sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

Max Aub e a humanização do crime

A criminologia foi desenvolvida por Lombroso para definir, de forma objetiva, fisicamente as características de alguém que tem propensão a cometer crimes, gerando uma classe especial de pessoas. Diferente da teoria lombrosiana, Max Aub mostra que aqueles que praticam delitos são tão humanos quanto os humanos.


Não foram poucos os que tentaram estabelecer traços psíquicos ou físicos para a delimitação de um humano criminoso. Tal assertividade ganha pujança com Cesare Lombroso, médico italiano (1835-1909) a quem é dada a criação da chamada criminologia, ramo científico que busca o estudo do crime e suas motivações com um olhar sobre o indivíduo. Dentre suas teorias, Lombroso delineia características físicas específicas da mente criminosa, como por exemplo, a existência de uma testa mais avantajada ou dedos da mão desproporcional à própria palma. A criatividade foi ao ápice quando estabeleceu, em seu pseudo-estudo, que os seres criminosos são mais altos que a média da população e se trajam inconvenientemente bem como possuem uma aparência “ruim”. Por fim, diz-se que os sodomitas e estupradores sempre possuem fisionomia feminilizada.

É vasta as características e teses construídas pelo médico italiano para justificar, em sua Itália natal, um acerto de contas com aqueles que não se prestavam a compor as fileiras dos bem amados e agradáveis, sendo a tese lombrosiana fronteiriça com o utilitarismo arraigado de Bentham, o qual também visava com intentos, diga-se assim, higienistas em uma Inglaterra pós industrial, onde o capitalismo avançava com seus tentáculos, gerando a destruição de valor para os trabalhadores e criando um exército de indigentes e maltrapilhos que “sujavam” a paisagem da bela Londres. Sendo o pior de tudo, as teses lombrosiana e benthaniana se proliferaram como rastro de pólvora, sempre na busca pela “construção” de uma cidade limpa e ordenada, uma sociedade justa.

O que fez Lombroso se não constituir arquétipos específicos para justificar a mente criminal e identificar as pessoas que poderiam gerar algum tipo de mal à sociedade. Ele desumanizou o crime, gerando estigmas específicos que explicavam o porquê de um criminoso ser diferente de todas as outras pessoas, criando um “sub-cidadão” ou alguém que é “diferente”, desumanizado. Tanto é que, em seus devaneios, o médico explica que há predileção criminal por tatuagens uma vez que esses “seres” não sentem dor alguma!

Max Aub nasce em 1903 em Paris, ruma para Valência, Espanha, em 1914, retorna a Paris, após vitória de Francisco Franco, em 1939 e foge do conflito Anglo-Germânico, após ser denunciado como inimigo do regime Vichy em 1940, indo ao México, onde morre em 1972. Jornalista, Romancista, escreveu o livro Crimes Exemplares, um compilado de recortes de depoimentos de criminosos condenados, criados ao longo de 20 anos.

Diferente de Lombroso, Aub transmite o quão humano são aqueles que praticam algum ato que contradiz às leis penais ou a boa fé dos sistemas de governo instalados ao redor do globo. Não há características físicas que possam gerar e medir a desumanização daqueles que possuem práticas delitivas, são simplesmente pessoas as quais, impulsivamente, reagem da forma que lhes convém reagir. São humanos.

“Quero ver entrar em greve agora!” é uma das confissões de alguém que atuou, ao extremo, contra um grevista, praticando um crime. Reação humana contra algo que não lhe apetece, é o ser humano não controlando seus instintos mais primordiais. “Matei-o porque me deram vinte pesos.”, sendo o capital o motor para a prática homicida, afinal, o que move o mundo se não o dinheiro? “Matei-o porque não pensava como eu.” demonstra que a divergência pode levar a vida a cabo, qual um dos piores sentimento se não o de contrariedade? A sobrevivência, o que nos trouxe até aqui, é relatada quando diz “matei-o porque era mais forte que eu”. Na visão lombrosiana, Davi seria alguém diferente por ter matado o gigante Golias, não humano, afinal, praticou um homicídio defendendo sua vida! Instinto de sobrevivência é uma das coisas mais humanas que há de se perpetuar. “De mim ninguém mais ri. Pelo menos esse não.”, é o bullying sendo ostentado, coisa de ser humano! “Matei-o porque minha mãe me pediu” onde qual filho não satisfaria os desejos de sua mãe?

Aub nos mostra que os que praticam delitos são tão humanos quanto aqueles que se dizem “limpos” ou “santos”, afinal, os sentimentos são os mesmos, as motivações são aquelas que movem diariamente as pessoas, contudo, aqueles são extremados, levando a cabo uma atitude que por pouco pode ceifar a vida de outros. Mais que isso, nos diz que há humanos por trás dos crimes, e como humanos devem ser tratados, se há o intento de uma expiação e recuperação plena. Com humanos, se usa humanidade!

cena de crime.jpg Max Aub.jpg


Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton .
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