simplesmente

Realidade que se sente

Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto

Noite de inverno em Paris

O charme sinestésico de Paris, numa noite da mais gelada estação. A cidade luz, a cidade do amor, a cidade dos sonhadores.


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No metrô, mulheres altas e magras, ícones de estilo, enroladas em seus sofisticados casacos e echarpes, misturadas a homens elegantes que leem seus jornais com pernas cruzadas, exibindo suas meias coloridas.

O calor do ambiente fechado se transforma então em frio ao subir as escadinhas da saída do transporte subterrâneo. O chuvisco gelado bate no rosto, fazendo com que óculos embacem.

Os diferentes restaurantes e bistrôs perfilados nas ruas francesas, tem um garçom que empilha as cadeiras com um olhar distante. Mas, se você reparar com atenção, resta sempre algum casal ou grupo de amigos, que parece mal se dar conta que o dia chegou ao fim, desavisados que o tempo parece passar mais rápido na França. Os copos se enchem, e os brindes poderiam durar a noite inteira.

A ponte dos cadeados, a Pont des Arts, não mais os possui. As quarenta e cinco toneladas dos selos de amor eterno foram substituídos. No entanto, as chaves descansam no fundo do rio, silenciosas, saudosas. Paris se perpetua a cidade do amor.

Mas tal sentimento ainda pode ser contemplado se a atenção se volta a Pont Marie: sob ela, quando passam os barcos, casais se beijam e fazem pedidos, conforme diz a lenda, na esperança de que se realizem e da eternidade do amor. Seria possível ficar ali, horas a fio, apenas observando os amantes. Quantas daquelas juras de amor, cujo palco foi a cidade francesa, teriam se firmado?

Seguindo a caminhada ao longo do Sena, as árvores secas fazem sombras graciosas no chão devido à luz do luar, e o asfalto brilha por obra da garoa. À frente, já é possível vislumbrar o farol do monumento mais famoso do mundo, um feixe de luz que corta e ilumina o céu.

Passar pela Torre Eiffel significa se encantar com os turistas apaixonados à primeira vista, que tiram suas fotos, sorriem e ostentam seus narizes vermelhos por conta do frio e os olhos cheios de lágrimas talvez pelo vento congelante que sopra, mas’ provavelmente pela emoção.

Em sua base, o cheiro dos crepes recém preparados nas barraquinhas invade o ar; os vendedores ambulantes com suas réplicas de pequenas torres, anunciam seus produtos com diferentes sotaques; no carrossel ali próximo, crianças e apaixonados galopam em círculos, com uma música e luzes coloridas que parecem abstraí-los da cinzenta estação.

Nas fotos, parecia pequenina. Mas agora, a seus pés, é possível perceber o quanto nós é que somos. A grandeza e singularidade do arranjo metálico preenchem os olhos.

Conforme o elevador sobe, cresce também a expectativa, enquanto a cidade fica cada vez menor. No topo, o frio é congelante; os turistas olham nos relógios, empolgados, pois de hora em hora, milhões de pequenas luzes piscam por poucos minutos de puro êxtase.

O relógio bate a hora cheia, e o espetáculo começa quando uma única luz surge em meio às ferragens, e parece provocar as outras, que não demoram começar a brilhar, tanto fisicamente, na torre, quanto nos olhos de quem enlevado assiste. Nada se compara a torre brilhando a noite, principalmente estando no alto dela.

Paris brilha a seus pés, e no horizonte iluminado, os visitantes costumam brincar de encontrar o Arco do Triunfo, o Museu do Louvre, a Avenida Champs Elysee, a rua de seus hotéis. Pela mente eventualmente passam cenas de milhares de filmes que foram gravados na cidade luz, mas agora é você quem está ali, e percebe que nenhum filme parece ter capturado com precisão a real sensação.

O que um dia foi apenas visto pela tela de cinema ou foto num site de buscas, agora é realidade. E é exatamente como o que se sonhou por tanto tempo.

Talvez, se o mundo ficasse bem quietinho por alguns minutos, seria possível ouvir La Vie En Rose tocando ao fundo.


Isabella Marques

A leveza em escrever pelo simples ato de debruçar-me sobre um teclado com o coração aberto .
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