Jefe Vargas

Homem de teatro como essência e o resto... conseqüências das experiências.

Nós somos aqueles por quem estávamos esperando

Até quando vamos esperar que as soluções caiam do céu?


engarrafamento-659x340.jpg

Aquela rotina: acordar cedo, café da manhã, sair para trabalhar... Desço o morro, atravesso a praia para chegar à parada do ônibus (20 min de caminhada), o sol estava nascendo no mar deixando as nuvens com um laranja rosado, entro no “latão”, fone nos ouvidos: tudo perfeito! Mais ou menos 1 km e... Aquela fila, trânsito parado. Já sabe: o que leva 15 min vai demorar 1h e 30 min.

Olho para o lado e reforço o que já percebo há tempos: uma pessoa por carro.

Ônibus lotado não é agradável, evidentemente, sensação desconfortável. Então, quem pode (em infinitas parcelas) compra o seu carro e põe na rua. Atenuando (parcialmente) seu problema de conforto e superlotando ruas e avenidas. Não importa se o carro é popular 1000 ou o importado ultra potente, nesse momento, os dois estão parados. Observamos apenas o movimento de motos suicidas e as “magrelas” que, frequentemente, são desrespeitadas. Um caos imóvel de poluição - gasosa e sonora. Irritação e stress a essa hora da manhã? O dia recém raiou.

Sentado no ônibus começo a pensar entre bem-estar e conforto. O carro, sim, proporciona maior conforto, mas o mal-estar do engarrafamento é coletivo, inclusive para você que está segurando o volante confortavelmente, que depois de acelera, pára, reduz, acelera, pega a pista da esquerda, da direita, pára, acelera já não está tão confortável assim. A questão não é ter ou não um carro, cada um sabe de suas carências e necessidades (inclusive de consumo), mas a pergunta que me inquieta é: qual a necessidade de ter que utilizar o carro todos os dias? E para tudo. É como um vício. Uma extensão do humano. Uma espécie de centauro de rodas, homens-máquinas. Imagina uma campanha publicitária contra o vício do automóvel! “Cuidado, a utilização em demasia pode causar danos a sua saúde”. Outdoors, propagandas na tv, no rádio, na internet advertindo contra o uso demasiado do automóvel, em cada bomba de gasolina teria uma placa, como aquelas fotos horríveis das carteiras de cigarro com os dizeres “o ministério da saúde adverte...”.

Mas o que existe é um estímulo para que se coloquem mais e mais carros nas ruas. E nós, que não andamos de jatinhos particulares, ficamos estagnados, mas não estamos estagnados apenas no trânsito, isso pode ser apenas um reflexo de nossas verdades umbigais. Com frequência brigamos e agredimos por questões absurdas (torcidas de futebol, homofobia, racismo...). No cenário político, construímos uma dicotomia de PT e anti-PT que empobrece o debate, em uma discussão reducionista de direita e esquerda (acho importante que haja posições ideológicas, mas não dessa forma caricata). Ainda mais nesse contexto de uma elite de políticos profissionais distante do povo, que não está nem a direita e nem a esquerda, está acima, como sanguessugas. Em plena crise política não se vê uma proposta de mudança estrutural dos poderes, que pelo o que observamos está “ruim da cabeça”. Andamos para trás: tiram os rótulos dos transgênicos, não se discute de forma madura a liberação das drogas, o que se tem é o estímulo a uma guerra civil (guerra contra as drogas?), que traficantes e policiais estão cada vez mais aumentando seu arsenal bélico, envolvendo cada vez mais crianças neste contexto, que já não veem mais futuro na escola sucateada com professores que são literalmente espancados pelo Estado. E é preferível que uma criança morra de fome ou caia no crime do que dar direitos de adoção a um casal homossexual, em nome do quê? Da moral da família tradicional? Preconceitos que estimulam ódio e fabricam marginais.

Quem sabe chegou a hora de ouvir a frase dos índios Hopi “Nós somos aqueles por quem estávamos esperando”[1], e rever nossos atos mais cotidianos, somos todos culpados e responsáveis de gerar a estagnação. Nossos atos são responsáveis. O salvador não vai chegar, não há um líder para indicar o caminho. Então, o que vamos fazer? Será que haverá algum momento em que vamos prezar o bem-estar coletivo em vez do conforto individual? Óbvio que se encaramos essa questão, teremos que tocar em alguns "calos" como o da desigualdade social. Será que estamos dispostos? Mas pensar o bem-estar coletivo é também apenas uma fantasia de minha mente utópica perdida em seu universo, tão particular quanto a do egocêntrico que se tranca em sua mansão em uma ilha particular.

[1] Frase retirada do livro "Primeiro como tragédia, depois como farsa" de Slavoj Zizek.


Jefe Vargas

Homem de teatro como essência e o resto... conseqüências das experiências. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Jefe Vargas
Site Meter