Jefe Vargas

Homem de teatro como essência e o resto... conseqüências das experiências.

A volta de Jesus (entre crentes e hippies)

Cantava Wander Wildner (algumas décadas atrás):

“Jesus Cristo vai voltar, Aleluia!
Em Porto Alegre ele vai morar, Aleluia!
As pessoas vão gostar, Aleluia!
Nossa vida vai melhorar, Aleluia!”


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Um dia desses fui a um hipermercado comprar umas cervejas. Hipermercado tem algo de Incrível e bizarro, você pode comprar de um pacote de sal a uma televisão de última geração. É o templo-mor do consumismo, não?

Bom, voltando pra casa passei por uma praça com uns hippies vendendo pulseiras, colares, cachimbos, etc. Parei para olhar e, nesse momento, chegaram umas pessoas de terno, gravata e bíblia embaixo do braço. Começaram uma conversa sobre o fim do mundo e se estabeleceu um debate: os de ternos oferecendo o paraíso e alertando do apocalipse anunciado na bíblia; os hippies falando de uma nova consciência, vibrações sutis, plantas de poder, violência como tensão limite para uma nova realidade. Enfim, duas visões que no fundo falavam da mesma coisa:

“Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”. E que Jesus era legal.

Passou uns dias, estava no ônibus e da janela vi um outdoor com os dizeres “Jesus voltará”, e comecei a pensar nos hippies e no pessoal com a bíblia de dias atrás. E cogitei: e se desta vez a publicidade for verdadeira? E se Jesus voltasse mesmo nos dias atuais?

Pensando em um Cristo de carne e osso, acho que Jesus está mais para hippie do que para crente. Jesus era andarilho, andava pregando o amor, a paz, a tolerância, o desapego aos bens materiais, a divisão do pão, transformando água em vinho para continuar a confraternização, chamando todo mundo de brother... Não tem outra: Jesus é totalmente hippie.

E agora pense: com esse princípio meio “bicho grilo” voltar no fim dos tempos, no ápice do consumismo e do capitalismo (“o capitalismo tardio” como chamam os teóricos) é no mínimo curioso. Imagino Jesus sentado, com uns 27 anos (antes da fama, cogitando que sua vida pública comece aos 30), com uma meia dúzia de malucos/discípulos em torno de uma fogueira, fazendo um sermão mais ou menos assim:

Não, não, não. Podem parar! As pessoas não entendem que quem disse que eu disse foi Pedro, Lucas, João, Mateus ou qualquer outro, foram eles que escreveram a bíblia, não eu. Quem acredita nesse diz-que-diz que se responsabilize. Não coloquem palavras em minha boca. As pessoas têm a mania de dizer: “Jesus disse isso”, “Jesus disse aquilo” e distorcem tudo.

E se eu disse algo, foi há dois mil anos. Muita coisa aconteceu depois, e eu tenho o direito de mudar de opinião. Se as pessoas são sectárias, rígidas - fazer o quê? Olha tudo que aconteceu só no século XX? Agora ficar justificando atos de hoje com “está na bíblia”, por favor, não dá, não cola mais.

Estou cansado de carregar tudo nos meus ombros.

E tem outra coisa, meu nome aparece em tudo que é lugar, e tem muita gente ganhando grana com a minha imagem, já pensou se eu decido cobrar os direitos? Qualquer dia eu acordo de humor virado e vou falar com um advogado para exigir meus direitos, dou uma passadinha pelo inferno que dizem que é onde estão os advogados mais competentes e aí o negócio vai pegar fogo. É sempre a mesma lorota: “é pra Jesus! é pra Jesus! O que eu tenho é de Jesus...” E eu não estou vendo a cor da grana.

E depois dessa revolução industrial, tudo virou comércio. As pessoas rezam fazendo comércio com Deus. “Faça uma promessa que Ele te atenderá, pague o dízimo que Ele realizará seus pedidos...” É uma promiscuidade, qualquer reza é para ter algo em troca. Não, Não, mas o que é isso? Agora Deus tem que se preocupar com telhado da casa que quebrou, o emprego que o outro quer arrumar, o cachorro da “madame” que está com gripe. Todo mundo quer que Deus resolva seus problemas, mas ajudar o próximo é coisa antiga, cafona, fora de moda.

E coisa que me deixa mais indignado é transformarem um cinema em igreja. Quem teve essa brilhante ideia? Só pode ser jogada financeira, está na cara. Agora quero levar a Maria Madelena (uma transformista que conheci semana passada) pra ver um filme, tenho que ir onde? No shopping com aquele preço absurdo do ingresso? Pegar dois ônibus (e a passagem subiu de novo!) e depois ir comer em uma praça de alimentação: vou comer o quê no shopping? McDonald's? Provavelmente com uma coca-cola, e aposto todo ouro do vaticano que não tem uma latinha com o meu nome.

E o pior são os que entraram para política e vivem se promovendo com polêmicas absurdas. Nunca vi tanta picuinha: esse é gay, aquele maconheiro, o outro gosta de rock (que é música do diabo), o outro é marxista, a outra é prostituta, aquele outro não sei o quê. Parecem umas beatas da obra do Nelson Rodrigues que ficam regulando a vida alheia, coisa chata. Tudo em nome de Jesus e da família... Que coisa feia: preconceito e intolerância em meu nome. E não existe discurso mais retrógrado de sexo somente para reprodução. Ah, sim, a humanidade está praticamente extinta que precisamos procriar, procriar, procriar. Essas pessoas vivem em que mundo?

Se esses políticos querem ajudar de verdade, servir a população? Façam como São Francisco: renúncia. Doem seus salários para instituições em que a comercialização seria uma heresia (como educação e arte), vão viver com o mesmo salário de um trabalhador comum. Todo político deveria ser obrigado a receber o mesmo salário de um professor de ensino primário ou médio e andar de transporte público. Queria ver se teria tanto candidato por aí. Desta forma, ninguém quer. Quando é pra ditar lei, todo mundo é cristão, mas na hora que mexe no bolso e tem que ajudar o próximo, todo mundo pula fora. Tenha a Santa Paciência...

- pode crê – responde um do grupo.

- gravei no celular o sermão com a fogueira em primeiro plano: ficou genial! Vou colocar uma trilha e postar agora – diz outro.

- coloca #jesushippiecomunista – sugere um terceiro.

- Vou buscar pão, alguém tem uma “intera”? – pergunta um quarto.

- Quanto você tem? – pergunta Jesus.

- Dois reais.

- Traz esses dois reais de pão que a gente dá um jeito de multiplicar.


Jefe Vargas

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