Catarina Vasconcelos

Escritora por paixão. Inconformada por vocação. Feminista por convicção. Teimosa todos os dias. Mau feitio de sobra. Sonhadora nas horas vagas

Esta gente que nos castra

Somos condenados à nascença, num julgamento sem juiz ou defesa, apenas a acusação inquisidora de uma sociedade cujo único objectivo é castrar quem se atreve a viver por si próprio.


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Vivemos numa sociedade castradora. Inquisidora. Sufocante. Desde o dia em que nascemos, somos quase que forçados a carregar o mundo às costas, sem o deixar cair, sem descansar um instante que seja. Por vezes, dói carregar esse mundo. É pesado demais. Doloroso demais. Não nos é permitido parar. Não nos é permitido falhar. Não nos é permitido errar.

Esta gente que nos castra os sonhos. Que nos aprisiona a alma. Que nos faz acreditar, com as suas palavras feitas e doces, que é melhor assim, que tudo ficará melhor assim, se nos mantivermos nessa inércia, nesta forma pestilenta de olhar o mundo. Como se nos colocassem uma corda em torno da garganta para nos impedir de gritar. Como se nos plantassem no coração ervas daninhas que nos prendem a vontade de ser e fazer diferente. Como se nos fechassem em redomas de vidro para que não possamos nunca ir mais além.

Esta gente que nos faz definhar, a pouco e pouco, à medida que os dias e os anos se arrastam ao tom dos velhos relógios. E nós habituamo-nos. Acomodamo-nos à paz prometida, ao sossego das horas, à pasmaceira da vida. E vamos adoecendo, sem sabermos. E vamos regredindo, sem dar conta. E vamos ficando da cor dos dias, cinzentos, sem brilho, sem sol. E acreditamos que é mesmo assim, que tem de ser assim, que não há potes de ouro no final do arco-íris porque, na verdade, nem sequer há arco-íris. E perdemos a capacidade de sorrir, de brincar, de acreditar em coisas boas e felizes. Até ao dia em que nada mais importa, apenas a nossa rotina definida de acordo com a vontade dos outros. E achamos que assim é que é, que vivemos uma vida plena e exemplar, que não demos dor de cabeça a quem quer que fosse, que fomos fiéis aos ensinamentos e correspondemos ao que esperavam de nós. O certo é que, quando esse dia chegar, já estaremos mortos há muito tempo. Assassinados por uma sociedade que nos foi envenenando e afogando em falsas crenças.

É tempo de dizer basta. Levantar a voz. Rasgar as roupas. Levantar os braços. Desprender o coração. Sonhar. Ser aquilo que somos e não aquilo que os outros (sempre os outros) querem que sejamos. Sermos fiéis ao nosso coração e à nossa alma. Desenhar o nosso próprio caminho. Errar. Errar muito. Fracassar. Chorar como se não houvesse amanhã. Rir até doer a barriga. Ser criança todos os dias. Andar de pé descalço e cabelo em desalinho. Cantar em voz alta. Dançar na chuva. Agradecer. Viver. E desobedecer a essa gente que pensa ter nas mãos o poder que nos define. Não têm. As rédeas da nossa vida devem ser tomadas por cada um de nós. Se é mais difícil assim? Muito mais. Mas vale a pena o esforço. Vale a pena sermos nós mesmos. Vale a pena viver.


Catarina Vasconcelos

Escritora por paixão. Inconformada por vocação. Feminista por convicção. Teimosa todos os dias. Mau feitio de sobra. Sonhadora nas horas vagas.
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