sintonia

A frequência quem define é você.

Luiz Alberto Portes

Um espírito aprendiz que aprecia o infinito, mas se perde em uma tigela de brigadeiro.

Por uma vida sem catracas. Mas até lá, tire a mochila das costas

Importantes são os vínculos que nos impelem aos avanços da sociedade em todo o mundo, mas a capacidade de reconhecer ações aparentemente triviais de respeito ao espaço alheio possui uma força que não deve ser desprezada aos que proferem as palavras liberdade e igualdade como símbolos de luta, sob o risco de alavancar nada mais que um ativismo de vitrine.


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Quando presenciamos os protestos em junho de 2013 pelo Brasil afora, as teclas mais pressionadas circundavam o mote “Não é por centavos. É por direitos.”. Textos e imagens quase sempre acompanhados de textos eufóricos destacavam a importância daquele momento para pressionar os poderes públicos a terem relações mais horizontais com a população. De certo modo estava bonito de ver os braços estendidos aos céus como que direcionando sentimentos até então contidos em gritos de ordem e progresso. Puxa vida! O gigante havia acordado.

Gigante este feito também por usuários do transporte coletivo. Inclusive com muitos dos bravos guerreiros das ruas inseridos na clausura das linhas em seus itinerários pelas cidades que tanto dizem prezar. Lembro-me que dentre algumas das reivindicações, tão em voga consta a da mobilidade urbana como um dos pilares para um salto na qualidade de vida de toda a população dos grandes centros.

Entretanto, muitos destes bravos personagens não tiram as mochilas das costas quando se utilizam dos ônibus frequentemente entupidos das cidades. Avançando como fazem nas manifestações eles embrenham-se entre a massa, mas ao encontrarem uma posição cômoda que supra o desejo do conforto individual naquele momento, lá ficam como cones no meio de uma avenida sem movimento e pior, sem dar-se o trabalho de gentilmente poupar o gingado extra dos "inexistentes" que se desdobram para desviar da sua mala com alça. É como se uma outra dimensão os dominassem não permitindo que enxerguem mais ninguém ao redor. Atua-se com tamanha maestria neste teatro que por breves momentos é possível acreditar que é pura falta de atenção. Pode até ser em alguns casos.

Porumavidasemcatracas1.jpg Talvez seja a falta de costume em se viver num mundo com mais pessoas.

A observação é por conta do quanto é difícil praticar aquilo que de tão simples e singelo parece não valer a pena aprimorar, e que dada a indiferença instalada, acaba se transformando-se em um exercício hercúleo ao gatos pingados que ousam prestar mais atenção no que é imediatamente aplicável para uma melhora nas relações sociais. Sendo assim, é passível de raciocinar que se esta empáfia de ignorar a pequena passagem de outras pessoas pelo corredor de um coletivo existe, qual a sinceridade ao declamar palavras de ordem em movimentos civis mais organizados? Alguns inclusive que lutam pelo direito de ir e vir. Ao transitar digno.

Ações cada vez mais sintonizadas com os discursos são indispensáveis para que hajam novos horizontes nas relações humanas a serem refletidas em todas as esferas sociais. Não basta o apego confundido com uma simpatia em determinado assunto se não procuramos analisar suas possíveis imperfeições e principalmente, observar se estas arestas não estão em nosso próprio modo de viver. Não estamos em condição angelical. Precisamos urgentemente estudar nossa conduta para então com propriedade somar no conjunto da vida.

O exemplo citado é um em milhões. O simples olhar é uma ação poderosa que poucos tem a coragem de trabalhar em seu íntimo. Com isso o superficial ganha contornos de grandes marchas revolucionárias mas que não passam de infantis reunião de torcidas para matar a fome do egoísmo que deixam brotar em seus jardins.

Que se vá para as ruas sim. Mas tirem as mochilas das costas. Estude o lado B. Trabalhe a empatia e reconheça-o neste universo repleto de oportunidades para lapidarmos nossa condição de viajantes em um mesmo barco cósmico.

Paz.


Luiz Alberto Portes

Um espírito aprendiz que aprecia o infinito, mas se perde em uma tigela de brigadeiro..
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