sintonia

A frequência quem define é você.

Luiz Alberto Portes

Um espírito aprendiz que aprecia o infinito, mas se perde em uma tigela de brigadeiro.

Previsões climáticas para quem?

Uma probabilidade de chuva para esta tarde poderá frustrar a expectativa daquele evento que tem tudo pra ser muito bom. Ou quem sabe por conta de um calor absurdo nos últimos dias, há indícios demonstrando que o condicionamento físico está precisando de cuidados extras. Nada como ficar bem informado de como estará o tempo na cidade destino para verificar como deverá ser a preparação das malas. Além de todas estas efemeridades, qual o sentido do espaço dado para a enxurrada de previsões climáticas?


Previsões-climáticas-para-quem1.jpg

Ao visualizar o Smartphone pela primeira vez no dia uma aba, muito bem feita, aparece e num toque mágico abre-se na tela o perfil do dia e também da semana. Geralmente com inúmeras variações detalhadas, que mais se parecem com um gráfico da bolsa de valores ou ainda com as métricas do Facebook. Nestes espaços de ode ao clima, nota-se o ênfase nos detalhes que podem ser bem úteis sim, aos aviadores ou quem sabe para o anão de jardim que tem a companhia de um cata-vento girando à sudeste. Há inclusive a velocidade destes ventos, para que não haja o perigo daquele guarda-chuva - comprado por dez reais num daqueles dias em que um pé d´água resolveu cair bem no fim do expediente por pura birra de São Pedro - vir a ser virado ao contrário na primeira rajada de vento. Pois queríamos o quê? São só dez reais. Pode ser que nem mesmo os praticantes de Kitesurf em uma praia no Delta do Parnaíba estejam muito preocupados em saber da velocidade dos ventos naquele dia. Afinal é só sentir a vibração.

Nas pesadas atmosferas urbanas, uma das maneiras como elas atacam é pelas ondas do rádio. Em determinada hora, milhares de almas sedentas por saber se o planeta resistirá por mais um dia, sintonizam em seus carros equipados com ar-condicionado a movimentar-se lentamente em um trânsito caótico. Nos ônibus geralmente lotados e com a maioria das janelas fechadas, aquela voz do locutor chamando pelo especialista do Instituto do Clima, trazendo as mais relevantes informações sobre a umidade relativa do ar, sinalizando que não deverá ser esquecido o ato de tomar certa quantidade d´água de tempos em tempos, muito menos o de abrir mão da bombinha, para a asma não importunar nos momentos mais imprevisíveis. Ops.

Jornais televisivos trazem belas mulheres a apontar que uma enxurrada causada pela chuva, provocou grandes estragos destruindo a ponte que servia de ligação entre duas comunidades no interior do Estado de Alagoas, para depois suavizar com a informação precisa da elevação no nível da água no sistema Cantareira, em zero vírgula um por cento de ontem pra hoje. Ainda trazem as temperaturas máximas e mínimas em cinco capitais do país, das quais São Paulo e Rio de Janeiro têm seus lugares cativos.

A ligação de Londres chega e torna-se imperioso saber quantos graus registram os termômetros por lá. A razão disso pode ser uma necessidade esfumaçada de ter algo a mais do que o próprio umbigo para cuidar. Se isto for sinal de humanidade, pode ser o início de algo muito bom. Mas para isso é preciso muito mais do que apenas informação sobre o tempo e sobre o clima. É preciso acionar o mais poderoso termômetro existente. Podemos chamá-lo de coração e sua temperatura é medida através de ações hoje e não somente previsões.

Quanta tecnologia está sendo desenvolvida para a cada dia ser possível definir mais precisamente variações climáticas. Isto é importante sim, em diversos campos é salutar obter com o máximo de precisão estas alterações. Mas é preciso para todos os habitantes do planeta? Em qual escala? O que realmente vai mudar em nossas vidas saber se hoje está dez graus abaixo do que esteve três dias atrás? A enxurrada de informação que nos é oferecida nos tempos de hoje sobre clima pode também ser estupidamente uma forma de manter todos numa majestosa zona de conforto. Se estiver tempo aberto ou o chamado sol, a reclamação existirá caso seja acompanhado de ar seco ou na eventualidade do ar-condicionado da empresa quebrar, sem contar a pele que ficará ressecada, sendo preciso mais alguns cremes cheios de substâncias de origem industrial para que tragam a paz de uma bochecha hidratada. Se frio, potencializará depressões uma vez que tempos nublados tendem a transmitir sensação de maior recolhimento. Nunca estará bom o bastante.

Alimenta-se uma rotina que não faz sentido. Pois não há a preocupação do auxílio. Na inclusão dos menos favorecidos que estão presentes em uma sociedade desigual. Muitos dos que podem fazer algo mais, querem tão somente manter sua temperatura interna sem sofrer variações. Vivem no morno de seus medos. Inclusive parecem ter medo da esquecida gentileza. Não ousam sorrir mais. Entretanto perder a previsão do tempo e se proteger do frio é tarefa urgente. Vivemos em tempos de alta tecnologia, onde nos centros de pesquisas em todo o mundo buscam-se total vigilância sobre o clima no planeta. Milhões manifestam-se nas redes sociais sobre as apocalípticas previsões acerca do aquecimento global - é bonito trazer uma marca WWF ou Greenpeace para perto de suas curtidas - mas traçar alguma ação para trazer benefícios para aquela alma esquecida que faça chuva, sol, frio ou calor estará a mercê de uma proteção de papelão, é mais difícil.

A capacidade de sentir variações do tempo e clima é uma maravilhosa experiência da qual poucos observam. Somos capazes de nos adaptar para as mais diferentes condições climáticas e se está nos sobrando interesse em matéria de informação sobre o assunto, está faltando quando devemos agir não importando quantos graus esteja fazendo. Quando este quadro mudar, talvez aí sim, sendo constantes as atitudes aquecendo o ritmo das tarefas pela diminuição das diferenças, comece a fazer um pouco mais de sentido procurar pelo simples prazer de ter antecipadamente uma inocente expectativa de curtir um dia de sol ou chuva com suas agradáveis características. Mas até este dia chegar pode ser que existam outras prioridades.


Luiz Alberto Portes

Um espírito aprendiz que aprecia o infinito, mas se perde em uma tigela de brigadeiro..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Luiz Alberto Portes