só entre nós

Não morremos de amor. Hoje em dia, morremos da falta dele.

Úrsula Pureza

Carioca, 24 anos, apaixonada por cafés, animais, natureza, séries. Amei histórias ainda na barriga, livros eu amei quando meu pai e meus avós leram pra mim pelas primeiras vezes e muitas outras mais.

"O Labirinto do Fauno" diz (muito) mais sobre nós do que podemos imaginar

A película de Guillermo del Toro é assustadora dependendo de como é vista. Mas passa a ser mais assustadora ainda, quando conseguimos ver a semelhança do fascismo espanhol dos anos 40, com a atual realidade do mundo.


O Filme se passa em 1944 na Espanha fascista devastada pela Guerra Civil. Logo nos primeiros minutos vemos uma criança morrendo e somos levados a conhecer a história do ponto de vista dela.

Conhecemos então a história de uma princesa do mundo subterrâneo (onde não havia dor ou sofrimento) que sonhava com a vida na terra acima dela, e um dia enganando a todos, fugiu para a superfície que conhecemos, sofreu com fome, frio, esqueceu do seu reino e morreu. Seu pai no entanto ainda a esperava e procurava e ia continuar até que o mundo parasse de girar.

Então somos apresentador a Ofélia (a menina do começo do filme) e a história da princesa parece ser um dos livros que ela lia, sua mãe Carmem, gravidíssima, é casada com um capitão do exército espanhol, o capitão é incrivelmente grosseiro e machista, já Mercedes, a governanta da casa é uma mulher forte e revolucionária.

R0001073.bmp

Ofélia tinha perdido o pai na guerra, e se muda com a mãe para a casa do padrasto (muito ocupado procurando rebeldes) no interior. Sua mãe é completamente submissa e está cada vez mais fraca, faz o que pode para agradar o capitão e pede o mesmo a filha, a menina se perde na casa enorme, na floresta e no mundo da fantasia. Seu imaginário é repleto de criaturas monstruosas que nos fazem pensar “O que se passa com Ofélia? O filme é de fato uma fantasia ou del Toro está nos presenteando com mais uma obra psicológica?”. Logo então conhecemos o tal Fauno (que associados a Pã na mitologia romana e a sátiros na grega), que em nada lembra o sátiro engraçadinho do desenho “Hércules” da Disney em 1997.

Pan'sLabyrinth1 by Bia Tomaz.gif

O Fauno a trata como a princesa fujona do mundo subterrâneo e diz que seu pai nunca parou de procura- la e abriu portais pelo mundo na esperança que a filha os encontrasse para voltar pra casa, então dá 3 tarefas a menina para que ela retorne para seu reino.

Na primeira tarefa ela precisa entrar no tronco de uma árvore e acabar com o sapo que vivia se alimentando dela e a matando lentamente. Mas quando a árvore aparece no vídeo, tem o formato de útero. Seria a imaginação de Ofélia criando uma metáfora de sua mãe e irmão? Apesar de amar o irmão, ela sabe que é a gravidez que tem deixado a mãe tão fraca.

A segunda tarefa é dada a Ofélia e apesar de não estar tão clara, a regra é, e muito: não se pode tocar em nada do lugar. Essa tarefa foi dada após um banquete na casa do capitão, jantar esse que Ofélia não esteve presente. Ambas mesas, da casa na noite do jantar e do lugar onde Ofélia entra, são idênticas e após comer da mesa que não podia, a criatura, que estava sentada a mesa no mesmo lugar e com a mesma postura do capitão, acorda e come 2 das 3 fadas que ajudavam Ofélia.

Fato é que Ofélia só se perde nesse mundo quando está sozinha. Negligenciada pelo padrasto, a menina tem uma mãe amorosa mas cada vez mais doente e mais submissa, os empregados da casa tem carinho pela menina mas dada a situação caótica do país (e da fazenda também) não tinham o que fazer. Faltava dinheiro, recurso, mantimento e estava tudo racionado. Mas nenhuma criatura das histórias de seus livros ou de sua imaginação era tão assustadora quanto seu padrasto. Sem poder contar com a mãe, também não podia confiar no padrasto. O capitão é rude, e capaz de arriscar a vida da enteada e até da esposa pelo seu próprio bem, e pelo que ele acha certo. Uma das figuras mais capazes de anti-amor com que já me deparei.

pans-labyrinth-3-e1285119329563.jpg

Vendo tudo isso não é de se espantar que ela fosse facilmente transportada para o mundo imaginário. A Guerra Civil da Espanha assim como todas do século XX dizimou e fez sofrer famílias inteiras.

