Jefe Vargas

Homem de teatro como essência e o resto... conseqüências das experiências.

"Deixe ela entrar": uma relação vampiresca

Quando convidamos o vampiro para entrar e a necessidade de ser sugado.


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Há séculos vampiros estão por aí. Da literatura ao audiovisual, de Drácula a Nosferatu; no Brasil, do ilustre Bento Carneiro à invasão de vampiros na novela Vamp, que teve representações de todos os tipos, até desdentados.

Os vampiros adquirem características distintas dependo da época, da linguagem, da nacionalidade. No século XXI, adolescentes foram contaminados pelos vampiros galãs norte americanos de Crepúsculo. No entanto, estou aqui para falar de um estilo vampiresco bem menos fantástico, vou comentar sobre um filme chamado Deixe ela entrar (Låt den Rätte Komma In) (2008) dirigido pelo sueco Tomas Alfredson.

O filme aborda o assunto de uma forma extremamente cotidiana, existe uma humanização radical da figura do vampiro, sem perder alguns preceitos da tradição: o não envelhecimento, o não sentir frio, a necessidade de se alimentar de sangue humano e de convite para entrar no recinto...

A base é a relação de dois adolescentes: o solitário Oskar (Kåre Hedebrant), 12 anos; e a vampira, Eli (Lina Leandersson), com 12 anos há muito tempo. No filme são levantadas diversas questões: Bullying, vingança, ciúmes, relacionamento amoroso e sexualidade.

Deixe ela entrar narra a estória de Oskar, um menino sem amigos e perseguido por colegas de escola. Perseguição que produz nele sentimentos de raiva, vontade de vingança e uma mente com impulsos psicopatas. Um dia chega em seu prédio novos vizinhos: uma menina com seu “pai” (pelo menos é o que parece à primeira vista). A menina (embora seja uma vampira) não costuma atacar, quem faz o serviço de matar as vítimas e recolher o sangue é o suposto pai.

A base do filme é o relacionamento dos adolescentes, Eli começa a incentivar Oskar a se defender e reagir contra seus colegas que o fazem Bullying. Sua admiração por ela cresce com a convivência. A harmonia do casal vai se construindo aos poucos: quando o menino descobre que ela é uma vampira e acusa-a de matar pessoas, Eli se defende dizendo que mata por necessidade, enquanto ele não mata, mas tem vontade. O filme, em última análise, trata da sedução de uma menina para que alguém mate para ela. Assim, concluímos que o seu aparente pai, na verdade, foi um menino que ela seduziu; e, agora, que está envelhecendo, precisa encontrar outro assassino: afinal, com a experiência de ter 12 anos há muitos anos, sabe que precisa sempre seduzir alguém que tenha propensão a desenvolver a psicopatia para alimentá-la. Observamos, assim, que o vampirismo real do filme não é com as pessoas que são mortas, mas com o menino que é seduzido; que, também, terá (podemos dizer) um prazo de validade, pois todos envelhecem. E vai ser necessário encontrar outro rapaz que esteja disposto a matar e, assim, seguir um ciclo, quiçá, eterno.

Podemos traçar um paralelo com um vampirismo recorrente em relacionamentos: o que se deixa se vampirizar para existir aos olhos do vampiro. No caso de Oskar – que vivia uma exclusão dos grupos sociais – começou a ter valor especial quando Eli lhe deu atenção. Nesse universo do relacionamento a dois, o menino adquire uma importância que nunca teve antes para alguém de sua idade ou geração, sua frustração no convívio social é compensada na intimidade do casal.

Em um relacionamento, ao que parece, não é tão difícil (ou absurdo) construir uma relação de vampiros. Quantas vezes os procuramos para existirmos? A relação se sustenta porque aos olhos do parceiro conseguimos ser uma pessoa especial. Muitas vezes a frustração de nossa vida cotidiana (social e profissional) é compensada pelo olhar do outro que nos “ama”, ou que nos suga. E fizemos o que for preciso (matamos simbolicamente o que for) para que essa relação continue, para continuarmos como pessoas especiais em um universo paralelo construído na relação a dois, mesmo que para o resto do mundo sejamos invisíveis e medíocres. Quantas vezes clamamos pela necessidade da existência de uma relação vampiresca? Quantas vezes quando o nosso sangue não alimenta mais um vampiro específico precisamos procurar outro? Quantas vezes precisamos transformar os medíocres mortais em heróis para que se tornem alvos fáceis? Em era de capitalismo “ostentação” o vampirismo é uma prática cada vez mais recorrente.


Jefe Vargas

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