sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

Em 1095 um Papa professando a religião católica conduz milhares de fiéis à guerra santa, visando a recuperação de alguma cidade no meio do deserto. Hoje, um fanático professando a religião muçulmana conduz milhares de fiéis à guerra santa, visando a destruição de alguma cidade no meio da Europa. Em comum, pessoas que não têm nada a ver com isso.


“Ide, irmãos, ide com esperança, ao assalto dos inimigos de Deus que, há muito, dominam a Síria, a Armênia e países da Ásia Menor (...)"

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É assim que se inicia a conclamação do Papa Urbano II, em 1095, para que os fiéis Europeus aderissem à cartilha cristã de salvação do reino do senhor das mãos dos infiéis. Assim se iniciam as cruzadas, movimento militar religioso o qual pretendia, de qualquer forma, por mais vil que fosse, limpar o solo europeu daqueles que se apresentavam como “problema” (mendigos, doentes, pobres ...) e também angariar mais riquezas à nobreza que não possuía terra nem castelos (uma vez que o território europeu é limitado), era preciso acomodá-los, gerar servos, propriedades, caso contrário aconteceria uma inflexão revolucionária entre nobres.

Como uma empresa bem constituída, afinal a Igreja foi a maior empresa do mundo por séculos, o departamento de marketing trabalhou uma ideia cativante para que levantasse a vontade de cada um visando atingir seus objetivos e, claro, aumentar seus lucros. Era necessária a recuperação da terra santa, caso contrário, muçulmanos infiéis iriam destruir tudo o que cristo havia tocado e santificado. Temos pacotes específicos para sua condição social, sendo que todos eles garantem sua entrada no céu:

1) Você nobre sem posses, ou filho de nobre, que levar seus soldados, receberá alguns acres de terra, será erguido um castelo fortificado e você terá domínio irrestrito sobre todos os que habitarem em suas terras, podendo explorá-las da forma que quiser, pagando um pequeno imposto ao Papa. Saídas de navio ou comboios por terra, através do império Bizantino. Vagas limitadas para a salvação de sua alma e limpeza de seus pecados;

2) Você clérigo, sem paróquia e sem rebanho, se lutar pela causa ou converter os infiéis, poderá se tornar bispo de algum dos reinos recém criados e conquistados pelos nobres, ostentando lugar na corte, guarda pessoal, influência, riquezas e, quem sabe, poder-se-á tornar cardeal. Saídas de navio ou de comboio por terra nas expedições papais. Vagas limitadas;

3) Você servo, mendigo, doente, deficiente, que quer dar sua contribuição ao reino dos céus. Acredite que sua condição foi escolhida por Deus e que você pode trabalhar por ele, através da luta contra os infiéis. Vá à terra santa e lute ou sirva ao lado dos nobres que nos conduzem à vitória. Você será absolvido de todos os pecados e ganhará um lugar no céu, sem ter que pagar absolutamente nada. Saídas a pé, pela estrada que leva até Constantinopla ou, caso queira, pode se arriscar a ir nadando.

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Bem, a história já é conhecida, milhões de mortos de ambos os lados e não se conseguiu o domínio de Jerusalém uma vez que um Sultão Sarraceno, Saladino, estava no caminho dos cruzados e habilmente articulou a vitória muçulmana, restando alguns domínios para os Europeus, principalmente a Palestina e a Síria, que mais tarde se tornariam protetorados Britânicos. As mortes, muitas delas foram acontecidas fora das batalhas, no caminhar do fiel à terra santa, seja por afogamento, fadiga e ataques quaisquer durante a peregrinação.

Além da real intenção da limpeza a ser feita na Europa, existia a rusga de modernidade que separava o povo ocidental do povo oriental. O oriente médio era avançado no quesito cultural e científico, sendo repositório de pensadores, médicos, astrônomos, entre muitos outros, que deixavam a Europa a “ver navios” (literalmente) no que dizia respeito ao avanço. Enquanto cirurgias eram feitas no deserto, as doenças tomavam as capitais e feudos europeus, fulminando a população. Expectativa de vida de um homem europeu era de 35 anos, enquanto no grande oriente, era de 50 anos.

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Tal fato histórico pode ser considerado como uma verdadeira invasão europeia ao oriente médio, onde se buscava uma zona de conforto que não mais se tinha no velho continente, faltando infraestruturas para o suporte à população, gerando incidência de doenças, descontentamento dos nobres, guerras internas por espaço, derrotas para os próprios muçulmanos (mouros) dentro do continente quando estes invadiram a península ibérica. Havia a compressão de um povo diante do crescimento demográfico e das disputas internas e ameaças externas, onde a solução buscada foi uma peregrinação à chamada terra santa, ociosa no uso de suas bases, onde caberiam, folgadamente, aqueles que perturbavam o sossego europeu, além de se querer tomar os avanços de modernidade que o islã havia conquistado há tempos. Assim se deu a migração europeia ao oriente médio.

“Deus nos ordenou lutar. Pelo motivo pelo qual os soldados do Estado Islâmico estão lutando, nunca deixarão de lutar, mesmo que reste apenas um soldado”.

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Através dessas palavras, o líder do estado islâmico conclama seus “compatriotas” a lutar contra o ocidente, acusando-o de ser a origem dos infiéis e a causa das mazelas ao mundo, principalmente na região do oriente médio. Culpa-no de fomentar a guerra Síria, a autonomia do Curdistão e os podres que circundam todo o Iraque, Líbano e Irã. Diante disso, clama por uma “peregrinação” ao velho continente para que se ajustem as contas, através da morte própria, abraçando aos europeus e os levando juntamente consigo.

Professa-se a não preocupação com as consequências desses atos através de palavras descritas no livro sagrado, o qual informa que pomares e vinhas, virgens de seios redondos e firmes, com cálices cheios, estão à espera daqueles que concluírem a peregrinação com sucesso. Destruição, e não retomada, é o termo utilizado para dar ensejo à marcha pelo império Bizantino (hoje Turquia, Grécia, Macedônia, Bulgária, Sérvia, Montenegro e Croácia) e a travessia do Mediterrâneo, em movimento contrário ao feito durante as cruzadas cristãs.

A busca de uma zona de conforto pelo Estado religioso é gênese para uma população, a qual perde as bases de suas origens, que ruma numa verdadeira peregrinação, seja a pé ou pelo mar, ceifando suas próprias vidas tendo em mente as condições com que o caminhar acontece, como o fora feito há quase mil anos, repetindo-se uma história já vista, só que com a inclusão de aspectos modernos como a tecnologia, os meios de comunicação, as necessidades mais latentes que os tempos atuais nos impõe, sendo estas desde saúde até assistência humana, psicológica, existencial. São as massas que se veem combalidas de qualquer perspectiva de sobrevivência, onde esta se impõe acima de qualquer mensagem de arautos divinos. Só que hoje, a busca é por uma salvação efetiva, e não um lugar no céu!

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Ambos os episódios denotam a base de interesses quaisquer que alijam os aspectos sociais, a população que nada opinou ou tem a ver com a busca de saciedade dos desejos mais destrutivos por vir, inclusive almejando a tomada e a destruição dos círculos culturais e humanos existentes. O viés é pragmático para aqueles que conclamam, ou conclamaram, boas palavras, indicando ser o megafone divino! Para os que suportam a insanidade, o fim é pleno, creditando uma salvação qualquer, em nome qualquer, sendo que nem se quer puderam optar por querer ser salvo ou não! Até quando o parlatório divino será usado para o chamamento à loucura de poucos que se veem, como se Zeus fossem, donos de um exército de bonecos que estão a seu dispor para o que der e vier?


Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton .
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