só entre nós

Não morremos de amor. Hoje em dia, morremos da falta dele.

Úrsula Pureza

Carioca, 22 anos, formada em Educação Física, apaixonada por cafés, animais, natureza, séries e eu ainda acredito no amor. Amei histórias ainda na barriga, livros eu amei quando meu pai me segurou pela primeira vez.

A (real) vida de um ansioso

Ansiedade é o mal do séculos eles dizem... Como ser ansiosa quase me matou no meu último ano de faculdade.


Começou com um diagnóstico de TOC lá pelos 11 anos de idade e o fato de sempre ter tido acompanhamento não quer dizer que tenha ido embora. Eu lavava a mão sei lá quantas vezes, esfregava o pé compulsivamente e tinha pânico de sujeira: nada nunca tava limpo como eu queria, tava tudo imundo. Lá pelos 15 anos passei a olhar as portas e as janelas mais de quatro vezes antes de dormir, pra ver se estavam trancadas ou com tela. O pavor de ter deixado a porta aberta vivia me atrapalhando- e eu estava sempre atrasada.

Quando eu fiz 18 anos na época de vestibular e habilitação só piorou. Eu via as pessoas do cursinho completamente seguras de si, enquanto eu me perguntava se devia fazer faculdade ou arrumar um emprego. Eu precisava tirar carteira de motorista. Precisava ter 8 horas de sono, precisava praticar atividades, precisava estudar, precisava cuidar de mim, precisava ir a aula e a auto escola. O que consegui foram crises de gastrite que me faziam gritar, suor frio e tremedeira antes de qualquer tipo de prova, eu vivia cheia de dor no corpo e tinha crises de choro até minha cabeça doer: eu tinha ansiedade. Na época o psicólogo disse que meu TOC tinha parte de culpa nisso.

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Mas consegui tirar habilitação, entrar pra faculdade e chegar no final dela, mas não sem as crises. Lá pelo meu segundo ano de faculdade cada véspera de prova era um sofrimento: eu não sabia se estudava ou se dormia, como sempre tinha crise de gastrite, não fazia nem um nem o outro direito. No último ano de faculdade eu achei que ia morrer. Tinha TCC pra fazer, hora de estágio, hora complementar, trabalho em grupo, prova, precisava me formar, arrumar um emprego, tinha prova, me especializar, prova, comprar um carro e uma casa. Qualquer coisa que eu pensasse por mais de 5 minutos virava uma bola de neve de problema na minha vida, não me deixava dormir e me fazia sentir dores por 3 dias. Comecei a ficar doente. Depois das férias de julho minhas compulsões estavam piores e eu passei a ter dificuldade pra dormir: "Amanhã eu acordo cedo pra trabalhar, tenho 6h de sono... 4h de sono... Eu não dormi, amanhã não vou a aula, mas tem trabalho, não fiz trabalho. Posso fazer durante meu almoço, não da. Vou ficar reprovada". Raramente as pessoas levam um ansioso a sério, você sempre quer aparecer, nunca é sério.

Na semana do meu TCC eu não dormia, não comia e mal falava. Foi assim até o final de novembro quando minhas provas acabaram. Vivia em desespero, parecia que tudo ia dar errado, fazia várias coisas ao mesmo tempo. "Meu pai pagou 4 anos de faculdade a toa, não vou passar, esse TCC tá um lixo, os professores vão odiar". Mas apresentei e passei.

O ansioso não é assim por drama ou porque quer aparecer, ele simplesmente é assim. Quando não corresponde as expectativas entra em pânico e culpa a si mesmo. O fato de precisar conversar com um professor faz a gente tremer igual vara verde. Dizer que precisa conversar faz a gente passar mal, não terminar um assunto também. Aumentamos tudo pra pior ou criamos coisas sempre ruins nas nossas cabeças e acreditamos naquilo pra sempre, e dói. Simplesmente não sabemos lidar com pressão, se ligamos e a pessoa não atende é porque tá com raiva, estamos sempre mexendo uma parte do corpo, pensamos em coisas que aconteceram a muito tempo (ou recentemente mesmo) antes de dormir óbvio, acumulamos coisas pra fazer, não entendemos brincadeira e levamos tudo a sério. Mas não é por mal.

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O que eu tenho pra dizer depois desses anos convivendo com meus dois transtornos é que no fim das contas muita coisa dá certo e passa, amigos e familiares que te amam de verdade sempre vão estar do seu lado pra te ajudar como puderem, principalmente quando você achar que não aguenta mais. E psicólogos, sempre é bom ter ajuda especializada, várias vezes vocês podem ter um vínculo legal, são pessoas que você pode confiar também. E principalmente, tudo passa.


Úrsula Pureza

Carioca, 22 anos, formada em Educação Física, apaixonada por cafés, animais, natureza, séries e eu ainda acredito no amor. Amei histórias ainda na barriga, livros eu amei quando meu pai me segurou pela primeira vez. .
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