simplesmente

Realidade que se sente

Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto

Memórias de um Esclerosado

Rafael Corrêa é contador de histórias desde criança, e por esse motivo, desenha. Ao ser diagnosticado com esclerose múltipla, em 2010, percebeu que tinha uma grande história a ser contada


obvious memorias.jpg

Segundo dados do site da ABEM (Associação Brasileira de Esclerose Múltipla), a Esclerose é “uma doença neurológica, crônica e autoimune – ou seja, as células de defesa do organismo atacam o próprio sistema nervoso central, provocando lesões cerebrais e medulares”. No portal é destacado: não é uma doença mental, nem contagiosa. Porém, não é suscetível de prevenção, e tão pouco possui cura; o seu tratamento consiste em atenuar e desacelerar a progressão da doença.

Rafael Corrêa, gaúcho de 40 anos, contador de histórias, quadrinista e cartunista ganhador de inúmeros prêmios ao redor do mundo, foi diagnosticado com a doença em 2010: “Foi chocante, não sei descrever em palavras”. As páginas 9 e 10 de sua série de quadrinhos (compartilhados em seu Tumblr e página no Facebook) se dedicam a tentar explicar como foi ouvir do médico o motivo pelo qual sua perna esquerda pesava tanto ao final do trajeto para o trabalho.

degenerativa e sem cura.jpg Página 9 de "Memórias", por Rafael Corrêa

“Memórias de um Esclerosado” é o nome escolhido para a HQ autobiográfica de Rafael, que se dedica a relatar o seu dia a dia em convivência com a doença. O autor já falou em outras entrevistas que, para ele, é uma “jornada de autoconhecimento”. Lá, fala sobre seus sonhos, sua infância, o processo de aceitação e suas dúvidas a respeito da enfermidade, tudo com sutileza e simplicidade, apesar de uma melancolia sempre presente, ainda que mesclada com bom humor.

Seus traços inspirados em Guy Delisle, quadrinista canadense, carregam o peso da dificuldade causada pela esclerose: “A doença atingiu mais o lado esquerdo, o que é uma lástima, já que sou canhoto. Em decorrência disso tenho dificuldade para caminhar, necessito de auxílio de uma bengala, e também não consigo desenhar com a mesma facilidade que antes”, conta Rafael. Este assunto já foi inclusive tema da página 21, a primeira realizada toda realizada com sua mão direita, em metalinguagem (hoje o autor já tem outra série “Tessaura e Girafo” também feitos com a mão direita).

página 21 recorte.jpg Recorte da página 21

A esclerose tornou-se um obstáculo, um desafio a ser superado; o quadrinho é também sua profissão, mas antes disso é a arte escolhida para que ele se expresse. Unindo estes dois aspectos de sua vida, o artista observa o que acontece à sua volta, anota a ideia em um de seus milhares de cadernos, e trabalha nela, às vezes até anos depois, quando relê o escreveu. Ele não pensa em moral ou em alguma mensagem que deseja passar: “o que quero, e necessito, é contar essa história, colocar para fora o que sinto, o que está acontecendo”.

Talvez aí esteja o poder daquilo que faz: despretensioso e delicado, “Memórias” é um relato repleto de significado e sincero, que desmitifica a doença (ou ainda, de certa forma, a “mistifique” de outra maneira, porém despertando novos questionamentos, muito mais humanos) ao ser enxergada e lapidada por alguém que sabe o que é acordar com ela todos os dias.

Ao ser perguntado sobre seu maior sonho, Rafael reponde: “Não poderia ser diferente; é vencer a esclerose”.

esclerose obvious.jpg

Ao se apaixonar por “Memórias”, não deixe de conferir outros trabalhos de Rafael em seu blog, tão geniais quanto.


Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto .
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp //Isabella Marques