Joanna Cataldo

Alérgica a machismo, pó e sentimentalismo barato. Costuma ser vista lendo no metrô ou tomando picolé de uva na esquina.

Por que eu não gosto de excluir amigos do Facebook

Às vezes, silenciar o outro pode ser um golpe contra si mesmo


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Nunca fui do tipo que exclui amigos do Facebook. Sempre fui tolerante com convites para jogos, cutucadas, correntes, comentários de todos os tipos..., Mas, depois da votação do impeachment na câmera, minha paciência se esgotou e comecei a pensar seriamente em excluir os machistas, homofóbicos e defensores do golpe militar que tomaram conta da minha timeline.

Em um primeiro momento, as vantagens de uma limpeza geral saltavam aos olhos. Dali em diante, eu não veria mais a minha amiga que trocou a foto de perfil por “Bolsonaro presidente” ou o meu colega que usa adjetivos impublicáveis para se referir ao Jean Wylis. Com uma limpeza geral, essas pessoas sumiriam do meu feed de notícias. Mas as ideias que elas defendem não.

Minha amiga que acha que a Ditadura Militar foi a melhor coisa que aconteceu na história do Brasil continuaria compartilhando textos sobre como o país era mais “civilizado” naquela época. E, enquanto as pessoas leem, curtem e compartilham o texto dela, eu vou estar deitada em berço esplêndido na minha bolha de pessoas que pensam igual a mim.

A verdade é que, para além dos muros do condomínio, da universidade, existem muitas, muitas pessoas que acham que práticas de tortura são a solução, que homossexuais como o Jean Wyllys devem ser combatidos e que xingar a Dilma de vadia, piranha não tem nada a ver com machismo. Mas tem a ver, sim, gente! E se você também acha essas atitudes problemáticas, ajude a combatê-las!

Sem agressividade, sem clima de competição, converse com o seu amigo. Explique para ele que a ditadura matou e torturou centenas de pessoas. Faça uma busca na internet e apresente dados que provem que as medidas econômicas adotadas pelos militares foram catastróficas. Dê uma de professor de história e mostre a ele que o governo militar era extremamente corrupto e que muitos fatos só vieram à tona anos depois porque a imprensa da época era censurada.

Em relação às pessoas que perdem o tom quando resolvem fazer críticas à Jean e Dilma, mostre a elas que existe uma diferença entre fazer ataques pessoais e não concordar com a posição política de alguém. Todo ataque que envolve aspectos físicos ou orientação sexual pode ser considerado machista ou homofóbico. Um bom debate gira em torno do questionamento de políticas, de ideologias e não de aspectos pessoais da vida do indivíduo.

É claro que você pode dizer: “Ah, eu já tentei discutir, mas fulano nunca me escuta”. Será que ele não escuta mesmo? Nós nunca saberemos o que se passa na cabeça das pessoas. Só porque ele não afirmou, em alto e bom tom, que você tinha razão, não significa que ele não tenha sequer parado para refletir sobre as suas palavras.

Alguns podem dizer que esse tipo de pensamento é ingênuo. E talvez seja mesmo. Mas, se excluir amigos no Facebook não está ajudando a melhorar o clima no país, talvez seja a hora de tentar algo diferente e partir para uma estratégia mais “inocente”. Quem sabe, não é?


Joanna Cataldo

Alérgica a machismo, pó e sentimentalismo barato. Costuma ser vista lendo no metrô ou tomando picolé de uva na esquina..
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