Joanna Cataldo

Alérgica a machismo, pó e sentimentalismo barato. Costuma ser vista lendo no metrô ou tomando picolé de uva na esquina.

O Subestimado Poder dos Erros

Porque errar também pode ser bom


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Tudo começa na pré-escola. Lá está você, esboçando os seus primeiros garranchos, quando um coleguinha se aproxima. Dissimuladamente, ele começa a zombar da sua letra “j”, escrita do lado contrário. Que humilhação...

O tempo passa e você começa a fazer aulas de futebol. É chegada a hora da grande final do campeonato. A família inteira foi convidada. Seus tios que moram no interior fizeram uma viagem de 8 horas para te ver jogando. Então, na hora do vamos ver, você erra um pênalti decisivo e todos começam a reclamar loucamente. Que culpa... Que humilhação...

Anos depois, você está sentado em uma carteira no ensino médio, fazendo simulado para a prova da FUVEST. Quando sai o resultado, descobre que fez 40 pontos de 90. "Você nunca vai conseguir passar no vestibular assim", diz a coordenadora da escola. Que frustração.... Que culpa... Que humilhação....

Então, contrariando todas as previsões, você acaba passando no vestibular. Mas é chegada a hora de começar a trabalhar. Lá está você, espiando pelo canto do olho o relógio na parede da sala de reunião. Não bastasse ter passado a noite inteira fazendo relatórios e tentando- inutilmente- colocar seu filho para dormir, você ainda tem que ficar ouvindo seu superior falar sobre os resultados das vendas do último mês.

E eis que, em um determinado momento, você acaba fazendo um comentário não muito apropriado sobre o seu chefe. É claro que você não deveria ter dito aquilo, mas como um errinho desses poderia ofuscar anos de comprometimento com a empresa?

Enquanto tenta achar uma resposta para essa pergunta, você arruma suas coisas e se prepara para deixar a empresa. Sua esposa vai surtar quando souber da demissão. Que desespero...Que culpa...Que frustração...Que humilhação....

Então, eu me pergunto:se é errando que se aprende, por que somos tão penalizados quando cometemos erros? Se a perfeição não existe, por que a cobramos com tanta veemência?

No livro “O Caçador de Pipas”, Amir arma um plano para incriminar Hassan, o filho do empregado da casa. Como consequência, o menino e seu pai são expulsos da residência, conforme Amir havia planejado. Contudo, não demora muito para que o pequeno mentiroso comece a se sentir culpado pelo que fez. No final das contas, seu erro acaba acompanhando-o pelo resto da vida, atormentando-o a cada dia que passa, como um peso que ele não consegue se livrar.

Até que, anos depois, um velho conhecido de Amir revela que Hassan e sua esposa haviam sido mortos e o filho do casal se encontrava em um estado deplorável. Ao saber disso, Amir vê na situação a oportunidade perfeita para se redimir do seu erro e provar que pode ser uma boa pessoa. Assim, ele deixa sua casa nos Estados Unidos e embarca em uma viagem para salvar o menino, que vinha sendo usado como escravo sexual no Afeganistão.

O erro, nesse caso, serviu para que Amir salvasse uma vida. Serviu para que ele refletisse sobre sua conduta e progredisse como ser humano. Se ele tivesse optado por esconder o erro ou fingir que ele nunca tinha acontecido,o filho de Hassan ainda estaria em apuros. Como ele mesmo diz, aquela era a chance ser bom de novo.

No fundo, a explicação para isso é puramente matemática. Há uma regra que diz que menos mais menos é igual a mais. Sendo assim, um erro (algo negativo) somado à culpa (algo igualmente negativo) tem, obrigatoriamente, um resultado positivo. Olhando por esse prisma, o “j” escrito errado pode ter ajudado a redobrar sua atenção. O pênalti perdido pode ter atenuado sua arrogância. O mau desempenho na prova pode ter feito com que você se dedicasse mais aos estudos. E o emprego perdido pode ter sido um alerta de que essa não era a profissão certa, no final das contas. O erro funciona como uma peça de quebra-cabeça. Enquanto não estiver conectada aos seus pares, não significa nada, é totalmente descartável. Mas é só ela se juntar aos outros pedaços que se torna essencial para o jogo.


Joanna Cataldo

Alérgica a machismo, pó e sentimentalismo barato. Costuma ser vista lendo no metrô ou tomando picolé de uva na esquina..
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