Após graves problemas econômicos, Alemanha e Itália acreditaram em um único líder, que usando o imperialismo, a política de raças e a violência para expandir seu território para terras estrangeiras, impôs seu regime ditatorial à população, exaltando a cultura própria em detrimento das demais, pessoas consideradas inimigas do governo eram combatidas com violência e morte. Conseguimos ver claramente isso no filme após o capitão matar um camponês. Marchas foram realizadas para que o rei entregasse o poder ao Partido Nacional Fascista, e quando o governo foi ocupado por 2/3 de fascistas, eles colocaram seu poder em prática e instalou- se o caos. Legislativo enfraquecido, meios de comunicação fechados, organizações trabalhistas sem poder nenhum.

Já na Alemanha, após o Tratado de Versalhes declarar o país oficialmente vencido após a Iª Guerra, e impor pesadas sanções políticas e econômicas, em profunda crise, os alemães tiveram o sentimento de revanche aumentado e o nacionalismo extremista se tornou mais forte. Nazistas também ocuparam o Parlamento e exigiram mais poderes a Hitler que se tornou chanceler, e após chegar a presidência, deu início ao nazismo. Militarização da sociedade e controle intensivo das mídias foram duas das suas características.

Pessoas que não conhecem história, seja ela a própria ou não, estão fadadas a cometer os mesmos erros. Sabemos, por anos a fio de história mundial, que extremismo, violência e caos, só gera mais do mesmo, o resultado final não vai ser diferente do produto inicial. Estariam as populações realmente condenadas a viver nesse ciclo vicioso histórico? Ignorar os erros do passado é a certeza de cometer os mesmos no futuro.

Voltemos então ao filme, no auge da escassez, o castigo de Ofélia é viver entre os homens. Tem quem diga que viver na Terra é um castigo de fato.

Foi quando eu percebi que o que não tinha percebido na primeira vez que vi o filme: o Fauno, apesar de feio e sombrio é uma criatura boa, as coisas boas do filme, se passam no mundo subterrâneo. As fadas que guiam Ofélia não são a Sininho, são escuras e não têm rosto, mas sempre a levam pelos melhores caminhos.

Agora, o mal, o ruim, acontece na claridade, acima da terra, o capitão que deveria (pelo nosso conceito) cuidar e proteger, oprime, agride, maltrata, ofende, pra ele só quem importa são seus soldados. Ninguém mais é bem vindo ali.

O que caos, fome e miséria são capazes de gerar? O que será que nos faz acreditar que nessas situações ao invés de investirmos em coisas boas, o extremismo e a violência resolverá alguma coisa?

Guillermo del Toro sempre foi meu diretor preferido. O filme é escuro e sombrio, mas é lindo, porque nos faz ver que mesmo em meio às sombras, a bondade sempre aparece e prevalece. A claridade e o que é imposto como certo causa sofrimento. Esse é nosso mundo, na época, a Espanha de Ofélia.

Recomendo a todos que se puderem e quiserem vejam o filme e tracem também linhas com a nossa sociedade, que percebam de fato as coisas como acontecem, pra mim não se tratou apenas de fantasia.

Mas no fim, estaria Ofélia vivendo em dois mundos reais ou não? Deixo a vocês (e a mim também, confesso) o benefício da dúvida.

(Todas as imagens foram retiradas do google)


Úrsula Pureza

Carioca, 24 anos, apaixonada por cafés, animais, natureza, séries. Amei histórias ainda na barriga, livros eu amei quando meu pai e meus avós leram pra mim pelas primeiras vezes e muitas outras mais. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// //Úrsula Pureza