sobre as coisas mundanas

Um olhar desapegado sobre o mundo e os mundanos

Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton

A POLÍTICA QUE VEM DO ORIENTE - CONFÚCIO

Por vezes somos instados a olhar apenas ao eurocentrismo como fonte de filosofia, principalmente política, tomando como máxima de que toda construção é oriunda do ocidente. Enganamos nossas teses quando há o descarte sumário do pensamento que existiu, por muito antes, no oriente próximo ou longínquo, dando origem a muito do que se estuda hoje.
Abramos nossos olhos para o que está oculto debaixo da filosofia ocidental!


confucio 3.jpg "Reinos" surgidos com a divisão do împério chinês

A história da China é rica na medida em que em um milênio antes de cristo havia a consolidação de império o qual passou por inúmeras transformações que, em se tratando de ocidente, iriam acontecer pelo menos mil anos depois. Não delineando um período longínquo para que não se perca, cabe estabelecer o início da jornada política com a dinastia Zhou, a qual governou o império de aproximadamente 1.122 até 256 a.C. Durante esse interregno algumas transformações aconteceram sob a égide da mesma família. De 771 a 481 a.C., período conhecido como das “Primaveras e Outonos”, o poder central foi partido, concedendo-se autonomia a líderes locais, os quais se tornaram senhores de terras, vilas e castelos. Pode-se estabelecer que surgiu um período feudal chinês, com o enfraquecimento do poder central, gerando hegemonias locais.

Em 551 a.C, nasce Kong Qiu, mais tarde chamado de Kong Fuzi, ou Confúcio (nome ocidentalizado). Tendo uma origem abastada em classe social privilegiada, não resguardou os benefícios após a morte de seu pai, quando teve que trabalhar como servo para sustentar sua família, sempre buscando estudar para se tornar funcionário público (naquela época, na China, já era necessário estudar para alcançar esse sonho!). Conseguiu o cargo de administrador na corte Zhou, onde desenvolveu toda sua teoria política mais tarde rechaçada pelo soberano, gerando sua demissão, uma vez que suas ideias eram vistas como absurdos.

Nessa época, surgira um novo estamento social, os eruditos, pensadores nomeados pelas cortes para aconselhar aos soberanos. Tal classe gerou alterações substanciais na administração política chinesa, contestando inclusive a origem do poder dos próprios soberanos a quem serviam. À época, a hereditariedade era definida como “mandato do céu”, ou seja, algo parecido com o que foi praticado na Europa durante o absolutismo, Deus escolhia os soberanos.

A cultura chinesa era (ou é) extremamente incrustada na crença da lealdade e do respeito, havendo o dever de ter em si essas duas virtudes. Foi com base nessa crença que Confúcio desenvolveu todo seu pensamento político, informando que quem possuía tais valores era homem superior. Só que esses valores deveriam ser trabalhados e aceitos em si, dever-se-ia aspirar tais qualidades sendo que tal aspiração se dava através da observação, do exemplo, onde a prática reiterada geraria um efeito multiplicador. Quando questionado sobre a imperfeição do ser humano, o filósofo aplicava que o homem não é perfeito, com certeza, contudo ele pode se transformar, caso o queira sinceramente, e possuir essas virtudes.

confucio 1.jpg Confúcio

A filosofia moral era a base do pensamento político o qual Confúcio praticava na corte, e o cerne da linha lógica era o de que sendo o governante bom, carregando virtudes, a sociedade seria boa e tentaria, ao menos, possuir as mesmas virtudes. E o governante, quando procurasse alterar as diversas situações sociais ou enfrentar questões, deveria possuir as virtudes que gostaria de ver em seu povo, assim haveria a reciprocidade. Sempre dizia que a relação entre o soberano e seu povo deveria espelhar a de pai para filho, uma vez que na China essa relação era tida como a mais importante.

Diante da perspectiva, Confúcio viu uma incógnita que poderia alterar os limites estabelecidos para os intelectuais que trabalhavam nas cortes, como justificar o poder dos soberanos? Para isso ele fundamentou o poder advindo do respeito tido aos pais como de suma importância, concluindo que se o pai determinou que o filho fosse o herdeiro do império, a decisão deveria ser respeitada como ato de virtude de respeito. Porém, a posição de governante não era vitalícia e muito menos incontestável uma vez que, para Confúcio, o questionamento é parte da evolução, inclusive em relação às posições que se ocupam dentro de uma sociedade. Nesta linha, o soberano injusto e inepto poderia ser deposto pela vontade dos súditos, inclusive, em caso de resistência do governante, poder-se-ia usar a força, podendo o assassinato ser praticado para concluir a deposição.

A principal inovação que o pensamento gerou foi o desenvolvimento da classe de ministros e conselheiros, os quais deveriam ser versados nos assuntos públicos e diplomáticos, a fim de orientar o soberano nas decisões necessárias à prática de um governo cheio de virtudes. Consolidou-se uma nova classe social, e todos da sociedade deveriam estar conscientes de seus exatos papéis. A necessidade de mobilidade social era vista pelo filósofo como forma de melhoramento da sociedade, independente da classe que se ocupa e o passado familiar. Se o cidadão possui habilidades suficientes para ser governante, vindo de uma classe de servos, que o fosse instado ao poder, removendo aquele que não demonstra nenhuma qualificação para tanto, por mais que sua família fosse nobre.

No campo legal, a crença era a de que o sistema de virtudes seria o regrador dos maus comportamentos. A base de raciocínio era negativa com o pensamento voltado para si, dizendo Confúcio que “o que você não deseja para si, não faça para os outros”. A análise dessa máxima geraria no povo o conceito de prevenção de maus comportamentos pela vergonha que sentiria de si mesmo ao quebrar a lógica da virtude. O povo seria direcionado pelo exemplo de virtudes e haveria um jugo ao respeito.

A teoria política de Confúcio era tida como impopular entre os nobres uma vez que o soberano poderia ser tolhido de suas prerrogativas e até retirado do poder caso surgisse alguém mais capacitado para tanto. Contudo, à época ela foi base para o que viria a acontecer no império, produzindo alguns outros pensadores que expandiriam o ideário. O cerne teórico diz respeito ao exemplo, à prática, que gera alteração de comportamento no outro, surgindo assim a filosofia moral prática, onde se busca, através de atitudes, consolidar questões morais, ou virtudes, dentro do campo político.

Muito se aduz sobre a semelhança das ideias de Confúcio com filósofos políticos ocidentais, quando da definição das melhores práticas para o governo. Porém, sempre prevalece o peso do Eurocentrismo, então finjamos que Confúcio é um pensador isolado no mundo e suas ideias são meros plágios!

“QUANDO ENCONTRAR ALGUÉM MELHOR QUE VOCÊ, VOLTE SEUS PENSAMENTOS PARA SE TORNAR COMO ELE. QUANDO ENCONTRAR ALGUÉM NÃO TÃO BOM COMO VOCÊ, OLHE PARA DENTRO E EXAMINE-SE” - CONFÚCIO


Pedro Magyar

"Não apenas estamos no mesmo barco, como todos sentimos enjoo". - Chesterton .
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