Joanna Cataldo

Alérgica a machismo, pó e sentimentalismo barato. Costuma ser vista lendo no metrô ou tomando picolé de uva na esquina.

Que Horas Vamos Falar Sobre Isso?

Por que o novo filme de Regina Casé mexe tanto com os espectadores?


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Muita gente deve ter percebido que, de uns tempos para cá, as empregadas começaram a ganhar mais destaque nas novelas. Foi-se o tempo em que as mulheres entravam em cena, serviam um cafezinho e iam embora para a cozinha. Hoje em dia, não é raro encontrar personagens domésticas com história própria e profundidade psicológica.

Mas apesar de termos avançado consideravelmente, ainda estamos longe de tratar o assunto com a complexidade que ele exige. Principalmente no que diz respeito à relação patrão-empregado, a maioria das tramas continua caindo naquele velho maniqueísmo entre vilão e mocinho. Em outras palavras, ou os chefes de família são criaturas angelicais ou são capetas disfarçados de pessoa.

No entanto, qualquer brasileiro sabe que, no meio desses dois extremos, há uma série de camadas. Assim como a patroa de Val, a personagem de Regina Casé no filme “Que Horas Ela Volta?”, milhares de pessoas se orgulham de tratar as empregadas como “parte da família”, mas, ao mesmo tempo em que dão presentes, conversam, trocam confidências, se sentem incomodadas ao ter que dividir a mesa com uma doméstica.

E por que isso acontece? Não precisamos de muito esforço para perceber que as elites brasileiras têm mania de mostrar que fazem parte de uma cultura superior. Não é algo que, na maior parte das vezes, seja feito conscientemente, mas que acaba dando as caras em pequenas situações do cotidiano. É só ver as conversas entre amigos. No Brasil, falar que gosta de funk, de sertanejo é praticamente um crime social, ao passo em que uma viagem à Miami precisa ser contada nos mínimos detalhes.

O tipo de mentalidade que está por trás dessas conversas é o mesmo que está presente na relação com os empregados da casa. As elites são amorosas com seus subordinados até o ponto em que a hierarquia permanece intacta. Contudo, uma vez que esse nivelamento é afetado, tudo rapidamente muda de figura. É o que vemos, por exemplo, na cena da piscina. Quando a filha de Val, Jéssica, entra na água junto com o filho da patroa, ela automaticamente se coloca no mesmo nível que o patrãozinho - e isso incomoda Bárbara.

Pensando por esse prisma, a própria relação amigável que as duas nutrem no começo da história é um indício de superioridade. O fato de Bárbara tratar Val com afetividade faz com que a patroa se sinta melhor consigo mesma. Em um país tão desigual como o Brasil, tratar uma pessoa de classe inferior com respeito pode parecer, para os olhos de muitos, uma forma de perdoar a si mesmo por ter recursos enquanto alguns nem têm onde morar.

É claro que muitas vezes isso não se dá de forma consciente e é justamente por isso que precisamos de mais filmes como “Que Horas Ela Volta”. Precisamos de mais histórias complexas e profundas. Precisamos de mais personagens que apontem, de forma pertinente e verosímil, o que está errado e o que podemos melhorar. Precisamos de mais Vals e Bárbaras.


Joanna Cataldo

Alérgica a machismo, pó e sentimentalismo barato. Costuma ser vista lendo no metrô ou tomando picolé de uva na esquina..
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