só entre nós

Não morremos de amor. Hoje em dia, morremos da falta dele.

Úrsula Pureza

Carioca, 24 anos, apaixonada por cafés, animais, natureza, séries. Amei histórias ainda na barriga, livros eu amei quando meu pai e meus avós leram pra mim pelas primeiras vezes e muitas outras mais.

Porque precisamos lembrar de Linda Lovelace

O que a verdadeira história de Linda Lovelace nos diz sobre a sociedade nos anos 70, 80 e na nossa sociedade de hoje? Quase nada mudou.


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Ontem a noite, em uma dessas andanças pelo Netflix, me deparei com o filme "Lovelace" e pro meu arrependimento resolvi assistir. O filme aparentemente mostra a história da atriz Linda Lovelace, que estrelou o pornô mais bem sucedido da história, veja bem: APARENTEMENTE.

Lá pela metade do filme, todas as cenas antes normais, como algumas gravações do filme, as cenas com o marido Chuck, com a família e com a equipe de filmagem são repetidas com o que realmente tinha acontecido: Chuck a estuprava desde o casamento e a obrigava a fazer programa para conseguir dinheiro pra ele, obrigou Linda a fazer o filme que mais arrecadou no cinema pornográfico (600 milhões) e ela nem viu o -pouco- dinheiro que ganhou, era ameaçada com uma arma e espancada constantemente, obrigou Linda a por silicone antes do filme, que infeccionou e resultou numa mastectomia anos depois, obrigava a fazer curtas variados, um deles com um cachorro, certa vez arrumou que ela fosse molestada com cinco caras diferentes em troca de dinheiro pra ele. A mãe sabia, a equipe sabia, e não faziam nada.

Isso tudo nos anos 70 onde as mulheres estavam começando a ser livres, ela supostamente era uma dessas mulheres. Mas certa vez declarou "Se você vê 'Garganta Profunda' está me vendo ser estuprada". Após abandonar Chuck, escreveu o livro "Provação" em 1980, onde ela conta como tudo começou e como realmente aconteceu.

Ela foi desacreditada, chamada de mentirosa, tachada de puta, e é lembrada pelo filme até hoje, eu tenho 21 anos e ouço sobre ele desde muito nova, mas na verdade lutou contra a indústria pornográfica e seus abusos e contra a violência doméstica até o fim da vida em 2002, é ícone contra violência e dos direitos das mulheres, mas claro que nada aconteceu com Chuck.

O que me traz ao caso mais recente, da cantora Kesha, que declarou sofrer de abusos de vários tipos, vindos do seu produtor desde o início de sua carreira e ela queria romper contrato. Nesse caso chegou a dar processo mas a cantora perdeu, e ela só queria não precisar mais trabalhar com o cara. Kesha também foi chamada de mentirosa, de puta, foi questionada porque não falou antes... Kesha foi coagida, ameaçada, abusada... Assim comoLinda.

Quantas Keshas e Lindas, quantas Marias a Anas, quantas Joanas Maranhão e Elisas não são abusadas, ameaçadas, caladas, assassinadas pelos maridos, tios, padrinhos, vizinhos, professores, amigos da família todos os dias? E ninguém sabe, não entram pra "estatística". Porque? Porque são mulheres.

Porque as mulheres foram ensinadas a obedecer e aceitar, a não reclamar e a concordar, foram ensinadas que a culpa é delas e que tem que ficar quietas. Vai muito além da discussão Feminismo x Machismo, feminazi, mi mi mi etc

É sobre vidas arruinadas ou perdidas, porque ninguém escuta. Porque é mulher. Porque debocham. Porque é mentira. Porque a culpa é nossa. Porque eu mereci. Porque a polícia não escuta. Pra me ensinar. Porque o juiz não escuta. Porque a lei não é obedecida. Porque? Porque é mulher.


Úrsula Pureza

Carioca, 24 anos, apaixonada por cafés, animais, natureza, séries. Amei histórias ainda na barriga, livros eu amei quando meu pai e meus avós leram pra mim pelas primeiras vezes e muitas outras mais. .
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