sete vidas e uma alma livre.

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que ano a ano recua a nossa frente.

Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas.
Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade.

Seres invisíveis

"Por que foi que cegamos?
Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão.
Queres que te diga o que penso?
Diz!
Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem."

José Saramago, Ensaio sobre a cegueira.


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As vantagens de Ser Invisível é um desses filmes que perpassam sobre as dificuldades de se sentir confortável em sociedade. Charlie narra suas próprias agruras, muitas vezes utilizando-se de cartas escritas ao seu melhor amigo, que cometeu suicídio recentemente. Cartas que jamais serão entregues, para um amigo que não lhe deixou nenhum bilhete.

É uma obra definitivamente questionadora. Quantas vezes nos dispomos a vestir a máscara e sorrir? Recebemos aquela estranheza ou até mesmo frieza no olhar de alguém, e nos sentimos deslocados. Mesmo assim, insistimos em permanecer no meio da boiada. Ficamos na festa e forçamos o riso; dançamos como bonecos; postamos momentos felizes em troca da aceitação e do crédito alheio. Aquele tão almejado selo de qualidade. O certificado consagrado de que finalmente fazemos parte do rebanho, somos iguais, indistinguíveis, seres INVISÍVEIS.

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Por tantas vezes nos inserimos num determinado grupo para ficarmos incluídos e invisíveis. Escutamos bravatas sobre sexo e ficamos constrangidos por conhecer a verdade enrustida. Vemos competições sobre quem é o Sebastião mais sofredor da roda de conversa. Nos deixamos levar por um jogo de Pollyanna, misturado com uma patética filosofia budista de horóscopo de jornal. Quando percebemos, em poucos minutos estamos mugindo igual. Conversas voláteis com pessoas pedantes. Se as curtidas da rede social estão confirmando que estamos felizes, quem somos nós para discordar?

A maior mensagem do filme está descrita na frase: Aceitamos o amor que achamos merecer. Desenvolvemos amores artificiais. Declamamos Drummond para pessoas surdas, mas temos a compensação egóica com as curtidas alheias. Estamos tão invisíveis que aceitamos o morno, o que nos machuca, aquilo que não acrescenta. Tudo pelo simples fato de poder mostrar, exibir o selo amarelo da felicidade. Aquela noite única, com a pessoa que não fará jus ao seu status Tumblr... melhor esconder, pois traria visibilidade demais. O momento de maior prazer da sua vida foi compartilhado numa rede social?

deitado na areia.jpg A consciência nos questiona. Por algum entorpecimento, percebemos o quanto criamos momentos e companhias vazias. Discutimos sobre a Grande Beleza, mas somos acumuladores de nadas, dentro de caixas tão leves que não conseguimos mais carregar. Encontramos duas opções: abandonamos aquela caixa que já se tornou cansativa e criamos tantas outras num ciclo doentio de erros; ou então, enfrentamos a cegueira da invisibilidade.

Encruzilhada.jpg Para confrontar a cegueira é necessário sair da mesmice. Assumir suas vontades genuínas sem a pretensão de ser admirado pelo próximo. Eliminar relacionamentos que não acrescentam; que esquentam, mas não causam febre. Enfrentar seus lutos, suas dores escondidas e por fim, se deixar curar.

A Green Light de Fitzgerald é visível. Basta olharmos atentamente para a poesia que nos move. Um olhar demorado, para perceber que as mãos finas continuam abertas para entrelaçarem-se. Ainda em tempo de se realizar o sonho. Antes de girar a luz do farol e tudo voltar a ser invisível.

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Carolina Castello

Acadêmica de medicina na UFRJ. Conversas de boteco à filosofia são bem vindas. Adora pessoas interessantes e foge das rasas. Palavra de ordem: resiliência. Recomeçando sempre, até que se encontre a totalidade..
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