sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

Política moderna matricida: as ideologias assassinadas

Direita, esquerda ou centro? Como a política moderna assassina as ideologias que lhe deram vida.


Quadra de Pela.jpg Juramento do jogo da Péla, onde os burgueses prometeram fazer reuniões até que uma constituição para o país estivesse aprovada. Assim se deu início à assembleia nacional constituinte, na quadra de péla do palácio de Versalhes

Remonta-se à definição de direita, esquerda e centro com a ascensão da Assembleia Nacional Constituinte Francesa, em 09 de julho de 1789, autoproclamada pelos revolucionários burgueses, os quais gostariam de impor suas vontades dentro de um governo absolutista, limitador de todas as ideias modernistas e iluministas da época. Em uma sala onde o rei praticava a Péla (squash da época), os maiores interessados juraram que só sairiam dali após votarem uma constituição à França, limitando os poderes reais e dando liberdade e igualdade a todos os cidadãos. Durante os debates desse novo instrumento de poder, havia três blocos de ideias, sendo que dois realmente as tinham e um era o partido, da época, que votava com a maioria (as semelhanças são mera coincidência).

De um lado, à direita, o bloco Girondino, adotando esse nome tendo em vista que a maioria de seus “deputados” era oriunda de uma região da França chamada Gironda (Estado territorial que faz fronteira com a Espanha). Arraigados na defesa da manutenção da monarquia, com a imposição de limitadores através da constituição, não eram adeptos de mudanças profundas na sociedade, bradando que o rei poderia ser mantido, como na Inglaterra o foi, havendo uma limitação total de poderes através de uma constituição criada pela Assembleia. Buscavam menos embate, mais tranquilidade e menos inflexões. Foram contra a decapitação do rei.

De outro lado, à esquerda, se sentava o bloco Jacobino, adepto de uma revolução profunda, com a destituição do rei e sua corte, nomeando efetivamente o povo à carga de governante, impondo as vontades populares a qualquer custo, extinguindo o ranço monarquista ou clerical da França. Assim era chamado tendo em vista que por muito se reunia no convento de Saint Jacques, para discutir sobre o novo ideário político para o país. Este tinha o apoio irrestrito dos sans-culottes (sem calças), massa popular a favor da revolução.

E ao centro, os que votavam de acordo com as maiorias, vagueando entre direita e esquerda, verificando os interesses próprios em cada votação e o que se ganharia com aquele posicionamento. É o pântano ou planície, que defendia a união de todos em torno da França, seja com a manutenção do rei ou não. É incerta a nomenclatura, contudo, indícios dão conta que o bloco é chamado de pântano por se mover, como lama, da esquerda para a direita e vice versa. E de planície, por estar na área inferior da sala de debates, sendo que aqueles sentados na ala superior eram chamados de montanheses (à esquerda, portanto, Montanheses Jacobinos).

Essa é a exegese da denominação ideológica política para os diversos partidos que atuam no cenário estatal, desde então, no mundo. A própria divisão física das câmaras legislativas nos diversos países possui algum tipo de arquétipo ligado aos fatos ocorridos durante o levante francês, havendo uma cisão clara entre direita, esquerda e centro. Contudo, como sempre, a modernidade nos traz à abdicação de conceitos, ou mais precisamente, o assassinato de ideologias repassadas há alguns séculos, as quais se tornam inviáveis tendo em mente o dinamismo político.

Na definição clássica francesa, os direitistas são os que menos querem mudanças, preferem alterações não substanciais na estrutura de poder (podendo ser ditos como conservadores), contrariamente aos esquerdistas, que defendem uma inflexão profunda, com o rompimento do status quo, trazendo movimento na base da estrutura (talvez liberais). Por fim, os centristas são aqueles que vão para onde for mais conveniente (interesseiros). Não existiam comunistas, socialistas, fascistas, nacionais socialistas, capitalistas, liberais, neoliberais, anarquistas, integralistas, trabalhistas, sociais democratas, ou seja, a nomeação que se queira dar. Simplesmente o que definia o seu lado era a vontade de se alterar profundamente o Estado, o modelo de poder e governo e a sociedade, ou não. Também, é equivocado o sentido de força na classificação, de coação. Há no senso comum a intuição de que a força, coação moral e física, é de direita (brucutu), sendo que a esquerda possui um pacifismo inveterado. Os jacobinos usaram da força e do terror (guilhotinaram o rei) para conseguir a revolução. Seriam direta conservadora? Aboliram a escravidão negra nas colônias francesas no novo mundo, eram esquerda liberal!

lincoln2.jpg Lincoln, Republicano esquerdista!

