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Realidade que se sente

Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto

Câncer, cabelo e autoestima

Um momento tão doloroso é amenizado pela autoestima que as perucas podem proporcionar


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O câncer pode ser considerado o mau do século XXI. O tratamento quimioterápico, realizado no combate ao câncer, tem diversas consequências, entre elas, a perda de todos os pelos do corpo: cílios, sobrancelhas e cabelos. O cabelo é essencial para autoestima, pois compõe o estilo, revelam a identidade, e está fortemente associado à feminilidade. Perde-los, somado ao momento delicado pelo qual os pacientes passam com a doença, torna o quadro mais doloroso, principalmente entre as mulheres.

“Perder o cabelo foi a parte mais difícil. Não foi passar mal com cada sessão de quimio, não foram as infinitas agulhadas; ver meu cabelo caindo aos montes foi extremamente triste”, disse Amanda, 19, estudante de letras e revisora. Amanda Noschese descobriu um carcinoma metaplásico na mama em Agosto de 2014, realizou a quimioterapia entre dezembro do mesmo ano e agosto de 2015, e está próxima de completar seu primeiro ano cancer free. Após ter decidido raspar seu cabelo, usou uma peruca feita com suas próprias madeixas: “admiro muito quem abre mão da peruca e usa apenas lenços, ou muitas vezes não usa nada, mas eu não tive essa coragem; a peruca foi fundamental para manter minha autoestima em um nível aceitável”.

As pacientes costumam a recorrer ao uso de lenços e chapéus, por exemplo. Mas é irrefutável que nada é comparável aos próprios cabelos. O uso de peruca se torna o mais próximo de ter seu cabelo de volta, do que parece “normal”, que levanta menos perguntas e atrai menos olhares, e assim, contribui mais efetivamente para a aceitação do tratamento e bem estar dessas meninas e mulheres.

Uma peruca, porém, é cara para ser confeccionada e mantida: “com gastos com tratamentos, cirurgias, tantas consultas médicas e exames, não são todos que conseguem arcar com um custo desses, que perto dessas outras coisas é considerado um ‘supérfluo’”, disse Amanda. A costura da peruca é onerosa (alguns estúdios têm perucas de R$3000), principalmente se você precisa comprar mechas (100g de cabelo natural pode chegar a mais de R$100). Visando essa dificuldade financeira, atualmente, existem projetos que se responsabilizam pela confecção e doação de peruquinhas.

O Cabelegria, por exemplo, surgiu das páginas do Facebook e foi criado em outubro de 2013 por duas amigas: Mariana Robrahn, 24 anos, designer e Mylene Duarte, 23 anos, publicitária. O projeto arrecadava doação de cabelos, hoje está com o estoque lotado. Mas mantém a arrecadação de dinheiro para confecção do acessório que custa, em média, cem reais, sendo produzidas com, no mínimo, 200 gramas de cabelo. Com dois anos e sete meses de projeto a ONG ainda não possui sede própria e conta com trabalho voluntário e de colaboradores, mais ou menos oito pessoas que trabalham em conjunto, direta e indiretamente. Além disso, o projeto conta com o auxílio de alguns salões para confecção das peruquinhas.

Outro projeto, o Rapunzel Solidária, surgiu em 2014, quando Elizabeth Lomaski, a criadora, venceu o câncer de mama e resolveu deixar o cabelo crescer para doar ao Graac. Quando uma amiga, Ana Cecília Simões, psicóloga, também cortou o cabelo e entregou a Beth para a doação. A ideia surgiu e ela percebeu que poderia ajudar outras pessoas. Assim, ela criou a página no Facebook em 13 de janeiro e só no primeiro mês, foram 20 doações, inclusive de crianças. O especialista em perucas naturais Luiz Crispim e sua equipe produzem, voluntariamente, até 12 perucas por mês, que são entregues a pessoas inscritas no projeto. Já são mais de 150 salões amigos por todo o país e a arrecadação de cabelos continua. É só enviar as madeixas pelo correio.

Para as pessoas que enfrentam o câncer, a doação do nosso cabelo representa um pedacinho de esperança, e daí a importância desses projetos solidários que o arrecada e confeccionam as perucas. A doação colabora indiretamente na aceitação e superação do câncer, e beneficia também o doador que, com um pequeno gesto, é capaz de transformar, ao menos um pouco, o momento difícil vivido pelos pacientos.

(Texto escrito em coautoria de Jullia Guedes)


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