Joanna Cataldo

Alérgica a machismo, pó e sentimentalismo barato. Costuma ser vista lendo no metrô ou tomando picolé de uva na esquina.

Da onde vêm os vampiros?

O mito dos sangue-sugas nunca foi tão atual


vampiros.jpg

A palavra ficção e a expressão válvula de escape são íntimas a ponto de uma depender da outra para existir. Ambas têm sido usadas, em conjunto, para descrever o fascínio do ser humano pelo inusitado. Mas eis que surge a dúvida: seria a fantasia capaz de se libertar totalmente da realidade? Seria a ilusão capaz de nos fornecer insights sobre a vida tão verdadeiros quanto uma obra de não-ficção?

Em meio a essas questões, surgem aqueles que caminham entre esses dois mundos. Criados pela literatura, adotados pelo cinema, os vampiros oscilam entre o humano e o fantástico. Seus hábitos fantasiosos e por vezes repugnantes colidem diretamente com o lado mais escuro da humanidade. Através deles, vemos o que não queremos ver, nos confrontamos com os sentimentos mais sórdidos de nossa espécie.

Seguindo essa linha de raciocínio, para melhor entendermos a complexidade desse personagem, temos de, antes de tudo, voltar a sua origem. A primeira aparição dos mortos-vivos na literatura teria sido ainda no século XIX, no livro The Vampire, de John Polidori – embora histórias sobre vampiros povoassem o imaginário mundial desde tempos imemoriáveis. Na época, a Revolução Industrial imperava absoluta. O homem parecia ser, enfim, capaz de controlar a natureza, atingindo um nível na escala evolutiva aparentemente impossível de ser superado. Some-se a isso a Era Vitoriana, marcada pelo puritanismo e pela repressão dos desejos.

Eis que surge um ser subversivo, incapaz de controlar seus instintos mais primitivos. Uma criatura arcaica, distante do ideal de homem moderno do século XIX, mas que, mesmo assim, conhece a fórmula para a vida eterna. Indo contra todas as correntes de pensamento da época, o vampiro apresenta-se como aquilo que todos desejamos ser, mas que tentamos negar em função do nosso superego altamente influenciado por convenções sociais.

Ainda nos dias de hoje, o embate entre as capacidades humanas e o universo sedutor do vampiro continua imperando. De um lado,temos as novas tecnologias,trazendo promessas de liberdade.Mas essa mesma liberdade passa a ser limitada a partir do momento em que somos bombardeados de informações,propagandas que tentam confinar o homem a um determinado padrão de conduta.Assim como no século XIX, vivemos uma fase de repressão das vivências,ainda que de forma mais velada. Como se o ser humano fosse capaz de controlar a natureza,mas acabasse caindo na contradição de não poder controlar a própria vida.

Por outro lado, caso nosso livre arbítrio nos leve a buscar uma vida que renuncie essas imposições modernas, corremos o risco de cairmos em uma condição vampiresca. Nesse caso,ao mesmo em tempo em que os limites da moral tornam-se obsoletos, corremos o risco de nos deparar com a perda de nossa própria energia vital.Pois,assim como os vampiros sugam a vida que existe dentro de suas presas,seria o homem capaz de viver sem as regras da sociedade sem se autodestruir? Os vampiros são, portanto, manifestações ficcionais que usam a realidade como base para a sua execução. Através de símbolos, a arte tenta explicar a vida, seja na triunfante Belle Epoque ou nos dias de hoje. Assim como os mortos-vivos, nada consegue se manter vivo por tanto tempo quanto a arte de contar histórias.


Joanna Cataldo

Alérgica a machismo, pó e sentimentalismo barato. Costuma ser vista lendo no metrô ou tomando picolé de uva na esquina..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Joanna Cataldo