As experiências acumuladas não estão mais na memória, e sim no celular. Se não tiver muitas curtidas, deleta-se, pois a opinião alheia é ouro. Frustrante constatar que para muitos a visão do anjo está congelada, sem palavras, somente com legendas, dentro de uma página sem graça qualquer, em meio a milhares de outras postagens insignificantes.

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Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas. Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade..
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