simplesmente

Realidade que se sente

Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto

A poesia se reinventa

As redes sociais ocupam um grande espaço nas nossas vidas atualmente. E por que não a arte fazer parte disso também?


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Baiana de 24 anos, Géssica Sena é formada em produção áudio visual, e trabalha como fotógrafa. Mas na internet Géssica assume seu alter ego Lôla. É dona da conta “Fale Lôla, fale” no Instagram, e da página no Facebook de mesmo nome, que é inspirado no filme alemão “Corra Lola, corra”. As mídias sociais são os meios que ela escolheu para compartilhar com o mundo o que produz.

Géssica (ou seria Lôla?) escreve versos. “Nasci mar revolto, cresci âncora de sentimento” é o seu favorito. E é apenas uma das várias delicadas e poderosas frases já postadas em suas redes sociais.

Suas inspirações vêm da vida. Do mundo. Das pessoas e suas realidades. Cita o amor como combustível para a vida, capaz de mudar o mundo inteiro: “Não falo de amor romântico apenas, mas amor no sentido de nos importarmos uns com outros, de querer bem e ter compaixão pelas pessoas ao nosso redor; o amor conecta as pessoas no nível da alma, independentemente de toda a superficialidade”.

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Géssica não estuda para criar, é algo que deixa fluir naturalmente; e já que escreve para mídias sociais, procura fazer uma “escrita espontânea”: tudo o que posta em geral foi escrito 5 minutos antes.

Já para Daniel Duarte, carioca de 21 anos, criador da página Siga os Balões, apesar da escrita também sair naturalmente, para ele, depois que escreve, é preciso analisar o que foi deixado ali: "Ainda tenho inúmeras anotações e reflexões que não divulguei. Sempre quando posto algo, precisa fazer sentido pra mim, ao menos naquele momento, se acaso não, eu guardo”.

"Se tudo é realmente um ciclo, e sempre se repete, é inevitável afirmar que ficaremos bem amanhã de manhã. Como já aconteceu tantas outras vezes”, por exemplo, foi o primeiro texto escrito para a sua página, mas só foi postado no início desse ano.

“Seguir é a palavra das redes sociais e os balões foram uma alusão a eu estar sempre flutuando por causa dos meus pensamentos. Balões flutuam, balões podem ir para qualquer lugar. Eu sempre estou pensando em algo diferente, ou com um novo olhar, essa é a teoria por trás de tudo.” Nasceu então Siga os Balões, que está no Facebook, Instagram e Tumblr.

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Ele se inspira na vida, em momentos; sempre observa as pessoas e o que acontece em sua volta. Conta que as dúvidas e afirmações que não findam em sua cabeça acabam indo para o papel, e quando se dá conta, ali estão seus sentimentos.

Todas as suas postagens têm ilustrações que remetem ao público infantil, feitas por ele mesmo: “Tudo que remete ao público infantil é muito puro, é muito simples. Por isso carreguei meu amor pelas ilustrações infantis pra dentro do Siga”. Mas, por mais que os desenhos sejam alegres, o que está escrito é voltado para o público adulto. Os versos são profundos, mas há o cuidado para que não sejam tristes.

Ambos os autores começaram a publicar o que escreviam em 2014. Géssica passava pela tensão de um concurso público, e sentia que precisava liberar a energia criativa que estava sendo sufocada; viu o Instagram como uma boa plataforma para se expressar. Daniel enfrentava problemas pessoais, e na escrita encontrou uma maneira de se acalmar e encher de esperanças.

Mas nenhum dos dois imaginava o sucesso que viria a seguir. Géssica nunca imaginou a quantidade seguidores que sua conta atingiria. Começou a escrever na internet sem um propósito além de se expressar. O que faz é um hobby, porque é o que se sente bem fazendo, mas “a partir do momento em que me dei conta de as pessoas estavam prestando atenção no que eu escrevia, passei a encarar a página com mais responsabilidade”, contou.

Na conta de Lôla, alguns versos podem ser considerados engajados de certa maneira, por exemplo, "Neste teatro de artificialidades, os refletores estão voltados para as aparências, e a plateia aplaude de pé o escuro do seu próprio vazio”. Diz a autora: “Não faria sentido pra mim ter uma plataforma em que eu posso falar para 19 mil pessoas diariamente e não usá-la com senso crítico”.

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Já o escritor de Siga os Balões divide o que faz entre hobby e profissão: faz o que ama, mas agora tem e-mails comerciais a serem respondidos também. Inclusive recebeu um convite para lançar um livro, que espera chegar às prateleiras ainda esse ano.

“Eu realmente não imaginava nem metade do que aconteceu até agora. Eu tive muitas oportunidades e pude mostrar meu trabalho tanto escrevendo, quanto como ilustrador pra bastante gente. Eu agradeço todos os dias por essas oportunidades e fico ainda mais agradecido quando recebo e-mails de leitores que vem desabafar e falar sobre a vida”, diz Daniel.

E tudo isso graças às redes sociais. São inúmeras as páginas no Facebook e as contas no Instagram que se dedicam a compartilhar versos, poemas, citações, e toda a forma de arte. A arte se reinventa, sai das salas de aulas e livros antigos e pesados para a era digital de maneira mais próxima do público e mais atual: a uma notificação de distância. Nas telas dos smartphones, tablets e computadores, e mais do que uma pesquisa no Google. A arte da volta a fazer parte do nosso cotidiano, pois as redes sociais o fazem.

E não somente a arte vinda de grandes nomes, internacionalmente aclamados. O que o seu vizinho escreve. O que seu amigo publica. O que sua irmã um dia escreveu ou desenhou num cantinho de caderno, aquele versinho simples, que só ela teria lido se não fosse essa reinvenção. Milhares de pessoas que tem algo a dizer podem mostrar aquilo que fazem, e outras milhares que podem dar força a essas vozes.

Dois jovens, que nunca poderiam ter imaginado o quantas pessoas poderiam alcançar por meio de suas poesias, são a prova dessa realidade.“O papel da arte, em suas mais variadas formas, não é apenas entreter, mas também desconstruir e criar novas formas de estar no mundo. Sou grata por todos que prestam atenção às minhas palavras. É um privilégio poder tocar a vida das pessoas desta forma", diz Géssica. E conclui Daniel: “não dá para chutar a poesia pra um canto. Ela surge de novas formas, de outras maneiras. O conteúdo poético será eternamente dono da sua casa própria”.

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Mais sobre os autores:

Siga os Balões: https://www.facebook.com/sigaosbaloes/

Fale Lôla, fale: https://www.facebook.com/falelolafale/


Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto .
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