Jefe Vargas

Homem de teatro como essência e o resto... conseqüências das experiências.

“Odeio o amor”: a arte do apego

"Você já se apaixonou? Horrível, não é? Isso te deixa vulnerável. Abre seu peito e abre seu coração e significa que alguém pode entrar em você e te bagunçar todo. Você constrói todas essas defesas, você constrói uma armadura inteira, para que nada te machuque, então uma pessoa estúpida, não diferente de nenhuma outra pessoa estúpida, entra na sua vida estúpida... Você dá a ela um pedaço seu. Ela não pede por isso. Ela fez alguma coisa idiota um dia, como beijar ou sorrir para você, e então sua vida não é mais sua. O amor faz reféns. Ele entra em você. Ele te devora e te deixa chorando na escuridão, tão simples como a frase 'talvez nós devêssemos ser somente amigos' se torna um caco de vidro percorrendo o caminho até seu coração. Ele machuca. Não apenas na imaginação. Não apenas na mente. É uma dor da alma, uma verdadeira dor do tipo entra-em-você-e-te-rasga. Eu odeio o amor."
(Neil Gaiman)


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O que nos leva a odiar o amor é provavelmente a tendência de nos apegar.

Hoje em dia, podemos falar de relacionamentos sem apegos, o que resta saber que tipo de amor existe nesses relacionamentos. Questiono se o amor sem apego, não é uma espécie de narcisismo. Nessa época que experimentamos isolamentos inseridos na multidão, desenvolvemos a capacidade de nos relacionar sem grandes intimidades, apenas como uma forma de anestesiar nossas carências.

Outro dia uma pessoa me dizia: “o importante é que eu não durma muitas noites sem companhia, mas se alguém não me quer, paciência: tem quem queira; não sou de ficar sofrendo, a fila anda e tenho mais o que fazer”. A impressão que tenho é que o outro parece ser um instrumento (quase) que impessoal para satisfazer um desejo pessoal (ou será uma ansiedade?). Tudo bem, não há grandes problemas se esse outro também sente prazer dessa forma, cada um com seu umbigo.

Obviamente, não é esse amor que Neil Gaiman está falando. O amor por alguém singular vem de brinde uma dose forte de apego. Nos apegamos porque acreditamos (em algum nível) que aquela é a “pessoa certa”.

E o que seria a “pessoa certa”?

É prudente nos livrar da síndrome do contos de fadas, não estamos esperando o príncipe ou a princesa predestinados a nos encontrar. Longe de "viveram felizes para sempre". Podemos dizer que encontramos alguém especial quando brota a esperança de que ao lado dessa pessoa podemos experimentar (em algum espaço de tempo) o que imaginamos ser a felicidade.

Certamente isso não se dá em níveis exclusivamente racionais, pelo contrário, o amor quando acontece toca em locais obscuros, dimensões inconscientes, por isso nos deixa vulnerável. No amor não há formulas, é impossível saber claramente todos os fatores que estão em jogo em uma paixão. Poderíamos nos iludir dizendo que subjetivamente construímos um ideal e quando alguém tem algumas características que suprem nossas expectativas nos apaixonamos. Porém, acredito que seja mais complexo, o elemento da expectativa é um dos fatores que colabora: partimos da premissa que construímos constantemente nossos padrões, em uma dinâmica que é o produto de experiências no mundo objetivo e as assimilações subjetivas. Assim, os modelos referenciais são constantemente construídos, modificados. O encontro com alguém pode instantaneamente redefinir nossos padrões de forma radical. Em última análise nunca há um modelo estático e absoluto a seguir.

Outro fator que claramente influência é a afinidade, mas ela não garante que surja a paixão, apenas colabora para que haja com mais facilidade a proximidade, que proporciona afeto: o amor passional surge da capacidade de afetar e ser afetado. Uma relação é capacidade criativa de jogar com intensidades, que vai se matizando nas diversas fases do relacionamento.

Quando Neil Gaiman diz “’talvez devêssemos ser só amigos’ se transforma um estilhaço de vidro que vai direto ao coração”. É a expressão pura do apego, o amor com paixão tem a necessidade de posse. Você pode ser uma pessoa equilibrada, inteligente e compreensiva, que entende que a outra pessoa pode não querer estar com você, e respeita a opinião dela, mas essa rejeição dói. Pode ser uma dor que sentimos em um silêncio profundo de forma contida. Mas dói.

Não vejo problema em querer possuir a pessoa que amamos, a questão é quando é patológico. Quando o apego é superior ao amor: desproporcional. Então, ficamos sufocando a pessoa amada, criando chantagem emocional, impondo nossa presença. A nossa paixão se torna uma tortura para quem amamos. Acho muito difícil que nesses casos de extremos passionais tenha amor verdadeiro, geralmente é carência, ou demasiado amor-próprio. Não valorizamos a relação com o outro, colocamos uma importância egoísta apenas no que sentimos.

Acredito que para uma pessoa encontrar outra tem que primeiro aprender a viver sozinha, somente quando estamos familiarizados com nossa solidão, que sabemos lidar com nossas carências, que conseguimos perceber profundamente o outro e assim estabelecer uma troca.

Agora, provavelmente muitos poligâmicos estão me desprezando, pois, defendem o discurso de que podemos amar de verdade muitas pessoas ao mesmo tempo. Sim, concordo, acho que é possível. Mas, nesse texto, estou falando de um amor específico, o que Neil Gaiman evoca: quando ficamos perdidamente apaixonado por uma única pessoa e ninguém mais. E se estamos por alguma razão longe dela, sofremos profundamente. Esse texto é sobre o luxo raro de encontrar alguém para dizer que “eu me amo como eu amo você”.


Jefe Vargas

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