simplesmente

Realidade que se sente

Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto

Dos negativos à memória paulistana

A fotografia é, por essência e por direito, paulista. Mas algumas delas compõem a identidade de São Paulo


consolation.jpg Rua da Consolação, em 1920. Foto pertencente ao Arquivo Histórico Municipal Washington Luís

Na modernidade líquida, como escreve Bauman, nada é feito para durar. Vivemos em um tempo que vídeos com mais de três minutos são cansativos, e a foto que você posta do seu almoço receberá determinada quantidade de curtidas, habitará o presente por alguns poucos segundos, e logo em seguida passará a fazer parte de um passado que cairá no esquecimento.

É assim na internet, televisão, e por vezes, nas relações pessoais. A interação com a imagem é, como descreve Ciro Marcondes Filho, extensiva: consome-se as imagens em quantidade exaustiva e tempo escasso, não sendo possível parar, analisa-las e digeri-las por completo. Já a relação intensiva com a imagem faz morada na fotografia. Com a imagem “congelada”, é possível explorar minunciosamente sua densidade, ater-se aos detalhes.

Henry Talbot, na Inglaterra, e Louis Daguerre, na França, são oficialmente os inventores da fotografia (de maneiras diferentes, mas com feitos realizados em períodos muito próximos – no ano de 1835-, dividem o crédito pela invenção). Boris Kossoy em 2006, porém, revelou que o pai da fotografia na verdade poderia ser outro, e pai solteiro: em 1833, na região de Campinas, o francês Antoine Hercule Florence, que aqui viveu por muitos anos, já desenvolvia com sucesso uma técnica para fotografar.

Muitos, muitos anos depois, a fotografia hoje está ao alcance de qualquer pessoa que tenha em mãos um celular com câmera. É possível tirar fotos de todos os efeitos e ângulos, sem grandes conhecimentos, técnicas ou aparelhagem. Foto a noite? Um flash integrado ao aparelho (que também é telefone, computador, vídeo game...) deve resolver. Não gostou? Um botão é suficiente para apaga-la. Quer revelar? Uma impressora faz todo trabalho em minutos. Situações essas tão diferentes do que já foram um dia. Houve um tempo que a fotografia foi privilégio.

Mas muito antes das máquinas fotográficas, mesmo as analógicas, serem acessíveis à população, já havia São Paulo, já havia o que se recordar.

Existem fotografias da cidade que sobreviveram ao tempo e aos avanços tecnológicos. São registros com valor documental e peças centrais na redescoberta da cidade século passado, que poderiam estar nos fundos de gavetas (e certamente algumas ainda estão), mas que atualmente constituem a memória coletiva social, cultural, arquitetônica e histórica paulista, paulistana e brasileira.

Para o historiador e teórico da arte Giulio Argan, a cidade é a expressão máxima de cultura humana; por seus prédios, monumentos, universidades e comércios, mobiliza-se ideias, acumula-se tempo e história. Segundo ele e Aldo Rossi, arquiteto e teórico da arquitetura, arte não é somente o que está pendurado nas paredes dos museus, é tudo o que nos cerca na cidade: “fatos urbanos” são também “fatos artísticos”, e por isso devem ser valorizados.

São Paulo, essa metrópole marcada pela diversidade de sentidos e possibilidades, alterações físicas e sociais ao longo dos anos, guarda traços dos mais variados na população e na arquitetura, e carrega 462 anos de história nos detalhes.

É conhecendo o passado que se constrói o presente, e assim, o futuro. Isso sem contar na experiência de poder ver como eram as ruas, avenidas e construções que hoje você conhece, no mínimo incrível. A Rua da Consolação com algumas casas e o chão de terra batida; carroças na Teodoro Sampaio; o parque do Ibirapuera com absolutamente nada. Se tirarmos uma foto de uma semana para a outra, já existirão diferenças na paisagem; imagine quase cem anos? Dizem hoje que não basta existir, é preciso estar nas redes sociais. Mas a verdade é que isso não é de hoje: não basta existir; se não houver registro, mais cedo ou mais tarde, não vai haver quem se lembre. E por isso são tão importantes os projetos de resgate e conservação de fotografias que, mesmo mudas, contam as nossas próprias histórias, ao mostrar a nossa cidade.


Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto .
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