Podem-se observar classificações equivocadas sobre as ideologias ao longo de toda a história. Durante a guerra de secessão estadunidense, Abraham Lincoln (não o caçador de vampiros) foi eleito presidente filiado ao partido republicano, sim, o mesmo do pré-candidato Donald Trump. Contudo, a contrário senso da classificação moderna, aboliu a escravidão negra no território dos Estados Unidos, levando o país à guerra civil. À época, os democratas, o mesmo do partido do Obama, eram os maiores defensores do trabalho escravo, principalmente por questões econômicas, uma vez que seus lucros seriam reduzidos tendo em vista a contratação de mão de obra, pagamento de salários. Os republicanos da época eram extrema esquerda, geraram uma alteração do estado de coisas, trazendo avanço social.

Atualmente a denotação histórica nos ensina que o regime do Nacional Socialismo (Nazismo), nomeando Hitler em 1933 como chanceler através de uma ampla coalização democrática no parlamento (todos foram eleitos), é de extrema direita conservadora. Contudo, o ideário socialista era praticado através de manifestações governamentais pró-população, as quais visavam alterações substanciais no sistema político, econômico e social vigente até aquele período. Houve estatizações para que se garantisse o emprego e a qualidade das famílias germânicas, avanço no quesito educacional, reformando-se o ensino da palmatória, trazendo modernidade (e claro, matérias que exaltavam a Alemanha como senhora suprema do mundo). Houve inflexão, alteração do estado de coisas, não sendo um regime conservador no sentido político, econômico e social (para o alemão puro), e sim liberal, com reformas que trouxeram ganhos à sociedade. Cabe destacar aqui que os aprofundamentos destas reformas não a justificam de nenhuma forma, principalmente no que diz respeito ao caráter persecutório, higienista e impositivo pelo qual um louco tentou aplicar sua doutrina ao mundo.

Tal situação, extrema direita se tornando esquerda, não se deu apenas ao norte, mas ao sul também houve a mesma movimentação através de Mussolini, com o advento de seu governo fascista na Itália, onde se buscou a recomposição social para os italianos, através de atos ditos esquerdistas, alteradores do momento e do nível político e social. Do mesmo modo como em Berlim, houve estatizações, reformas econômicas que visavam garantias básicas à população bem como a tentativa mínima de se garantir um desenvolvimento social para o país. Isso é inegável, foram práticas vigentes à época.

stalin2.jpg Stalin: de tão extrema esquerda atravessou a fronteira da direita.

A dicotomia de lados é visível no regime nomeado esquerdista embrionado por Lênin e continuado por Stalin, conquanto de forma abrupta eliminou-se a família real, houve a estatização indelével de todo o sistema produtivo além Cáucaso e aglutinaram-se as decisões do proletariado à política nacional Russa, elevando à pecha decisória aos menos favorecidos. Exemplar o viés de extrema esquerda que a revolução bolchevique nos demonstra, contudo, a partir da estagnação de certa classe nos salões do Kremlin, há uma clara migração jacobina para o lado girondino em terras czaristas. O estamento mandatório não vê mais a possibilidade de se praticar reformas no poder ou alterações substanciais na forma de dominação, trazendo para si um conservadorismo político extremado, podendo ser classificado, como o nazismo o foi, de extrema direita. A manutenção do poder pelo poder, deixando de lado aquela série de planos que se tinha a praticar para o povo soviético. Atingiu-se o máximo do welfare state moscovita, afinal, não há crimes no paraíso sendo que se houver o capitalismo é o principal culpado.

Avançando um pouco nessa linha do tempo, qual seria a classificação dada ao sistema socialista democrático sueco, onde há uma interação do Estado com seus “súditos”, afinal ali é uma monarquia parlamentarista onde há o trabalho conjunto de conservadorismo real com liberalismo de esquerda, visando sempre ao atendimento das necessidades prementes dos governados. Esquerda ou direita? Centrismo ao extremo? Ali funciona tão bem que se torna chato viver, o índice de suicídios é alarmante!

Podem-se enumerar centenas de sistemas políticos os quais não há uma ideologia presente, onde o que rege são os interesses quaisquer que não aqueles construídos sobre a base de teorias que poderiam ser postas em prática. A ideologia dos lados (espacial) foi assassinada pela política moderna, matricídio sem dúvida, estando aquela relegada às lembranças históricas de quando em algum tempo, longínquo, o sujeito se dizia de esquerda por acreditar em Marx, e de direita por acreditar nos Republicanos Estadunidenses. As ideologias são substituídas por estereótipos construídos a base de muita dominação, ignorância e falta de boa vontade. Não é a força de coação ou a classe social que poderiam nomear sua ideologia lateral e sim a sua propensão a trazer mudanças efetivas a toda sociedade, podendo ser elas praticadas com um repositório socialista ou uma adesão cega ao capitalismo, sob rei ou presidente. O quanto à esquerda você está para inflexionar o que está ai ou o quanto à direita para se acomodar? Quer ser centro? Boa sorte!

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Pedro Magyar

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