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Realidade que se sente

Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto

A romantização do suicídio

O suicídio nas nossas vidas cotidianas é tabu, repleto de julgamentos e preconceitos. Mas outro tipo de problema existe: quando representado na indústria do entretenimento


romeu e julieta.jpg A tela Romeu e Julieta, de Francis Sydney Muschamp

O autocídio é um problema quando não é discutido, porém também pode ser quando é, mas da maneira errada. O termo “romantizar” é definido como “dar à expressão ou descrição de qualquer fato a forma e feição romântica; fantasiar, poetizar: romantizar aventuras, heroísmos”.

Na representação na indústria do entretenimento, a morte pode ganhar uma camada de irrealidade ao ser retratada como uma espécie de honroso ato final.

No clássico Romeu e Julieta, que transcende gerações como a mais famosa história de amor, os amantes se suicidam para poderem se encontrar na outra vida. Em Lua Nova, da Saga Crepúsculo, Bella testa os extremos, colocando-se em perigo propositalmente, pois era assim que conseguia sentir Edward por perto. No recente sucesso Como eu era antes de você Will opta pelo suicídio, pois viver em uma cadeira de rodas, mesmo tendo se apaixonado por Louisa, não é o bastante.

Lana Del Rey glamouriza a morte o tempo todo nas suas músicas. Até mesmo Ed Sheeran, com a música The Parting Glass que, na minha opinião, parece muito um último adeus.

E são inúmeros outros exemplos, seja no cinema, nas músicas ou nos livros. O fato de romantizarem o suicídio não tira o valor dessas obras, mas é importante que esse tipo de questão seja debatida.

Obviamente que uma pessoa em perfeito estado emocional, ou ainda uma já sensível não se suicidará porque ouviu a música da Lana Del Rey. O suicídio é o resultado trágico de uma dor intensa resultado dos mais diversos fatores.

Mas a romantização da morte, do autoflagelo e de doenças psiquiátricas tem como consequência a banalização, que obstrui uma conscientização sobre a realidade acerca do assunto.

Consigo vislumbrar duas nuances da banalização: uma na qual qualquer pessoa triste já sai dizendo por aí que está deprimido; outra em que não se dá devida importância ao sofrimento, tratando-o com descaso.

Sobre o primeiro aspecto: se identificar com determinado personagem ou celebridade não torna ninguém deprimido (estar triste de vez em quando é completamente natural), e tampouco vale como diagnóstico. É inclusive desrespeitoso com quem realmente está com depressão e pensa em tirar a vida.

Da mesma maneira, admirar a essas obras não faz com que você tenha propriedade para diagnosticar, nem de aconselhar pessoas potencialmente doentes e que estão pensando um ato tão extremo.

Um outro aspecto da banalização consiste em julgá-la como “doença de rico”, preguiça ou frescura. É essencial reconhecer quando a coisa não vai bem, e ter consciência de quando é hora de procurar um médico.

O retrato do suicídio como algo poético, belo e as vezes até atraente não corresponde à realidade. É pungente, e um ato de desespero, que não pode ser tratado com simples conselhos. É um assunto sério que carece a atenção de um profissional.

Setembro Amarelo

O Brasil ocupa o oitavo lugar no ranking de países com o maior índice de suicídios. Pelos números oficiais, são 32 brasileiros mortos por dia, taxa superior às vítimas da AIDS e da maioria dos tipos de câncer, e segundo a Organização Mundial da Saúde, 9 em cada 10 casos poderiam ser prevenidos.

Assim, o Setembro Amarelo, com o lema “falar é a melhor solução”, é mais que necessária. Segundo informações do site, a campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio tem objetivo direto de alertar a população.

Esse texto foi escrito em favor ação. É importante discutir, analisar, e buscar uma melhor compreensão sempre, ainda mais se tratando de um assunto tão delicado e austero.

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Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto .
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