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Realidade que se sente

Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto

Marina não vai à praia

Um retrato doce e singelo sobre a Síndrome de Down: o curta nacional que pode concorrer ao Oscar traz Marina, uma adolescente portadora da alteração genética, cujo maior sonho é ir à praia. E ela fará tudo para realizá-lo.


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** Este texto contém spoilers ** (Caso prefira assistir ao curta antes de lê-lo, o vídeo se encontra ao final do texto)

Marina tem Síndrome de Down. Mas não se engane, ela é uma garota como qualquer outra. Com seus prováveis 15 ou 16 anos, ela pinta as unhas, observa com curiosidade a irmã beijando o namorado, tem vontades e sonhos. E o sonho de conhecer o mar é fala mais alto em seu coração.

Marina não deseja tratamento especial, viagens ao exterior ou presentes caros. A adolescente brinca com um inseto no jardim, cultiva suas rosas e tenta contar sozinha quanto tempo consegue ficar embaixo da água sem respirar. Mas motivada pelas fotos da juventude da mãe, e pela viagem de formatura da irmã ao litoral, ela quer ir à praia.

A mãe nem ao menos a deixa sozinha em casa: a irmã mais velha, Joana, fica com ela enquanto a mãe sai. E Joana, por sua vez, parece tratar Marina com certo desdém. Mas não ousaria dizer que é porque não gosta dela. Na qualidade de irmã mais nova e por sua condição, Marina diversas vezes pode receber mais atenção, e ainda assim, sob certos aspectos parece querer viver a vida de Joana, seja juntando-se às brincadeiras dela e do namorado na piscina, a ajudando a escolher biquínis junto as amigas na tentativa de pertencer, ou passando perfume e penteando os cabelos para tentar se aproximar do cunhado.

O curta poderia ser apenas mais um que fala sobre alguém com deficiência. Mas a essência dele mora no retrato de Marina como uma adolescente normal, que enfrenta os desafios da idade somados aos empecilhos que lhe são colocados por conta do cromossomo a mais.

A mãe de Marina, mostra fotos do que parece ser um rito de passagem: conhecer a praia na juventude, acompanhada dos amigos. E agora é vez da filha mais velha, que viajará com a turma da escola. Marina por outro lado, parece ter tido o sonho adiado pelas desculpas usuais que pais sempre dão às crianças pequenas (não tenho dinheiro, ano que vem nós vamos, o ônibus está cheio).

Mas Marina é insistente e decidida. Diferente de muitos que se conformariam com a primeira negativa, ela está disposta a realizar seu sonho. Mesmo que isso signifique vender as rosas que cultivava com tanto carinho e dedicação em seu jardim.

As rosas, de uma importância enorme para a garota, que não as daria nem para uma senhora doente conhecida da família mineira, são colocadas numa caixa de papelão, e batendo de porta em porta, são oferecidas aos vizinhos. Mas os galhos sem rosas que restaram no quintal lhe rendem apenas 15 reais. Nada que pudesse levá-la à praia. Somente sua vontade e ousadia poderiam.

E sendo assim, na madrugada em que a mãe sai com a irmã com rumo ao ônibus de viagem, Marina arruma suas coisas e sai escondida.

No bagageiro do ônibus, ela viaja. Mesmo com o cunhado pedindo que ela saia, ela fica. E as próximas cenas são uma incógnita. As malas são descarregadas, e na cena seguinte, o celular da mãe das garotas toca. Nada que tente descrever a ansiedade e o medo do expectador em relação a Marina nesse momento conseguiria traduzir o real sentimento.

E o mesmo ocorre com o alívio que sentimos ao ver a menina bem e feliz: ela se diverte com a turma ao tomar café, e se arruma com as amigas para ir à praia. Pela primeira vez no curta, trilha sonora. Enquanto Joana fica deitada no quarto frustrada, Marina realizará seu sonho. Para nós, conhecer a praia pode ser algo normal, que fazemos antes de ter idade para formar uma lembrança. Mas algo tão normal, como sentir a maresia ou ter os pés na areia, mas para Marina é um sopro de liberdade.

Embalados pela música, a turma corre para o mar, e se joga nele. Marina por sua vez, caminha calmamente, molha os pés e logo volta. Quando questionada porque não entra no mar, responde apenas que não entraria naquele momento, e que é “muita água”. Ela senta na areia e observa os amigos. Para ela, aquilo basta. E então, a menina sorri. Enquanto observa o mar, seu olhar e sorriso sinceros, a felicidade autentica, a sensação de realização; é o momento mais doce do curta.

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Durante a produção, sutis elementos remetem ao mar, parecendo impulsionar o sonho da menina. A piscininha de mil litros no quintal de casa, o jogo de surf no celular do cunhado ou a luminária de água viva no quarto. O nome “Marina” por si só já é uma metáfora, pelo seu significado.

Esses detalhes, juntamente com a escolha de planos, como por exemplo o foco nos pés dos atores quando Marina se aproxima do cunhado, o ventilador, as rosas e os galhos depois que elas foram cortadas, e a própria cor das rosas, em tons quentes em contraposição ao resto do filme, trabalhado em tons frios, tornam a produção delicada, atenta aos detalhes.

Enquanto a maioria dos olhares se voltam ao longa Que Horas Ela Volta como aposta para o Oscar 2016, o curta nacional, com pouco mais de dezesseis minutos e dirigido por Cássio Pereira dos Santos, pode concorrer ao prêmio.

E como vemos no final, o filme é dedicado a atriz protagonista, que se tornou uma estrela. Aline Cristina Videira faleceu em 2014, em um acidente de carro. O filme assume um tom agridoce, diferente do que talvez tenha sido a intenção inicial do curta. Nos remete a efemeridade da vida, ao mesmo tempo em que se mostra uma lição sobre a Síndrome de Down e sobre a autoafirmação de quem somos nós no meio em que vivemos.

Marina não vai à praia (filme completo, 17 minutos) from Cássio Pereira dos Santos on Vimeo.


Isabella Marques

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