só enquanto eu respirar

Para aqueles que ainda acreditam na essência humana.

Saymonn Ferreira

Per fas et nefas ( Por todo e qualquer meio)

Um apartheid no século XXI

O preconceito se esconde até mesmo nas "boas ideias" que quando bem disfarçadas camuflam e amenizam o horrível defeito humano de pré-julgar. Afinal rotular é muito mais fácil, cômodo e confortável do que conhecer a fundo e passar pelo frustante processo de perda das auto verdades.


Karl Marx não estava errado quando disse: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Antes mesmo de se findarem todos os efeitos da segregação racial de 1948 onde milhares de negros tiveram seus direitos e sua dignidade varrida pela prepotência da elite dominante, temos hoje uma segunda forma de segregação ainda mais polêmica: a questão dos transgenêros.

Apesar do assunto não ser nenhuma novidade do século, foi somente nas últimas décadas que os mesmos ganharam força e “voz” para se expressarem em meio o gigantesco oceano de criticas e falsos moralismos que a sociedade mais uma vez impõe. Para muitos, eles ainda são invisíveis, rotulados por apelidos e estereótipos a tão sonhada liberdade se mostra a cada dia mais difícil de ser alcançada. Felizmente o assunto tem ganhado força nos diferentes meios de comunicação, com isso aos poucos vemos uma desmistificação do tema onde a população tem a oportunidade de conhecer e entender a complexidade das diferentes ramificações que a sexualidade humana pode apresentar em contrapartida nem sempre lúcida ou racional.

De uma forma sucinta, a transexualidade é a não-aceitação do próprio sexo e em sua maioria do gênero a qual se adota e nasce. Tem-se aqui um importante ponto a ser esclarecido que é: sexo e gênero. O sexo se relaciona com as características biológicas, anatômicas e morfológicas que cada ser humano possui, ou seja, macho ou fêmea, este não é passível de alteração ou permuta, visto que carrega em sua essência natural fatores únicos e pessoais. Diferentemente do gênero que são padrões impostos e adotados pela sociedade: masculino ou feminino, nessa visão encontramos estilos e comportamentos adotados propriamente a um desses gêneros, é ele que estipula ou dita que determinado comportamento, estilo ou prática é característico de um homem ou de uma mulher, esse é moldado e sofre inúmeras influências de acordo com a cultura e a socialização de cada individuo.

Essa “nova” ramificação da sexualidade humana tem colocado em xeque um dos princípios basilares da nossa Constituição Federal: a dignidade da pessoa humana, dignidade esta que vem sido negligenciada mais uma vez pelo preconceito enraizado que nutrimos há séculos. Foi na tentativa de resolver possíveis problemas na socialização entre aqueles que se autodenominam transgenêros, que se cogitou a criação dos banheiros para transgenêros. Possibilidade essa que para alguns foi tida como a solução de todos os problemas, já que a presença de um transgenêro em um banheiro público poderia causar desconforto ou atentar contra a moral dos ali presentes, afirmação essa carregada de preconceito e insensibilidade. Será que estaríamos retrocedendo quanto à valorização do ser humano? Episódios como esses nos remetem aos tempos indignos do apartheid, quando bebedouros e assentos de ônibus eram separados e destinados exclusivamente a negros ou brancos no intento de prevenir qualquer que fosse o contato entre as etnias.

banheiros transgeneros.jpg

A história se repete mais uma vez, com particularidades é claro, mas ainda assim motivada pela mesma hipocrisia da época, onde padrões devem ser mantidos independentemente de quem eles os atinjam, o fim desejado é posto como o único alvo, mesmo que no curso dele, sentimentos e princípios sejam desprezados, maculados. Afinal a farsa se esconde num forte muito bem protegido: a normatividade padrão da sociedade.


Saymonn Ferreira

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