só entre nós

Não morremos de amor. Hoje em dia, morremos da falta dele.

Úrsula Pureza

Carioca, 22 anos, formada em Educação Física, apaixonada por cafés, animais, natureza, séries e eu ainda acredito no amor. Amei histórias ainda na barriga, livros eu amei quando meu pai me segurou pela primeira vez.

Porque precisamos lembrar de Linda Lovelace

O que a verdadeira história de Linda Lovelace nos diz sobre a sociedade nos anos 70, 80 e na nossa sociedade de hoje? Quase nada mudou.


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Ontem a noite, em uma dessas andanças pelo Netflix, me deparei com o filme "Lovelace" e pro meu arrependimento resolvi assistir. O filme aparentemente mostra a história da atriz Linda Lovelace, que estrelou o pornô mais bem sucedido da história, veja bem: APARENTEMENTE.

Lá pela metade do filme, todas as cenas antes normais, como algumas gravações do filme, as cenas com o marido Chuck, com a família e com a equipe de filmagem são repetidas com o que realmente tinha acontecido: Chuck a estuprava desde o casamento e a obrigava a fazer programa para conseguir dinheiro pra ele, obrigou Linda a fazer o filme que mais arrecadou no cinema pornográfico (600 milhões) e ela nem viu o -pouco- dinheiro que ganhou, era ameaçada com uma arma e espancada constantemente, obrigou Linda a por silicone antes do filme, que infeccionou e resultou numa mastectomia anos depois, obrigava a fazer curtas variados, um deles com um cachorro, certa vez arrumou que ela fosse molestada com cinco caras diferentes em troca de dinheiro pra ele. A mãe sabia, a equipe sabia, e não faziam nada.

Isso tudo nos anos 70 onde as mulheres estavam começando a ser livres, ela supostamente era uma dessas mulheres. Mas certa vez declarou "Se você vê 'Garganta Profunda' está me vendo ser estuprada". Após abandonar Chuck, escreveu o livro "Provação" em 1980, onde ela conta como tudo começou e como realmente aconteceu.

Ela foi desacreditada, chamada de mentirosa, tachada de puta, e é lembrada pelo filme até hoje, eu tenho 21 anos e ouço sobre ele desde muito nova, mas na verdade lutou contra a indústria pornográfica e seus abusos e contra a violência doméstica até o fim da vida em 2002, é ícone contra violência e dos direitos das mulheres, mas claro que nada aconteceu com Chuck.

O que me traz ao caso mais recente, da cantora Kesha, que declarou sofrer de abusos de vários tipos, vindos do seu produtor desde o início de sua carreira e ela queria romper contrato. Nesse caso chegou a dar processo mas a cantora perdeu, e ela só queria não precisar mais trabalhar com o cara. Kesha também foi chamada de mentirosa, de puta, foi questionada porque não falou antes... Kesha foi coagida, ameaçada, abusada... Assim comoLinda.

Quantas Keshas e Lindas, quantas Marias a Anas, quantas Joanas Maranhão e Elisas não são abusadas, ameaçadas, caladas, assassinadas pelos maridos, tios, padrinhos, vizinhos, professores, amigos da família todos os dias? E ninguém sabe, não entram pra "estatística". Porque? Porque são mulheres.

Porque as mulheres foram ensinadas a obedecer e aceitar, a não reclamar e a concordar, foram ensinadas que a culpa é delas e que tem que ficar quietas. Vai muito além da discussão Feminismo x Machismo, feminazi, mi mi mi etc

É sobre vidas arruinadas ou perdidas, porque ninguém escuta. Porque é mulher. Porque debocham. Porque é mentira. Porque a culpa é nossa. Porque eu mereci. Porque a polícia não escuta. Pra me ensinar. Porque o juiz não escuta. Porque a lei não é obedecida. Porque? Porque é mulher.


Úrsula Pureza

Carioca, 22 anos, formada em Educação Física, apaixonada por cafés, animais, natureza, séries e eu ainda acredito no amor. Amei histórias ainda na barriga, livros eu amei quando meu pai me segurou pela primeira vez. .
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