Catarina Vasconcelos

Escritora por paixão. Inconformada por vocação. Feminista por convicção. Teimosa todos os dias. Mau feitio de sobra. Sonhadora nas horas vagas

Brites de Almeida - Padeira de Aljubarrota, Heroína de Portugal

Brites de Almeida, mais conhecida como a Padeira de Aljubarrota. Mulher de armas. Heroína de Portugal. Levantou a voz e a pá contra os castelhanos e salvaguardou a independência da pátria. Sem medo. Sem credo. Apenas a força desmedida que só uma mulher pode ter. Tenho cá para mim que Brites de Almeida, a eterna padeira, foi a primeira feminista de Portugal.


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Brites de Almeida nasceu em Faro, por volta do ano de 1350, no seio de uma família humilde de parcos teres. Não era bonita. Era uma mulher corpulenta, com cabelo crespo, olhos pisqueiros e seis dedos em cada mão. Muitas são as lendas que envolvem a vida de Brites. Da verdade, muito pouco se sabe. Perdeu os pais ainda muito jovem. Aprendeu a manejar a espada e a lutar. Andou de terra em terra, de feira em feira. Trabalhou como almocreve. Foi escrava na Mauritânia. Matou alguns homens. Fez-se passar por homem para escapar à forca. E, por fim, chegou a Aljubarrota, onde finalmente assentou e começou a trabalhar como padeira. Dizem o que o seu pão era o melhor do reino. E que os seus biscoitos de mel faziam as delícias de D. Beatriz de Portugal, a princesa-menina que casara com o rei de Castela, união que pusera o reino de Portugal à mercê dos castelhanos.

Aquando da Batalha de Aljubarrota, Brites de Almeida foi um elemento decisivo na reconquista de Portugal. Diz-se que matou, com a sua pá, sete castelhanos que encontrara ainda escondidos no seu forno. Sem dó nem piedade, viu-se livre dos invasores e livrou Portugal da ambição desmedida de Castela, devolvendo ao reino a independência.

Pouco importa se a cronologia da vida de Brites está certa ou errada. O que realmente importa é que estamos perante uma mulher de armas. A primeira, talvez. Num tempo em que as mulheres não tinham direito algum perante o que quer que fosse, num reino de homens e soberania masculina, Brites de Almeida levantou a voz contra todas regras e normas impostas ao mundo feminino. Fez da sua pouca beleza arma de arremesso e da sua força invulgar escudo de batalha. No entanto, foi o seu coração bom e generoso que sempre a guiou pelos caminhos sinuosos por onde andou.

O que mais me fascina nesta personagem desigual, não é apenas a sua valentia e coragem, mas sim a sua ousadia, o seu não ter medo, o seu não baixar os braços perante as adversidades da vida. O que mais me fascina em Brites de Almeida é a forma como ela conseguiu ser livre. Quebrou protocolos, não seguiu o caminho que lhe havia sido trilhado, fez o seu destino e confiou em si própria. E foi deveras livre, num reino de guerra e fome. E foi essa liberdade, esse andar sem cabresto que a levou a Aljubarrota e à concretização da sua missão, a de salvar o reino.

Deveria haver um resquício dessa Brites de Almeida dentro de cada uma de nós, mulheres. Perante as adversidades, perante as desigualdades de género que teimam em persistir, deveríamos invocar a eterna padeira e a sua valentia. A mulher que não se calava. A mulher que não vergava perante as dificuldades. A mulher que, de cabeça erguida, enfrentou sete homens de uma vez, libertando todo um país. Brites de Almeida deveria ser inspiração. Deveria ser lembrada, todos os dias, de cada vez que nos pisam, de cada vez que nos ferem, de cada vez que tentam impor-nos amarras, de cada vez que tentam castrar-nos os sonhos. Tal como Brites, também nós deveríamos desenhar o nosso próprio destino. Sem medo de julgamentos alheios. Sem medo de quebrar as regras impostas por uma sociedade cinzenta e poeirenta.

Brites de Almeida foi heroína. Ainda o é. E, neste Portugal que vai esmorecendo a cada dia que passa, vivendo à mercê de interesses alheios, fazia-nos falta, tanta falta, uma Brites de Almeida que, com a sua força e coragem, nos devolvesse a liberdade plena.


Catarina Vasconcelos

Escritora por paixão. Inconformada por vocação. Feminista por convicção. Teimosa todos os dias. Mau feitio de sobra. Sonhadora nas horas vagas.
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