Jefe Vargas

Homem de teatro como essência e o resto... conseqüências das experiências.

A decadência em tempo de Revolução (tecnológica)

Será que a insatisfação que se manifesta na era tecnológica não é um sintoma de que vivemos uma época decadente? Em que pilares começam a ruir e perspectivas a latejar...


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A revolução acontece. É inevitável! Bom, de repente, a revolução não é como nos contos de fadas dos livros de história, não é tão heroica como alguns egos narcísicos acreditam...

Já foi a época em que criar personagens era um privilégio de atores de teatro, cinema e televisão. Do hiper-realismo dos vídeos-game às redes sociais observamos a criação constante de personagens, democratizou-se a oportunidade de cada indivíduo de aguçar a sua própria histeria, com seus próprios personagens e fantasias. Podemos - a qualquer hora, em quase todos os lugares - viver o nosso personagem virtual e visualizar infinidades de outros personagens igualmente virtuais. Não é de hoje que assumimos papéis, só que as máscaras da “vida virtual” aparentemente suprem expectativas diferentes das que construímos na “vida concreta”. As mesmas máscaras utilizadas pela mesma pessoa em mídias diferentes adquirem profundidades diferentes, veículos distintos necessitam de expressões distintas para se propagarem. É evidente que a "vida virtual" é uma expressão criativa, mais um “Eu” de muitos de nossos “Eus”.

Nessa criação de um “Eu virtual” observamos muitas críticas a respeito. Há um discurso recorrente de que pessoas estão deixando de viver a sua “vida real” para se dedicar à "vida virtual": uma vida platônica, um “Eu narcísico”; transformando-se em multidões de “zumbis” (viciados e escravos de seus aparelhos digitais)... Muito estão abismados com esse cenário, esbravejam com frases do tipo “é um absurdo, as pessoas estão perdendo suas vidas em uma mentira”. Bom, embora seja um tema delicado que afeta o nosso cotidiano, estou em uma fase de evitar julgamentos: se a pessoa prefere viver o idealismo de sua vida digital, dar vazão ao seu “Eu narcísico”, se satisfaz mais em um mundo virtual do que no real, se prefere a companhia do seu celular a de pessoas em carne e osso: PACIÊNCIA.

Com certeza isso acarreta em prós e contras. Se cada um tem a liberdade de criar seus próprios problemas, então, que os assuma sem muito choro. Se as pessoas estão ficando ansiosas, ociosas, não se satisfazem com mais nada, estão sempre atrás da última novidade, etc, etc, etc: PACIÊNCIA.

Ou, por outro lado, a responsabilidade pelo bem estar também é válida: se estamos expandindo conhecimento em uma rede interligada de informações, construindo possibilidades de conversas inusitadas (independente da distância física), criam-se confortos e facilidades para tarefas do dia a dia, etc, etc, etc: PACIÊNCIA.

Como diz Antônio Abujanra: “A vida é sua, estrague-a como quiser”.

Eu que sou da geração “y” e presenciei as transformações drásticas da tecnologia, há situações que são absurdas, admito: surpreendo-me com algumas cenas. Mas relações absurdas entre seres humanos não é privilégio da era digital. Somos marcados por guerras, governos ditatoriais, desigualdades sociais, degradação ostensiva da natureza e por aí vai... O cotidiano das cidades está repleto de cenas absurdas, até hoje, por exemplo, não consigo me acostumar com pessoas morando na rua, pra mim é sempre uma cena absurda, embora seja comum de acontecer na rotina da cidade.

Mas, o ponto que quero tocar, com o desenvolvimento tecnológico é que todos (em níveis diferentes) manipulam imagens, fatos, situações... Com essa manipulação constante, estamos, sim, mais crentes na virtualidade e descrentes de verdades absolutas. Desenvolvemos cada vez mais a consciência de que tudo não passa de uma ilusão. Uma ilusão que reforça que o máximo que conseguimos são apenas versões. Com a ferramenta tecnológica se ampliou os espaços para pontos de vistas contrários, o que facilmente desencadeia uma polarização dos extremos, os entusiastas não demoram em se expressarem para defender com unhas e dentes suas verdades. Obviamente, acreditamos no que queremos acreditar. E, em tempos de rede democrática, todos têm o direito de criar suas próprias verdades, independente do nível de mediocridade.

No entanto, encontramos uma crescente falta de fé no absoluto, no intocável. Tabus entram na pauta. Tensões se estabelecem. A revolução (tecnológica) faz borbulhar conflitos, cria sensações (do prazer à indignação) e sobre nossas cabeças pairam incertezas, instabilidades, crises e contradições, sintomas de uma sociedade decadente.

Que Maravilha!

A decadência é sempre um bom momento histórico.

A insatisfação é o principal reflexo da decadência, aos poucos, essa insatisfação vem ganhando mais adeptos que não se satisfazem mais com seus personagens (virtuais ou não, pouco importa: tanto o eu real, como o narcísico estão desgostosos). Os insatisfeitos estão realmente cansados! E uma crise que atinge o físico começa a pulsar. Uma multidão desperta todos os dias inventando justificativas para continuar a realizar suas rotinas. Mas, no fundo, muita gente (na sua individualidade) compartilha de um leque de descrenças; as mais corriqueiras: nos políticos, nos partidos, na direita, na esquerda, nos desvios megalomaníacos de dinheiro, nos superfaturamentos, na destruição desmedida dos bens naturais, na falta de água, na poluição excessiva, nas crianças na rua, na fome, no transporte superlotado, no transito engarrafado, no completo desleixo com a educação, na desigualdade, nos bancos cobrando juros absurdos, na carga tributária sugadora, no trabalho frustrante, no desemprego, na falta de perspectiva, na violência descontrolada, no medo do assalto, no medo da polícia, nas guerras, na intolerância de líderes religiosos, na mediocridade dos astros milionários... Esse é o pano de fundo desconfortável que perdura: a palavra de ordem que rege nosso dia a dia. Será que esse sistema meio suicida vai perdurar eternamente? Os pilares que os sustentam parecem que já estão mais ou menos comprometidos, totalmente em descrédito.

E os adeptos à decadência constroem, pacientemente, a ilusão onírica da revolução, que não aceita ser vestida com bandeiras obtusas e nem termos obsoletos.


Jefe Vargas

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